Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Na Câmara, Eduardo Bolsonaro prioriza política externa e vira guardião do pai

Deputado foi indicado pelo presidente para posto de embaixador nos EUA, mas ida é incerta

Danielle Brant
Brasília

Para marcar os seis meses deste ano legislativo, a Folha acompanhou a atuação parlamentar dos três filhos do presidente Jair Bolsonaro (PSL) que mantêm cargo eletivo: o senador Flávio (PSL-RJ), o deputado federal Eduardo (PSL-SP) e o vereador Carlos (PSC-RJ) no Rio de Janeiro.

Enquanto na Câmara Municipal do Rio temas do governo federal ganham destaque com a presença de Carlos, em Brasília Eduardo se tornou uma espécie de guardião do pai nas comissões e no plenário da Câmara dos Deputados. Mais discreto, o primogênito Flávio se destaca pelas costuras políticas que realiza nos bastidores no Senado.

Em seu segundo mandato como deputado, Eduardo Bolsonaro, 35, decidiu abraçar claramente o universo das relações internacionais, pautando para debate temas como crise na Venezuela e o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, mas sem descuidar de plataformas que o ajudaram a se reeleger, em especial a segurança pública.

Indicado por seu pai para o posto de embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Eduardo procurou, logo ao assumir seu atual mandato, presidir a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN), órgão da Câmara responsável por analisar acordos internacionais assinados pelo Brasil e projetos de lei sobre política externa. Na legislatura passada, ele foi suplente na comissão.

Eduardo também é titular na comissão que discute a crise na fronteira da Venezuela com o Brasil e na subcomissão especial que trata do uso comercial do centro de lançamento de Alcântara, base que esteve envolvida em controvérsia sobre soberania após um acordo para utilização comercial pelos EUA.

Também é suplente da subcomissão permanente para acompanhar acordos firmados com organismos internacionais.

Não chega a ser uma mudança brusca em relação à atuação na legislatura anterior, mas Eduardo notadamente reduziu o escopo de temas que acompanha de perto.

No último mandato, de 2015 a janeiro deste ano, por exemplo, atuou como vice-presidente da Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência, além de ter sido titular na Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado e na de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.

Em 2019, foram vários os requerimentos que tratam de política externa. Com colegas do PSL, pediu uma audiência pública para debater os impactos políticos e econômicos do acordo Mercosul-UE.

Com um aliado improvável, David Miranda (PSOL-RJ), elaborou outro para discutir o atual quadro político na Venezuela, “com a presença de convidados que representem os dois lados da crise” no país.

Sobre a parceria, Miranda diz ter sido tranquila. “É nosso trabalho ter esse tipo de diálogo ali na casa”, afirma. Outros comportamentos de Eduardo merecem menos elogios. Ele costuma blindar integrantes do governo que comparecem à comissão, segundo o parlamentar do PSOL.

O mais recente a participar de uma audiência pública, general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, foi orientado pelo presidente da CREDN a responder somente a perguntas sobre o tema do encontro, a apreensão de drogas em aeronaves militares.

O assunto se tornou espinhoso para o governo depois da prisão de um sargento da FAB (Força Aérea Brasileira) com 39 kg de cocaína na Espanha.

“Ele é respeitoso com a oposição até certo ponto, até se sentir incomodado. Com os deputados mais antigos, ele tem mais respeito. Mas, com os mais novos, é mais ríspido”, diz Miranda.

Já as sugestões de projeto de lei continuam priorizando segurança e educação. Foram quatro os apresentados nesta legislatura.

Um deles —retirado depois por Eduardo— queria mudar, na lei que estabelece diretrizes e bases da educação nacional, um artigo sobre reconhecimento de diploma expedido por universidades estrangeiras. A intenção era facilitar a revalidação de diplomas de graduação, mestrado e doutorado.

Outro, ao lado das deputadas Bia Kicis (PSL-DF) e Carla Zambelli (PSL-SP), quer incluir o homicídio de criança e adolescente e assassinatos para impor ideologia de gênero no rol dos crimes hediondos, entre outras coisas.

Eduardo foi ainda relator de três proposições. Em uma delas, rejeitou sugestão do colega Glauber Braga (PSOL-RJ), em projeto no qual o psolista queria determinar que bases militares estrangeiras só pudessem ser instaladas permanentemente em território nacional por meio de plebiscito. Para o filho 03 do presidente, a medida é excessiva, demorada e onerosa.

