Confiança na democracia sobe, mas insatisfação com seu funcionamento é de 58%

Segundo pesquisa, percentual dos que se identificam com a direita no Brasil é o maior desde 2006

Flávia Faria
São Paulo

Quase 6 em cada 10 brasileiros não estão satisfeitos com o funcionamento da democracia no Brasil. A conclusão é do Barômetro das Américas (Lapop), pesquisa de opinião que avalia a percepção sobre o sistema democrático e as instituições políticas no continente americano.

O percentual registrado (58%), contudo, representa uma queda em relação ao aferido em 2017 (78%).

Também cresceu a proporção dos que acreditam que a democracia é a melhor forma de governo. Eram 52% em 2017, agora são 60%. Cerca de um terço da população, porém, é favorável a um golpe militar em um cenário de muita corrupção.

Entre janeiro e março, o Barômetro entrevistou 1.498 brasileiros em cidades de todo o país. A pesquisa é coordenada pela Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, e é realizada desde 2006, em geral a cada dois anos.

No Brasil, o estudo teve parceria da Fundação Getulio Vargas (FGV) e a coleta das entrevistas foi feita pelo Ibope. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais.

Para o cientista político Jairo Pimentel, do Centro de Economia e Política do Setor Público (Cepesp) da FGV, os resultados mostram que as eleições de 2018 trouxeram um pouco de otimismo na visão do brasileiro sobre as instituições democráticas. “O processo eleitoral depois de longa crise política deu uma arejada na nossa democracia”, diz.

Outro fenômeno observado na pesquisa é que, pela primeira vez, há uma grande diferenciação entre o que pensam direita e esquerda. Na última década, explica George Avelino, também do Cepesp, a opinião dos espectros ideológicos não apresentava grandes variações. Em 2019, as discordâncias ficaram bem visíveis.

Abaixo, confira os principais resultados. 

Crescimento da direita

Pela primeira vez desde 2012, há mais brasileiros que se declaram de direita do que de esquerda. Os direitistas são 39% (maior número já registrado) e os esquerdistas, 28%.

Para Jairo Pimentel, da FGV, o sentimento antipetista e o desalento ligado aos escândalos de corrupção abriram margem para que políticos ligados ao espectro conservador captassem parte do eleitorado. Segundo ele, o crescimento da direita está aliado a uma crítica ao sistema político e democrático estabelecido no Brasil, que veio na esteira do bolsonarismo.

“Houve estabilidade entre direita e esquerda na última década, mas hoje a gente observa aumento de dez pontos percentuais [nos adeptos da direita]. Isso tem muito a ver com a capacidade de lideranças de representar, em termos ideológicos, aquilo que boa parte da população já pensava, mas não encontrava alguém para ecoar seus anseios”, diz.

Medidas autoritárias

Para 35% dos brasileiros, um golpe militar seria justificável em um cenário de muita corrupção. O apoio ao golpe cresce para 43% entre os que se consideram de direita e para 47% entre evangélicos. 


Ainda assim, a maioria dos brasileiros (65%) é contrária à tomada do poder pelos militares. Não houve variação em relação aos resultados 2017.

Também é expressivo, embora minoritário, o percentual de entrevistados que acham que o presidente pode dissolver o STF (Supremo Tribunal Federal) e governar sem o tribunal caso o país enfrente dificuldades: 38%. O número mais que dobrou desde 2012, quando 13% eram favoráveis à medida. Aqui a direita também se destaca, com 52% favoráveis à medida.

“O apoio à democracia continua alto, mas metade das pessoas que se dizem de direita tem vontade de fechar o STF. Existe uma metade mais radical que pode puxar o outro grupo”, diz George Avelino, pesquisador da FGV.

Ele ressalta, porém, que o descontentamento com a corte encontra eco em todos os segmentos ideológicos. “O que é mais preocupante é que há apoio nos três grupos, embora a direita se destaque mais. O STF não está conseguindo agradar ninguém”, afirma.

 

Em 2018, o Supremo negou por mais de uma vez habeas corpus ao ex-presidente Lula (PT), em decisões que desagradaram parte da esquerda.

Por outro lado, a corte tem sido vista por grupos mais radicais de direita como conivente com a corrupção. No domingo (26), o STF foi um dos principais alvos das manifestações de rua pró-governo.

Apoio à democracia

Voltou a crescer o percentual dos que consideram a democracia a melhor forma de governo. Eram 52% em 2017, agora são 60%. 

Para Pimentel, o resultado é visto como fruto de um otimismo com o último processo eleitoral —a maior parte das entrevistas foi feita em fevereiro, com poucos dias de governo de Jair Bolsonaro (PSL).

“O dado revela que as últimas eleições reforçaram as crenças das pessoas na democracia e no processo eleitoral. Houve alternância de poder e isso se refletiu no aumento da confiança nas instituições e na democracia”, diz Pimentel.

Ainda assim, 58% dizem que não estão satisfeitos com o funcionamento do sistema democrático brasileiro. Apesar de expressivo, houve queda de 25% no percentual de insatisfeitos em relação a 2017.

Confianças nas instituições

Cresceu a proporção de brasileiros que dizem respeitar as instituições políticas. Dos 41% em 2017, agora são 51%, segundo maior valor da série histórica, que teve início em 2006.

Comparativamente, contudo, o resultado não é dos mais animadores. De 13 países avaliados no levantamento, o Brasil é o 9º lugar no ranking de respeito às instituições. Fica atrás de Nicarágua, México e Guatemala, por exemplo. 

A instituição que mais gera confiança são as Forças Armadas (70%). Os brasileiros também são o segundo povo que mais aprova os militares —perdem apenas para os equatorianos (73%).

Congresso e partidos políticos, por sua vez, estão na lanterna, com a confiança de 31% e 13%, respectivamente.

Corrupção

Para 79% dos entrevistados, mais da metade dos políticos é corrupta. Esse é o terceiro maior valor entre 13 países pesquisados, perdendo apenas para Peru e Panamá.

Os que acreditam que todos são corruptos somam 29%, cerca de 1 a cada 4.

Segundo Pimentel, a percepção sobre corrupção generalizada na política está bastante associada aos desdobramentos da Operação Lava Jato, que atingiram diferentes partidos e levaram quadros importantes das legendas à prisão. 

Mudar o cenário de improbidade entre a classe dos políticos, ele diz, pode ser um processo demorado, que envolve o aumento da capacidade do Judiciário de punir desvios e o aprimoramento da educação política do eleitor.

“Uma maior conscientização do eleitor tem a ver com aumento da escolaridade, da educação política. É um processo histórico, que não se resolve com canetada ou golpe”, diz.

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