Temer faz diário da prisão e cita força de Marcela e calma de Michelzinho

À Folha ex-presidente disse que circulou por corredores de sede da PF e recebeu omelete

José Marques Felipe Bächtold
São Paulo

Nas quatro noites em que dormiu na sede da Polícia Federal no Rio, quando ficou preso preventivamente por determinação do juiz Marcelo Bretas, o ex-presidente Michel Temer escreveu 90 páginas a mão contando as "sensações do dia". Chama o texto de "Memórias do Arbítrio".

"Dariam umas 30 páginas datilografadas", disse o ex-presidente em entrevista à Folha. Ele ainda não pensa em publicar o conteúdo do diário.

Temer, que voltou à sua casa em São Paulo após habeas corpus do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, se exalta mais ao falar das acusações às quais o Ministério Público Federal imputa a ele do que dos dias em que passou preso —ou detido, como chama.

Preso ao sair de casa no último dia 21, ele chegou à PF no Rio por volta das 19h. Faz questão de destacar a "delicadeza estupenda" com que foi tratado pela Polícia Federal.

"Primeiro me levaram para a superintendência, já tinham separado duas salas e um banheiro na corregedoria do departamento", afirma. 

"Botaram uma cama. Estava tudo preparado, os delegados me receberam muito gentilmente. Aliás, tive o prazer de ouvir de vários deles e de agentes, que me chamavam de professor: 'fiz concurso com seu livro'", diz o ex-presidente, que fez carreira como advogado constitucionalista.

No primeiro dia, os policiais federais ofereceram um jantar, mas Temer recusou e disse que estava sem apetite. Na manhã seguinte, às 8h, um delegado apareceu para perguntar se ele queria tomar café da manhã.

"Eu disse: 'O que vocês tomam aí? Café com leite e pão com manteiga? Pode trazer'", conta. Mas o delegado decidiu que ele merecia algo melhor: omelete com queijo e frutas.

A porta da prisão ficava aberta e, no fim de semana, o ex-presidente podia circular pelo corredor. Um agente ficava o vigiando, mas deixou claro que era questão de protocolo. "Ele ficava conversando comigo".
Além de escrever, o ex-presidente alternou a leitura da biografia do ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill (1874-1965) e "A Praça e a Torre", do historiador escocês Niall Ferguson.

Havia uma TV no quarto, mas Temer afirma que não chegou a ligá-la, porque "sabia que só veria notícia ruim".

Ele diz que não acreditava na possibilidade de ficar preso por anos, como outros detidos preventivamente pela Lava Jato. "Por mais que as pessoas pudessem me fustigar, era tão inadequada a decisão jurídica que eu disse: 'Isso não vai durar muito tempo, não pode, sob pena de a gente estar num regime de direito que não vale mais nada'", afirma.

Não recebeu visitas de familiares, apesar de a mulher, Marcela, e as filhas se prepararem para ir ao Rio. Temer afirma que não queria que elas o vissem "trancado, detido".

Marcela é mãe do filho mais novo de Temer, conhecido como Michelzinho, 9. Segundo o ex-presidente, ela e a filha Maristela, que é psicóloga, explicaram a situação à criança.

"Quando voltei ele obviamente me abraçou com muito entusiasmo. Ele está muito tranquilo, não houve problema nenhum", relata. 

Marcela, diz ele, ficou abalada, mas "foi forte". "Ninguém vai dizer que numa coisa dessa natureza a família não se sinta agredida, isso é inevitável."

Após sair da prisão, o ex-presidente virou réu em quatro ações. A Procuradoria recorreu para que ele volte à prisão.


O que pesa contra o ex-presidente

Eletronuclear
O quê 
Coronel João Baptista Lima Filho é suspeito de pedir, com anuência de Temer, R$ 1,1 milhão a José Antunes Sobrinho, sócio da Engevix, no contexto de um contrato para a construção da usina de Angra 3

O que diz Temer Nega irregularidades, diz que nada foi encontrado nas suas contas bancárias e que acusação carece de provas
 

Reforma
O quê 
Maristela, filha de Temer, e outros são suspeitos de lavagem de dinheiro por meio de reforma na casa dela, em SP. Materiais foram pagos em dinheiro vivo por mulher de coronel amigo de Temer

O que diz Temer Nega que haja esquema. Diz que a filha tinha condições de arcar com os custos da reforma e que provará isso em juízo
 

Tribunal paulista
O quê Suspeita de superfaturamento e de serviços não executados pelo consórcio Argeplan/Concremat, contratado por cerca de R$ 100 milhões para realizar obras no Tribunal de Justiça de São Paulo. Para PGR, Argeplan pertence de fato a Temer

O que diz Temer Nega ter relação com a Argeplan


Terminal Pérola
O quê 
Suspeita de contrato fictício, de R$ 375 mil, para a prestação de serviço no porto de Santos

O que diz Temer Nega e diz que a acusação é fantasiosa


Construbase e PDA
O quê 
PDA, uma das empresas do coronel Lima que consta de relatórios de movimentação financeira atípica feitos pelo Coaf, recebeu da Construbase, em 58 transações, R$ 17,7 milhões de 2010 a 2015. Outro contrato suspeito, de R$ 15,5 milhões, é entre Argeplan e Fibria Celulose, que atua no porto de Santos

O que diz Temer Nega ter relação com a Argeplan


Portos
O quê 
Temer foi denunciado sob a acusação de beneficiar empresas do setor portuário em troca de propina

O que diz Temer Nega e diz que não é responsável pelos portos só porque assinou um decreto


Jantar no Jaburu
O quê 
PF e PGR concluíram que Temer e ministros de seu governo negociaram com a Odebrecht, em um jantar em 2014, R$ 10 milhões em doações ilícitas para o MDB

O que diz Temer Nega irregularidades
 

Quadrilhão do MDB
O quê Temer foi denunciado sob acusação de liderar organização criminosa que levou propina de até R$ 587 milhões em troca de favorecer empresas em contratos com Petrobras, Furnas e Caixa

O que diz Temer Considera a acusação sem sentido e afirma que nada de irregular foi achado em suas contas bancárias
 

Mala da JBS
O quê Temer é acusado de ser o destinatário final de uma mala com propina de R$ 500 mil e de promessa de R$ 38 milhões em vantagem indevida pela JBS

O que diz Temer Nega irregularidades

 
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