Abrigado em gabinetes da Assembleia, grupo pró-Bolsonaro planeja expansão

Direita SP, com coordenadores nomeados assessores parlamentares, quer ocupar espaço do MBL

Fábio Zanini
São Paulo

À medida que o MBL (Movimento Brasil Livre) se distancia do governo, outro grupo formado por jovens e que também aposta em estratégias barulhentas nas redes sociais e fora delas tem ocupado o espaço aberto no entorno do bolsonarismo.

Surgido há três anos, o Direita SP (DSP) está organizado em 40 cidades paulistas e tem planos de se expandir nacionalmente. No longo prazo, não descarta virar um partido político.

Por enquanto, o grupo apoia-se fortemente na estrutura do PSL, embora se diga independente. Mais especificamente, abriga-se em gabinetes da Assembleia Legislativa de São Paulo.

Há ao menos 16 integrantes do movimento nomeados em cargos na Casa: 14 no gabinete do deputado Douglas Garcia (PSL) —onde a parede é decorada com imagens do grupo— e 2 no 
da liderança do PSL.

Recebem salários brutos que variam de R$ 6.021,53 a R$ 17.952,27, num gasto mensal de R$ 127 mil para a Assembleia.

Presidente do grupo e chefe de gabinete de Garcia, o ex-corretor Edson Salomão, 42, vê o fato com naturalidade.

“O mandato é consequência do Direita SP. A coordenação [do movimento] trabalhou para isso. Obviamente, essas pessoas vão compor a assessoria”, diz Salomão, que é filiado ao PSL.

Dos assessores, 6 trabalham no interior, em cidades como Araraquara, São José dos Campos e Ribeirão Preto, o que é permitido pela Assembleia. Nestes locais, também são coordenadores regionais do movimento.

Segundo Salomão, a orientação é que os assessores trabalhem para o Direita SP nos fins de semana e depois de cumprirem a carga horária de oito horas por dia no mandato. “A gente consegue administrar as duas coisas sem confundir”, afirma.

 

Já Garcia diz que seu gabinete é dos mais produtivos da Assembleia.

“Chamam a gente de máquina de trabalho. Desafio você a encontrar outro deputado que protocolou tanto documento, indicação, requerimento, projeto, o que você imaginar”, afirma o parlamentar.

O DSP vem crescendo desde que surgiu, em maio de 2016. Nos últimos meses, foram criados duas entidades ligadas ao grupo, o think tank Instituto Conservador (Icon) e uma entidade estudantil, a União Nacional dos Estudantes Conservadores (Unecon).

O financiamento, diz Salomão, é via contribuição de filiados, venda de camisetas e organização de cursos.

Na semana passada, o DSP lançou um plano de filiações. Em breve, querem se expandir para outros estados.

Com 1.500 filiados ativos, sendo 80% com até 25 anos de idade, o DSP segue as ideias do filósofo Olavo de Carvalho.

“Nossa filosofia é baseada na linhagem judaico-cristã”, afirma Salomão. Todos os filiados devem passar por um curso de formação política e conservadorismo de 96 horas de duração.

O Direita SP diz que vê o MBL como antagonista, e não inimigo. Os dois grupos, no entanto, chegaram às vias de fato no último dia 30 de junho, durante manifestação na avenida Paulista em defesa do ministro Sergio Moro (Justiça) e da Lava Jato.

Membros das entidades trocaram chutes, socos e empurrões, com uma acusando a outra de ter iniciado o embate.

Assim como fez o MBL no passado, o DSP adota ações para chamar a atenção e manter energizada sua militância.

Passou a investir na produção de memes, com quatro pessoas dedicadas a esse trabalho. “Viraliza mais, é uma linguagem rápida. Mas a gente sempre procura contextualizar”, afirma Salomão.

Entre os temas abordados estão a defesa aguerrida do governo e de pautas como Escola Sem Partido, além de críticas ácidas à esquerda.

Algumas têm gosto duvidoso, como um meme que mostra foto de Bolsonaro usando um barbeador descartável, acompanhada do texto: “Os dois maiores terrores de uma feminista”.

Outra marca do grupo são canções no estilo “TFM” (Treinamento Físico Militar), usado por militares para marcar o ritmo em corridas.

Cada verso, entoado por um puxador, é repetido em seguida em coro pelo restante do grupo. A música, em ritmo marcial, termina com todos pulando e gritando refrões como “Bolsonaro, eu tô contigo!”.

A origem do movimento é um ato organizado via Facebook no largo da Batata, zona oeste de SP, em defesa de Bolsonaro, em maio de 2016.

“Era um momento conturbado, em que ele estava ameaçado de cassação por ter homenageado o coronel Brilhante Ustra”, diz Garcia, 25, sobre a defesa que Bolsonaro fez do militar condenado por ter cometido tortura durante a ditadura.

O evento reuniu 500 pessoas. A partir daquele momento, Garcia, Salomão e o advogado Jorge Luiz Saldanha, também nomeado assessor parlamentar, começaram a organizar o movimento.

Grande parte dos adeptos do DSP vem da periferia, caso do próprio deputado, que é da favela Buraco do Sapo, entre São Paulo e Diadema.

No passado, o grupo esteve envolvido em diversos episódios controversos. Em 2018, criou o bloco Porão do Dops, que acabou barrado pelo Ministério Público em razão do nome.

Mas não desistiram de ter uma participação no Carnaval. Em breve criarão uma bateria, e em 2020 pretendem retomar a ideia de um bloco, embora com outro nome.

Em 2017, alguns integrantes se envolveram em uma briga com militantes palestinos num ato contra a nova lei de imigração. “Nós somos vítimas, fomos agredidos, temos um vídeo para provar”, afirma Garcia.

Apesar destes episódios, eles refutam a fama de violentos. “O que acontece é a livre defesa de quem é agredido”, afirma o deputado.

Alguns discursos, admitem, podem ter um tom excessivo e passar uma impressão de agressividade. “Nós não conseguimos relativizar as coisas. Somos muito enfáticos”, diz Salomão.

Com 290 mil seguidores em redes sociais, o DSP diz já ter identificado muitos ex-simpatizantes do MBL que aderiram à sua receita de conservadorismo.

“Há uma migração do MBL para o Direita SP que vem de muito tempo. [...] Eles são liberais, preocupados com pautas econômicas. No campo de valores, como liberação das drogas, relativizam. Nós somos contra”, afirma o presidente do movimento.

Em 2020, o DSP planeja ter ao menos 20 candidatos a vereador no estado, entre eles o próprio Salomão.

O objetivo de lançar um partido ainda não é algo concreto, dizem os coordenadores. “Mas tudo é uma possibilidade futura”, diz Salomão.

Para Garcia, uma eventual expansão do DSP será a pá de cal no movimento rival.

“A partir do momento que nós nos expandirmos para nível nacional, acabou para o MBL. Eles vão quebrar."

Direita SP

Fundação: maio de 2016

Número de filiados: 1.500

Seguidores nas redes sociais: 290 mil

Número de cidades em que está presente: 40

Presidente: Edson Salomão, 42

Principal liderança eleita: deputado estadual Douglas Garcia, 25 (PSL-SP)

Número de integrantes com cargo na Assembleia de SP: 16

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