Posso ir às ruas de braços dados com feministas por salários iguais, diz Damares

Ministra da Família afirma que se uniria com críticas para combater violência contra mulher

Carlos Ohara
Brasília

Com um histórico de declarações considerado caricato por feministas, a ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), 54, disse que se engajaria em algumas lutas das mulheres.

“Tem pautas feministas que eu abraço. Por exemplo: salários iguais entre homens e mulheres e luta contra a violência. Se for para eu e as feministas irmos para as ruas de braços dados contra isso, eu vou. Mas sem o exagero de seios à mostra”, afirmou à Folha.

A ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), em seu gabinete - Pedro Ladeira/Folhapress

No encontro de uma hora e 45 minutos, a ministra disse ter sido incompreendida em suas falas, afirmou ser uma “ativista adormecida” exercendo o cargo e declarou amar gays e travestis. Ele chorou ao falar de Lulu, uma índia criada por ela e retirada de uma aldeia na região do Xingu “com autorização dos pais”.

Damares disse ainda que a Comissão de Anistia criada em 2002 por Lula passará por reformulação, com mudança de composição e revisão de indenizações.

 

Suas primeiras declarações no cargo foram consideradas caricatas, como a fala “menina veste rosa e menino, azul"...

Os ideólogos que estão do lado de lá me conhecem. Eu não estou fazendo este enfrentamento agora porque sou ministra. Esse enfrentamento, especialmente a ideologia do gênero, eu faço de uma forma veemente como ativista. Minhas palestras e meus vídeos são usados no Brasil inteiro e no exterior no combate a essa ideologia.

Esse público já me acompanhava e me criticava, só que do tamanho que eu era. As críticas que estou recebendo como ministra sempre recebi. Só que em menor proporção. Aumentou o público, mas sou vítima disso há muitos anos.

Especificamente quanto ao “menino veste azul e menina veste rosa” é uma metáfora extraordinária para mim. Como eu digo que menina é princesa e menino é príncipe. Onde está o erro? É tudo muito simbólico. Tanto é que descobri um projeto no Ministério da Cultura para o desprincesamento. Eu falo de princesa, eles falam de desprincesar. Eles podem falar que menino tem que vestir roupa neutra, eu não posso falar em azul. Para eles pode, para a ministra não pode. Mas isso acabou dando visibilidade ao nosso trabalho contra a erotização das crianças.

Houve transição entre as funções de ativista e ministra? 

A ativista está adormecida. Porque agora eu falo como Estado, meu discurso é de Estado. Mas as causas estão todas aqui dentro do coração e quero lembrar que foram essas causas que me trouxeram aqui. Mas agora tenho que obedecer as limitações que este cargo impõe. Há pessoas que gostariam que eu falasse mais. Por exemplo: eu já estaria gritando no caso da morte dos meninos que estavam no alojamento incendiado.

O momento, no entanto, é de ação e não de grito. Aqui no ministério recebemos denúncias de sete ou oito locais com situações semelhantes. Vou pessoalmente a esses locais. Com a Polícia Federal, Conselho Tutelar, Ministério Público, enfim, o que for necessário para evitar a repetição de uma tragédia. A motivação dessa ativista agora no cargo de ministra é a mesma.

Quais as ações que a ativista gostaria de realizar e que a ministra pode implementar?  

A proteção integral da criança. A gente proteger as crianças da erotização infantil, do consumo excessivo, da obesidade. Essas são as propostas que estamos elaborando para atender todas as crianças, incluindo indígenas, quilombolas, negros. Todos. 

Estamos de olho em todos os projetos de outros ministérios, sempre tentando encaixar propostas para defesa das crianças e da família. Vou dar um exemplo. Neste ano, a campanha publicitária oficial do Carnaval não terá imagens de crianças rebolando de forma erotizada como já ocorreu em governo passados. Neste ano vamos mostrar como proteger a criança. Vamos mostrar imagens de crianças brincando com as famílias. Este é o conceito de transversalidade determinado pelo presidente Bolsonaro.

A revista Época publicou reportagem na qual expõe dúvidas sobre o processo de retirada de uma menina índia de aldeia no Xingu, a qual a sra. chama de filha. A sra. a adotou legalmente ou a levou para casa?

A Lulu é minha filha e ela tem certeza que sou mãe dela. O que une eu e minha filha são laços afetivos. Ela chegou em minha casa entre seis e sete anos. Somos mãe e filha.

Existe um dispositivo jurídico que é adoção socioafetiva. Eu sou mãe socioafetiva de Lulu [o processo não foi formalizado na Justiça por ela]. Você pode me perguntar: por que você não adotou oficialmente Lulu? Porque Lulu tem mãe, pai e irmãos. Os pais de Lulu a amam. Quando eles me entregaram Lulu, foi para cuidar dela. Eles não me entregaram para adoção. Ela havia vindo para Brasília para tratamento de saúde e a conheci em uma instituição onde atuei como voluntária. Ela teve dificuldade de adaptação.