Na Câmara, é um dos principais guardiões dos interesses de Bolsonaro. Poucos dias depois da demissão do general Carlos Alberto dos Santos Cruz da Secretaria de Governo, o deputado usou sua fala no plenário para dizer que o presidente continuava “operando milagres.”

“Eu estou vendo aqui esquerdista que sempre esculhambou militar defender o general Santos Cruz. Talvez esteja achando estranho a saída de ministros que não seja por corrupção, como era comum no governo de uma determinada ‘presidanta’ um tempinho atrás”, afirmou.

Nesta legislatura, o site da Câmara computa oito discursos do parlamentar. A frequência de discursos no plenário está menor, como ele mesmo reconhece. “Porque nesta eu tenho de medir as minhas palavras, pois muitas das vezes elas são interpretadas como sendo a vontade do presidente da República.”

Na Casa, ele circula acompanhado por assessores e seguranças, uma precaução natural após a facada sofrida por Jair durante a campanha presidencial.

No plenário, a articulação costuma ficar a cargo de outros parlamentares, como a líder do governo, Joice Hasselmann (PSL-SP), e o deputado Alexandre Frota (PSL-SP).

Já Eduardo costuma reunir deputados para tomar café da manhã e também em outros encontros informais –em ocasiões devidamente registradas em suas redes sociais.

No plenário e na presidência da comissão de relações exteriores, Eduardo, muitas vezes, é visto de cabeça baixa —longe de ser sinal de desânimo, significa provavelmente que ele está atualizando alguma de suas redes sociais. Assim como o pai e o irmão do meio, Carlos, o caçula é usuário ativo do Twitter.

Ele tuíta para promover audiências públicas da comissão que preside, divulgar reuniões com parlamentares de outros países, mas, principalmente, para sustentar decisões, declarações e críticas feitas pelo pai.

Na controvérsia provocada por frase do presidente sobre trabalho infantil, Eduardo convidou seus seguidores no Twitter a compartilhar a experiência de trabalho enquanto menor de idade.

Mas a desenvoltura com que lida com temas internacionais o colocou em rota de colisão com o chanceler Ernesto Araújo.

Em público, Ernesto elogia a indicação de Eduardo para a Embaixada do Brasil nos EUA. Em março, porém, o ministro teve um chilique na frente de outras autoridades por causa da participação de Eduardo em um encontro privado entre Bolsonaro e o presidente americano, Donald Trump, do qual Araújo ficou de fora.

Eduardo, Jair Bolsonaro e Donald Trump durante encontro na Casa Branca em março
Eduardo, Jair Bolsonaro e Donald Trump durante encontro na Casa Branca em março - Alan Santos - 19.mar.19/Divulgação/Presidência da República

Na cota parlamentar, usada para cobrir custos com passagens de avião, transporte terrestre, combustíveis e alimentação, o gasto de Eduardo está em linha com o do partido. Até julho, ele gastou, em média, R$ 16 mil por mês —no PSL, o uso mensal médio gira em torno de R$ 17 mil.

Ao todo, usou 38,57% do total disponível. Em seu gabinete, há nove pessoas empregadas. Três já atuaram como secretários parlamentares de seu pai enquanto deputado —um deles, de 2006 a 2013.

Raio-x 

01
Flávio Bolsonaro, 38

Senador eleito no ano passado pelo PSL-RJ, foi deputado estadual no Rio por quatro mandatos, de 2003 a 2018. É formado em direito

  • 18 propostas apresentadas na legislatura (até junho)
  • 5 pronunciamentos
  • 20 funcionários no gabinete
  • R$ 57 mil em gastos neste mandato, 44% com passagens aéreas

02
Carlos Bolsonaro, 36

Vereador no Rio pelo PSC, está no quinto mandato. Já foi filiado ao PTB e PP. É formado em ciências aeronáuticas

  • 1 projeto de lei apresentado na legislatura
  • 18 funcionários no gabinete

03
Eduardo Bolsonaro, 35

Deputado federal pelo PSL-SP, foi reeleito para um segundo mandato em 2018 com votação recorde de 1,8 milhão de votos. É formado em direito

  • 4 projetos de lei apresentados na legislatura
  • 8 pronunciamentos
  • 9 funcionários no gabinete
  • R$ 100 mil em gastos neste mandato

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