Ataque verbal de Bolsonaro dá auxílio a Doria para ruptura ensaiada de 2022

Provável rival nas eleições, governador de SP disputa eleitorado com o presidente

Igor Gielow
São Paulo

Buscando viabilizar sua candidatura ao Planalto em 2022, o governador João Doria (PSDB-SP) ganhou auxílio inesperado de seu principal concorrente hoje, o presidente Jair Bolsonaro (PSL).

O recente surto logorreico do presidente colocou Doria, que já vinha tentando se afastar de Bolsonaro, em posição um pouco privilegiada.

Quando aquilo que auxiliares do tucano chamaram de linha vermelha, o questionamento sobre o papel do Estado na morte do presidente do pai da Ordem dos Advogados do Brasil na ditadura, foi ultrapassado, Bolsonaro se tornou alvo para o governador.

Com camiseta "Bolsodoria", o então candidato Doria faz campanha em São Paulo
Com camiseta "Bolsodoria", o então candidato Doria faz campanha em São Paulo - Luiz Claudio Barbosa-27.out.18/Código19/Agência O Globo
 

O tucano teve o pai, o então deputado federal João Doria, cassado e exilado de 1964 a 1974 pelos militares. Doria chamou de inaceitável a insinuação de Bolsonaro de que o pai de Felipe Santa Cruz tenha sido morto por seus companheiros da esquerda.

Doria e o irmão Raul ficaram fora do país por dois anos, retornando para morar com a mãe, que morreu três meses após a volta do marido ao país.

Além disso, o recente aceno à deputada Tabata Amaral (SP), ameaçada de expulsão do PDT pelo apoio à reforma da Previdência, mostra uma abertura do direitista Doria a flancos à esquerda.

Isso dito, a tarefa do tucano é difícil. Ele associou-se ao movimento BolsoDoria, surgindo no segundo turno de 2018, quando Geraldo Alckmin (PSDB) já estava abatido na primeira rodada de votação.

Temendo fomentar um futuro adversário, Bolsonaro ouviu auxiliares e se negou a gravar apoio a Doria. Contudo, um acerto de bastidores fez o então presidenciável registrar críticas ao adversário do tucano, o então governador Márcio França (PSB).

Com efeito, ambos saíram eleitos. De lá para cá, Doria tem feito um movimento pendular: ora reafirma seu apoio à agenda econômica de Bolsonaro e o afaga em eventos públicos, ora tenta diferenciar-se do presidente.

Ambos disputam um mesmo eleitorado à centro-direita, que em 2018 comprou a mensagem antipolítica e radical de Bolsonaro assim como Doria —em São Paulo, claro.

A radicalização das duas últimas semanas, vistas por auxiliares do tucano como as mais tenebrosas em termos de retórica de Bolsonaro até aqui, ajudou Doria a modular seu discurso de membro da direita antipetista, mas não associado ao ideário do presidente.

Adesivo de campanha de Doria apreendido prega voto 'Bolsodoria'
Adesivo de campanha de João Doria ao governo de SP prega voto 'Bolsodoria' - Divulgação

Se isso será suficiente ao longo do tempo para apagar a imagem de Doria com a camiseta amarela com a logomarca BolsoDoria, é algo a ver.

O tucano até agora não se livrou, segundo pesquisas qualitativas internas do PSDB e de adversários, da pecha de que traiu Alckmin ao tentar lançar-se presidente quando estava na prefeitura.

Os mesmos levantamentos colocam a presença do deputado Aécio Neves (MG) no PSDB como peso no pé do tucano que governa São Paulo. Neste caso, a burocracia do partido, agora sob comando de Doria, ainda pisa em ovos. No outro, o governador está sozinho para se virar.

Há questões práticas em questão. A linha 6 do Metrô de São Paulo está no chão até agora porque o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) reluta em aprovar empréstimo a ela.
Limitações semelhantes, ligadas à boa vontade federal, atingem obras como as do Rodoanel.

Um ex-governador paulista ouvido pela Folha diz que a tentação de independência do estado é grande, mas a realidade invariavelmente reduz os apetites na prática.

Doria tem o tempo como aliado e adversário. Uma eventual recuperação econômica mais rápida pode favorecer a Bolsonaro e, em menor medida, a ele. Seria talvez ideal, nas contas tucanas, porque diluiria o senso de bem-estar ao longo de 2020.

Já um atraso na melhoria, paradoxalmente, pode ajudar Bolsonaro caso ela venha mais perto do pleito de 2022. Aí o presidente terá manchetes e sensação real de que a economia está em bom curso.

Doria poderá fazer o mesmo alinhavando atração de investimentos a São Paulo, algo que tentará fazer com mais força na semana que vem com uma missão empresarial à China, mas o fato é que no Brasil o poder central sempre colhe os frutos primeiro.

Essa multiplicidade de fatores embaralha a disputa à frente. Os estrategistas do tucano ainda não têm tática elaborada para outros eventuais concorrentes ao centro, notadamente o apresentador Luciano Huck (sem partido).

A ideia trabalhada até aqui é a de aproveitar ao máximo a máquina paulista, bem azeitada apesar do déficit de R$ 10 bilhões herdados em caixa na virada do ano, e diferenciar-se dentro do possível do hoje aliado Bolsonaro.

Antes de o rio desembocar em 2022, há uma curva acentuada no ano que vem. A eleição à prefeitura paulistana e de outras vitais no interior paulista tende a criar rearranjos. Doria tem vários candidatos na capital, mas uma hora terá de escolher um de fato.

Aliados suspeitam que será Joice Hasselmann, hoje deputada federal pelo PSL de Bolsonaro. O prefeito-candidato Bruno Covas (PSDB) tem a seu favor o sobrenome famoso do avô Mário e a juventude, mas mesmo políticos próximos dele identificam inapetência para a competição.

Por obrigação partidária, Doria já declarou voto em Covas —embora membros da cúpula tucana digam que o prefeito pode jogar a toalha antes da campanha.

A questão colocada hoje é se Joice irá permanecer na linha bolsonarista independente ou migrará de vez para Doria.

A primeira opção é vista como mais complexa visando o futuro em 2022, dado que será imperativo ao governador anabolizar suas chances entre um eleitorado bastante à direita, ainda que mantendo a linha divisória com os arroubos presidenciais.

Logo, uma derrota de opções vistas como radicais cairia bem a Doria não só na capital, mas principalmente nos grandes centros do interior em que votaram maciçamente em Bolsonaro em 2018.

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