Polícia acha dólares e euros escondidos em casa ligada a ex-corregedor da Fazenda-SP

Marcus Vinícius Vannucchi foi alvo da Operação Pecunia Non Olet, do Ministério Público do Estado

José Marques
São Paulo

Em nova busca e apreensão, policiais acharam nesta sexta-feira (7) dólares e euros escondidos em um fundo falso de móvel na casa de Olinda Vannucchi, ex-mulher de Marcus Vinícius Vannucchi, que era corregedor-geral da Secretaria da Fazenda de São Paulo até o último dia 2.

Após a ação, Olinda foi presa. Os policiais contabilizaram US$ 180 mil e 1.300 euros.

Também foram apreendidos documentos escondidos no móvel, que ficava atrás de um cômodo com parede falsa, considerado por investigadores uma espécie de “bunker” do ex-corregedor.

Vannucchi foi preso temporariamente nesta quinta (6) durante a Operação Pecunia Non Olet (dinheiro não tem cheiro, em latim), feita pelo Ministério Público de São Paulo, Polícia Civil e Receita Federal.

Ele é suspeito de cobrar propina de fiscais que eram investigados pela Secretaria da Fazenda. A segunda busca e apreensão foi feita a partir de outra decisão judicial.

O ex-corregedor foi encontrado pela polícia na casa da ex-mulher, em Itatiba (a 84 km da capital). O órgão diz que, depois que ele se separou, passou todo o seu patrimônio para ela, em uma suposta tentativa de fraude para se livrar dos bens ilícitos.

Em busca anterior à casa de Olinda, já haviam sido encontrados R$ 19 mil em espécie. Já no apartamento de Marcus Vannucchi, em São Paulo, foram encontrados R$ 2.000.

As investigações vêm ocorrendo desde março e apuram suspeitas das práticas dos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. A reportagem não conseguiu localizar a defesa do ex-corregedor.

Na decisão do juiz Pedro Luiz Fernandes Nery Rafael, que autorizou a prisão, ele ainda proíbe o ex-corregedor de exercer a atividade de fiscal tributário do estado ou entrar em contato com outros fiscais, bloqueia 37 imóveis de Vannucchi, de suas empresas e de seus familiares e suspende a atividade dessas firmas.

Doláres empilhados em cima d euma mesa
Dólares encontrados pela Polícia Civil na casa da ex-mulher do ex-corregedor da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, Marcus Vinícius Vannucchi, preso na quinta (6); dinheiro estava escondido em um fundo falso de um móvel - Reprodução

O quadro apresentado pelos investigadores ao juiz aponta, segundo o magistrado, para “a possível existência de verdadeira associação criminosa encabeçada por Marcus (Vannucchi), que atua nas entranhas do Estado com a única finalidade de se beneficiar pessoalmente, contribuindo para o quadro constante de hemorragia interna de nossa República, que encontra-se econômica e moralmente em frangalhos.”

Vannucchi estava no cargo desde 2016, nomeado no governo Geraldo Alckmin (PSDB), e foi afastado a sete meses do fim de seu mandato, sob a justificativa de que “o próprio servidor apresentou à administração pedido para que cessasse sua designação, em razão de questões de ordem familiar”.

Segundo o promotor de Justiça Marcelo Mendroni, após a ordem de prisão ser lançada, “por motivos que não sabemos, coincidência ou não, ele foi exonerado do caso de corregedor”.

Mendroni suspeita que a separação foi de fachada para esconder o patrimônio. “Depois de separar viajou duas vezes para o exterior com essa ex-esposa”, afirmou.

Vannucchi é chamado pelo promotor de o “corrupto dos corruptos” —ou seja, a pessoa que, segundo ele, cobrava propina para não investigar funcionários públicos que, por sua vez, já haviam cobrado propina de empresas.

As investigações do Ministério Público apontaram que, após ele assumir o cargo, sua família teve uma “absurda evolução patrimonial”. Foram comprados 65 imóveis, parte deles foi negociada.

A mãe do ex-corregedor, uma professora, teve o patrimônio aumentado em R$ 2 milhões em 2016; o da ex-mulher, entre 2012 e 2018, variou R$ 7,5 milhões; e o do filho, que nunca trabalhou formalmente, R$ 1 milhão.

Como a Folha revelou, Vannucchi abriu processos administrativos contra servidores que se dispuseram a informar ao Ministério Público suspeitas de irregularidades dentro da Secretaria da Fazenda.

Doláres empilhados em cima d euma mesa
a Dólares encontrados pela Polícia Civil na casa do ex-corregedor da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, Marcus Vinícius Vannucchi, preso na quinta (6); dinheiro estava escondido em um fundo falso de um móvel - Reprodução

Foi sob o comando de Vannucchi, por exemplo, a corregedoria tentou demitir funcionário que ajudou o Ministério Público a investigar a chamada máfia do ICMS, acusada de cobrar propina de grandes empresas para reduzir a cobrança do tributo.

O funcionário havia repassado informações que ajudaram o Ministério Público a desmontar o esquema. Em 2017, 12 fiscais de rendas viraram réus sob suspeita de integrar o grupo, acusado de pedir dinheiro a grandes empresas para reduzir a cobrança de ICMS feita pelo estado.
 

À época, o corregedor passou a ser investigado pelo Ministério Público de São Paulo sob suspeita de atrapalhar as apurações do caso.

Ainda assim, ele seguiu com o processo que tentava expulsar o delator do governo, um agente fiscal de rendas chamado Henrique Poli Júnior.

O funcionário teve que entrar na Justiça para se manter no cargo. Este ano, o Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu que Poli Junior não deveria ser expulso e que sua conduta foi irrepreensível.

Vannucchi também tomou outras decisões questionadas internamente, como o arquivamento de processos administrativos relacionados a agentes tributários investigados em operações policiais.
A reportagem não conseguiu localizar a defesa de Macus e Olinda Vannucchi.

Em nota divulgada na quinta, a Em nota, a Secretaria da Fazenda e Planejamento informou que os fatos noticiados “serão objeto de procedimento de apuração administrativa, independentemente das investigações realizadas pelas autoridades policiais e pelo Ministério Público”. 

“A Secretaria da Fazenda e Planejamento reitera que não compactua com condutas ilícitas por parte de seus servidores e mantém rigor na apuração das mesmas, e quando comprovadas, adota medidas punitivas rigorosas previstas em lei para situações da espécie”, diz o comunicado. 

“Esclarece também que irá colaborar com as investigações e, como de costume, permanece à disposição das autoridades para quaisquer esclarecimentos.”

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