Após troca mútua de afagos, votação sela fim da lua de mel entre Ciro e Tabata

Deputada era promessa do PDT, mas agora tem sua expulsão defendida pelo líder da legenda

Joelmir Tavares
São Paulo

Quase um ano atrás, o então presidenciável Ciro Gomes almoçava na casa da família de Tabata Amaral, na Vila Missionária, bairro periférico da zona sul de São Paulo. Era agosto de 2018, e o ex-ministro se dizia emocionado por estar ali para o lançamento informal da candidatura da novata a deputada federal.

Ele, que àquela altura se referia a ela como um "tesouro", postou nas redes sociais que o almoço e o papo estavam "uma delícia". Escreveu que a paulistana, "uma das maiores ativistas da educação no Brasil", havia se formado em astrofísica e ciências políticas em Harvard.

Um vídeo que já circulava naquela época entre admiradores de ambos registrou o dia em que Ciro conheceu a jovem, em uma palestra nos Estados Unidos, cerca de cinco anos antes. Com olhos arregalados de admiração, ele confessava invejar a formação dela nas duas áreas.

0
Ciro Gomes e a mulher, Giselle Bezerra, com a mãe de Tabata Amaral, Renilda, e a filha, na laje da casa da deputada, na Vila Missionária, em São Paulo; visita foi em 2018, antes da campanha eleitoral - Thais Bilenky - 11.ago.2018/Folhapress

Na Vila Missionária, Tabata celebrava o gesto do político de assumir um compromisso com a educação, "um compromisso de verdade", que não ficava só no discurso. Falava na ocasião que caminhava ao lado dele porque ensino de qualidade para todos era "uma das principais bandeiras" de Ciro. "Tô com ele."

Eleita deputada por São Paulo com 264.450 votos (sexta maior votação no estado para o cargo), Tabata vive agora a maior crise da relação de lua de mel que construiu com Ciro e o PDT. Ela corre o risco de ser punida e até expulsa pelo partido por ter votado a favor da reforma da Previdência, contrariando orientação da legenda.

Ciro endureceu as palavras. "Não acho, francamente, que ela tenha mais lugar para ficar no PDT", afirmou na quinta-feira (11). "Não está no partido correto. Ela, pessoalmente, deveria ter a dignidade de sair", reforçou na sexta-feira (12).

Principal nome da legenda e provável candidato ao Planalto em 2022, o ex-ministro tem dado indicações de que ficou magoado com aquela que um dia abraçou. Para expressar o sofrimento, lança mão da expressão "desgosto de filha", que tomou emprestada de uma música de Djavan.

Ciro tem vocalizado a defesa de uma punição exemplar aos infiéis. Chega a ponderar que Tabata "tem 25 anos, e ainda é uma idade em que as pessoas podem errar", mas sustenta que ela "cometeu um erro indesculpável", que "não pode passar impune".

Embora já tivesse uma projeção por seu trabalho na organização Mapa Educação e pela participação no Acredito (movimento de renovação política que ajudou a fundar) e no RenovaBR (programa que bancou a formação de estreantes), Tabata foi beneficiada na campanha pela associação com o pedetista, terceiro candidato mais votado na eleição presidencial.

Na sexta (12), Ciro disse que os movimentos são “dupla militância”, com “infiltração maliciosa” nos partidos, seguindo agenda própria e ignorando os estatutos das legendas.

A trajetória ascendente da parlamentar, que se notabilizou sobretudo após questionar incisivamente o então ministro da Educação, Ricardo Vélez, em uma sessão no Congresso em março, levou o PDT a desenhar planos maiores para ela, considerada dona de um perfil promissor.

Num sinal de que a aposta era alta, líderes já aventavam a possibilidade de lançá-la candidata a prefeita de São Paulo em 2020. Em maio, durante entrevista à Folha, o presidente nacional da legenda, Carlos Lupi, afirmou que, no que dependesse dele, trabalharia para convencer Tabata a concorrer. Ela resistia.

Com o afastamento sacramentado, a conversa mudou de rumo. Lupi já afirmou que qualquer plano envolvendo a filiada terá que ser rediscutido, caso ela permaneça no partido. O dirigente defende internamente o que classificou como "atitude cirúrgica" nos processos contra os dissidentes.

Para Lupi, é preciso evitar qualquer decisão que acabe por "premiar" os infiéis. Pela lei, o mandato do deputado expulso pertence a ele. Se for defenestrado em um dia, no outro já pode se filiar a outra agremiação. Dos 27 deputados do PDT, 8 descumpriram a ordem.

Outra opção sobre a mesa é aplicar punições mais brandas, como reprimenda pública aos insurgentes ou remoção de postos.

Tabata, por exemplo, integra a Comissão de Educação e pode ser retirada da função pelo líder da bancada de seu partido, André Figueiredo (CE). Ele já disse que vai reavaliar a distribuição de cadeiras nos colegiados, porque seria "uma injustiça" manter colegas que desobedeceram à determinação na votação da Previdência.

No que foi interpretado como uma provocação, a página do PDT no Twitter postou na sexta-feira (12) um vídeo da convenção nacional realizada em março. Durante a reunião, o partido fechou questão (ou seja, obrigou votação) contra a reforma previdenciária.

O texto da legenda aplicada sobre a gravação diz que "550 membros, incluindo Tabata Amaral e demais parlamentares representantes do PDT, aprovaram" a decisão. Em uma das imagens, a parlamentar aparece sorrindo ao lado de Lupi, que discursa no palco.

Aliados da deputada dizem que ela está esperando a poeira baixar e mantém postura de evitar confronto com o partido até que a situação tenha um desfecho. A parlamentar se recolheu nas últimas horas. Chegou a deixar às pressas o plenário da Câmara ao ser abordada por jornalistas. A resposta dela e de sua assessoria aos repórteres é só uma: nada de entrevista agora.

No dia da votação, quando já sofria ataques de correligionários e eleitores por ter anunciado que daria sim ao projeto do governo Jair Bolsonaro (PSL), Tabata postou um vídeo no qual se justificava. "O sim que eu digo à reforma não é um sim ao governo. E também não é um não a decisões partidárias", explicou.

​Um dos fatos que mais irritaram a geralmente serena deputada foi ser chamada de "vendida" por seguidores em suas redes sociais, em meio a uma onda de xingamentos e acusações de traição. No mesmo vídeo, ela rebateu: "Meu voto pela reforma da Previdência é um voto de consciência, não é um voto vendido, não é um voto por dinheiro de emendas".

Um dia antes, Ciro havia denunciado no Twitter, "a tentativa de compra de votos por dinheiro de emendas ou ofertas mentirosas a estados e municípios". Sem citar nomes, ele afirmou que a estratégia rondava "até os partidos de oposição".

"Defenderei que o PDT expulse aqueles que votarem contra o povo nesta reforma de Previdência elitista", completou o ex-presidenciável. E assim o fez.

Uma decisão, contudo, só virá após o desenrolar de um processo interno com direito de defesa. A comissão de ética do partido fará um relatório. Ao diretório nacional da legenda caberá a palavra final. Se Tabata for expulsa, terá portas abertas em outras agremiações.

PSD e Cidadania já relataram a ela interesse em acolhê-la. O governador de São Paulo, João Doria, fez proposta ainda mais explícita e, de Londres (onde estava em viagem de trabalho), mandou dizer que "ela é rosto, alma e coração do novo PSDB".

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.