Descrição de chapéu Lava Jato

'Foi um escracho, para humilhar', diz advogado sobre a prisão de Temer

Eduardo Carnelós, que defende ex-presidente, critica a Lava Jato, diz que acusação ofende a aritmética e que risco de nova prisão é 'abuso'

Daniela Lima
São Paulo

"O que foi feito foi um escracho, foi para humilhar". Quem afirma é o advogado Eduardo Carnelós, que defende Michel Temer. Na primeira entrevista após a prisão do emedebista, ele critica a Lava Jato e diz que investigadores ofenderam a aritmética ao acusar o ex-presidente de 40 anos de prática de corrupção.

Eduardo Carnelós, advogado do ex-presidente Michel Temer
Eduardo Carnelós, advogado do ex-presidente Michel Temer - Mateus Bonomi - 25.out.2017/Folhapress

Sobre o juiz Marcelo Bretas, provoca: "Não precisei ler mais do que a sentença para saber que o que foi feito não tinha fundamento".

Como o ex-presidente reagiu à prisão? Ele tinha acabado de sair de casa, estava a caminho do escritório, é a rotina dele. Sei que me ligou dizendo que havia sido abordado na rua. "Uns rapazes da Polícia Federal avisaram que estão me levando preso", ele disse. Custei a crer.

Aliados reclamaram da abordagem. Ele falou algo? Do ponto de vista do tratamento, não houve nada de violência. Agora, não entendo por que foi feito daquele jeito, na rua.

Havia dúvidas de que ele estava em casa... Não foi isso o que eu ouvi do delegado da PF no aeroporto de Guarulhos. Ele disse que houve atraso de uma das equipes. Já havia jornalistas na frente da casa dele... Isso foge da normalidade. Ele tem residência conhecida, endereço comercial, 78 anos... Veja, sou a favor de liberdade de imprensa, mas ninguém precisa escrachar.

Ele foi escrachado, é isso? A forma como ele foi exposto é uma forma de escrachar, sim. Por que não cumprir o mandado em silêncio? É para isso, é para escrachar. O que se fez foi escrachar, humilhar, enxovalhar a honra das pessoas.

O ex-presidente é acusado de chefiar uma organização criminosa, de praticar corrupção há 40 anos. Além de agredirem o direito, com essa afirmação atacaram impiedosamente a aritmética. Temer exerceu cargos públicos em SP na década de 1980, sem qualquer influência na esfera federal. Em 1987 foi constituinte. [...] Em 1995 assume como líder da bancada do PMDB.

O presidente FHC disse que o partido havia sugerido um nome para o Porto de Santos. Ele consulta a bancada, confirma e indica. Nasce a lenda "Temer manda no porto".

Contratos que ainda estão em vigência fazem parte da peça que levou à prisão dele. Para começar, este assunto não é da competência da 7ª Vara do Rio [do juiz Marcelo Bretas], e isso não sou eu quem diz, mas a própria procuradora-geral ao oferecer denúncia no caso do decreto dos portos.

Cópia do processo vai para o Rio por uma delação da Engevix sobre a Eletronuclear. Daí, inclusive, se chega à soma de R$ 1,8 bilhão em propina... Fico impressionado que gente investida de autoridade saia a dizer tanta aleivosia. De onde sai esse número? Não sabem nem fazer a conta de há quanto tempo existe a tal quadrilha...

Há uma relação de contratos dos portos, da Eletronuclear, Petrobras... Então somam tudo e isso tudo virou propina? Ninguém prestou serviço? Nenhum material foi adquirido, nada foi entregue ou utilizado? Em 2003, Lula ganha a eleição. O MDB foi oposição por seis anos. Falam que Temer atuou ininterruptamente. Na oposição? Não se pode dizer que o PT seja generoso com adversários.

Há suspeita de que Temer lavou dinheiro de Angra 3 por meio da empresa do coronel Lima, em uma reforma na casa da filha dele. Mais ilegalidade. Na manifestação que requereu a instalação de outros inquéritos, a PGR disse que esse fato não está vinculado à Eletronuclear. A decisão do juiz avançou naquilo que não era de sua competência.

O Ministério Público diz que o grupo de Temer tinha um serviço de contrainteligência... Essa história é falta de inteligência de quem afirma, ou má-fé, ou as duas coisas. Eu, então, talvez esteja fazendo um serviço de contrainteligência porque exijo limpeza no escritório. Uso triturador de papel. Não deixar papel acumular é fazer isso?

Há suspeita de que estavam monitorando investigadores. Quem? Estou mostrando que não existe esse grupo.

Há, no grupo, quem esteja preso e condenado, Eduardo Cunha (MDB-RJ), por exemplo. Isso não significa que tenha a participação do presidente Temer. Não sou advogado dos outros. Mas porque se tira essa conclusão? Porque se quer fazer dele o chefe. Essa organização de 40 anos, ela não existe. Que tinham dados de investigadores eu desconheço.

Foi citado, inclusive, em entrevista coletiva. Muita gente, advogados, juristas, gente que não gosta do Temer prestou solidariedade. Gente que viu que o que estava acontecendo ali ia além. Disseram que estranho seria se Temer não tivesse sido preso pois tinha "uma vida inteira de crimes". Como se acusa alguém disso? Acusa-se com fato concreto. Isso não é fazer acusação. É caluniar. É discurso político.

Os aliados dizem que será difícil, dado o volume de casos, manter o ex-presidente longe da cadeia. Me preocupo, mas com uma eventual reiteração de abuso. Não com a decretação de medida consistente. Os procuradores do Rio fizeram um catado de outros inquéritos e representaram dia 15. A distribuição e a autuação se dá no dia 18. É curioso que dia 19 tenham vindo duas decisões.

O que quer dizer? Não sou leviano. O juiz se mostrou indignado com a celeridade do habeas corpus. A decisão dele tem 46 páginas, a representação do Ministério Público 384. Os autos, 4.000. Ele diz que não tive tempo de ver os autos. Não precisei ler mais do que a decisão para saber que o que foi feito não tem fundamento.

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