Nunca falei sobre adoção com eles porque achava desnecessário. Não é um papel que vai mudar o que sinto por Lulu e ela sente por mim. O que aconteceu é que Lulu ganhou uma mãe e eu ganhei uma família inteira. Lulu ainda vai voltar para a aldeia. É desejo dela. Ela ainda estudando e se preparando. Não temos qualquer investigação sobre isso, e acho improvável que alguém possa condenar essa relação de amor.

A sra. já se declarou contra o aborto. Como será o papel de seu ministério em relação ao Estatuto do Nascituro?

Essa questão está no Congresso e não tem consenso. Vamos respeitar o que for decidido em lei. Aqui no ministério o que vamos fazer é propor o Estatuto da Gestante e desenvolver políticas garantindo direitos para as mães e as crianças na fase gestacional.

Minha vontade era incorporar estas propostas no Estatuto do Nascituro, que já está avançado na tramitação. Mas, como há pontos polêmicos, vamos apresentar a proposta do Estatuto da Gestante. Queremos apresentar e desenvolver propostas que atinjam todos os brasileiros.

Pessoalmente sou contra qualquer tipo de aborto, mesmo em caso de estupro. Creio que deva haver lei dura para punir estupradores, mas não para condenar as crianças à morte. Já há gente suficiente para lutar contra isso, e este ministério vai cumprir a lei.

A sra. está trazendo a ativista antifeminista Sara Winter para o ministério? 

É uma figura extraordinária. Conheço a capacidade dela, fazendo duas faculdades ao mesmo tempo: uma presencial e outra a distância. Uma menina que já foi abusada, já dormiu na rua e se prostituiu e que deu uma virada na vida e se tornou uma ativista pró-vida. Ela vai ocupar um cargo de nível baixo [DAS 3, com salário de cerca de R$ 6.000]. Vai atuar no atendimento de mulheres em situação de risco.

A sra. é antifeminista? 

Sou anti-ativismo exagerado. Tem pautas feministas que eu abraço. Por exemplo: salários iguais entre homens e mulheres e luta contra a violência. Se for para eu e as feministas irmos para as ruas de braços dados contra isso, eu vou. Mas sem o exagero de seios à mostra. Sem a doutrinação que parece pregar o ódio aos homens.

A criminalização da homofobia está em debate no STF. 

Eu tenho posição bem clara sobre isso e o movimento LGBT sabe disso. Se passar do jeito que querem, os cristãos podem ser criminalizados por não aceitar. Porque eles entendem que, quando os cristãos dizem que é pecado a prática da homossexualidade, pode estar havendo discriminação. Não é discriminação, é expressão de fé. Há uns 25 anos criou-se uma guerra entre gays e cristãos no Brasil. A quem interessa essa guerra?

A quem?

Aos ideólogos da ideologia de gênero que usaram a dor dos gays para impor essa guerra. O que estes ideólogos fizeram? Trouxeram a ideologia de gênero, pregando que ninguém nasce homem ou mulher. Se ninguém nasce homem ou mulher, ninguém nasce gay ou lésbica também.

Eu respeito os gays e não tenho nada contra a opção sexual deles. Mas há movimentos que utilizaram os gays a serviço de partidos políticos e da ideologia de gênero. É isso que devemos rever.

A sra. vai revisar a Comissão de Anistia? 

Sim. A Comissão da Anistia precisa começar a pensar em acabar. Ela foi instituída para um período, mas não acaba. Todos os dias tem pedidos. Começou-se a abrir espaço na comissão para que pessoas que fizeram greve e foram demitidas peçam indenização como perseguidos políticos. Isto é indenização trabalhista!

A comissão foi criada para analisar os pedidos. Mas passou a publicar livros, produzir DVDs e até se aventurou em construção de prédios. Essa comissão perdeu o foco.

Vamos publicar novo regimento interno e definir o que fará a comissão. Vamos trabalhar na legalidade. Vou mudar a composição da comissão, constituída por 22 pessoas. Vou trazer pessoas técnicas, juristas, sem viés político.

A sra. falou em construção... 

Tem um memorial em Belo Horizonte. A construção passou de R$ 20 milhões, mas nunca saiu do papel. Não é papel da comissão construir obras. Seu trabalho é analisar pedidos. O resto é dinheiro público jogado fora.

Em entrevista à rádio Jovem Pan, a sra. aconselhou pais e mães de meninas a deixarem o país para fugir da violência sexual. Esta seria a solução? 

Eu estava falando sobre números levantados pela Save the Children, que mostram que o Brasil é o pior país da América do Sul para se criar meninas devido à violência. 

Até então, eu apresentava esses números em minhas palestras e dizia a frase com a indagação: “Nós vamos ter que fugir do país?”

No dia em que foi gravado o áudio, usei essa frase de forma irônica, referenciando o meu discurso de posse, quando encerrei dizendo que “ninguém vai precisar fugir do Brasil”.

Mas, se houve confusão no entendimento da frase, desfaço aqui: pais e mães de meninas podem ficar tranquilos. Vamos mudar essa situação para que possam criar suas princesas no Brasil.

 

Raio-X

Damares Alves, 54
Nascida em Paranaguá (PR), é pastora evangélica e foi assessora no Congresso. Formou-se em pedagogia (Faculdade Pio X, de Aracaju, em 1986) e direito (Faculdades Integradas de São Carlos, em 1992)

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