Bretas não descarta entrar na política e diz que é preciso trocar cúpula do poder

Juiz da Lava Jato no Rio falou a empresários e investidores nos Estados Unidos

Marina Dias
Nova York

Marcelo Bretas avisou logo no início de seu discurso na tarde desta sexta-feira (26) em Nova York: "É uma conversa informal. Obviamente, não pretendo ser aqui um juiz, mas um trabalhador brasileiro trazendo a impressão do que a Justiça tem feito nos últimos anos no país".

Em palestra a empresários e investidores dos Estados Unidos, o juiz responsável pelos desdobramentos da Operação Lava Jato no Rio admitiu que não descarta entrar na política, disse que é preciso trocar a cúpula do poder para combater a corrupção e, de saída, fez críticas à principal bandeira do governo de Jair Bolsonaro, a reforma da Previdência.

"Eu queria ter a resposta mais ampla de como resolver o problema no Rio, mas é muito difícil pra mim, vai além da minha capacidade. Quem sabe daqui a alguns anos, se eu me aposentar, não me torno um político, né? Pode ser, eu não sei", disse sob risos da plateia de cerca de 40 pessoas em uma das salas da Câmara de Comércio Brasil-EUA.

Em seguida, apressou-se a acrescentar: "Sei que a imprensa está aqui, então adianto que não tenho um projeto, não estou planejando nada disso mas, quem sabe, um dia eu espero aposentar. Se eu tiver saúde e chegar até lá, até porque a aposentadoria está sendo difícil, vai ser um produto escasso qualquer dia no Brasil também".

As mudanças nas regras da aposentadoria enviadas ao Congresso pelo atual governo propõem que homens parem de trabalhar com idade mínima de 65 anos e mulheres, 62, ao final de um período de transição de 12 anos. Hoje, as mulheres podem se aposentar aos 60 anos e os homens aos 65, com tempo mínimo de 15 anos de contribuição.

A declaração de Bretas a um questionamento da plateia sobre como resolver o problema das favelas do país, que têm no crime organizado um dos principais provedores de serviços públicos.

"Sua pergunta é excelente, muito ampla, mas ela não deveria ser dirigida a um juiz, talvez a um governador", disse o magistrado.

Em seguida, afirmou que quando o primeiro escalão do governo é corrupto, a base, naturalmente, também não tem compromisso com a legalidade. "Então o chefe de milícia se acha dono daquilo ali."

"Eu acredito que dando o exemplo, punindo quem tem que ser punido, aplicando a lei como deve ser aplicada, trocando os governantes —no caso do Rio houve mudança muito grande da força política, uma que estava lá há décadas foi substituída— espera-se que a coisa tenda a melhorar".

Bretas é amigo próximo do novo governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), que sucedeu Sérgio Cabral, hoje preso, no comando do estado.

O discurso do juiz se encaixa na crítica feita por parlamentares e dirigentes de partidos de que os agentes envolvidos no comando da Lava Jato têm um projeto político. O ex-juiz Sergio Moro, que comandava a operação em Curitiba, por exemplo, tornou-se ministro da Justiça de Bolsonaro depois de negar reiteradas vezes que entraria para o governo.

Ainda de acordo com Bretas, a corrupção no Brasil envolve autoridades e a influência que elas têm sob os serviços e órgãos públicos. Por isso, argumento, não é possível dizer que o Judiciário é isento de influência política.

"Os senhores devem saber que as próprias nomeações para tribunais superiores são nomeações políticas, não estou dizendo que os ministros nomeados estão fazendo nada errado, a constituição prevê este desenho. O fato é que não se pode negar que existe um componente político na formação do Poder Judiciário nas instâncias superiores, o que não existe nas instâncias inferiores".

Adeptos às redes sociais e criticado por falar fora dos autos, o juiz afirmou ainda que gosta de postar fotos quando está na academia e dar entrevistas, mas que não precisam esperar que ele apareça um dia "na capa da revista Vogue", afirmou em referência à publicação dedicada à moda e comportamento.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.