Rachado e menor, MDB tenta consenso para escolher novo presidente rumo a 2022

Partido encolheu nas eleições de 2018 e agora luta para afunilar lista de interessados em comandar a legenda

Daniel Carvalho
Brasília

O MDB define no próximo mês quem irá suceder Romero Jucá (RR) na presidência do partido depois de três anos e meio de comando do ex-senador, que hoje tem uma consultoria empresarial.

Jucá tenta construir um nome de consenso até 6 de outubro, data da convenção que vai deliberar sobre quem será o responsável por procurar reerguer a sigla até as eleições de 2022.

O ex-senador por Roraima Romero Jucá, presidente nacional do MDB
O ex-senador por Roraima Romero Jucá, presidente nacional do MDB - Pedro Ladeira - 11.mar.2019/Folhapress

Com a ascensão de Jair Bolsonaro (PSL) e seus seguidores, o MDB rachou, encolheu, perdeu poder e dinheiro e viu alguns de seus principais quadros, como o ex-presidente Michel Temer e o ex-ministro Moreira Franco, serem presos diante das câmeras.

Os dois estão soltos agora, ao contrário de outros emedebistas como Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão, Eduardo Cunha e Geddel Vieira Lima, atrás das grades por envolvimento em esquemas de corrupção.

Afastado do Palácio do Planalto —tem apenas um ministro, Osmar Terra (Cidadania), e o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (PE)—, o partido não pretende ter candidato a presidente da República. Ao menos por enquanto, a prioridade do MDB é recuperar a imagem e voltar a crescer no Congresso Nacional.

Em 2018, elegeu somente 3 dos 14 candidatos a governador que lançou. Levou para a Câmara apenas 34 deputados ante os 66 de 2014. No Senado, a sigla tinha 19 integrantes em 2015 e hoje tem 13.

O fundo partidário, principal fonte de renda de uma sigla, caiu praticamente pela metade do ano passado para cá. A dotação de junho de 2019 era de R$ 3,8 milhões, enquanto o PSL tinha, no mesmo mês, R$ 8 mi e o PT, R$ 7 mi.

A FUG (Fundação Ulysses Guimarães), ligada ao partido, elaborou uma cartilha para orientar o MDB —conforme antecipado pela coluna Painel no sábado (31). No texto, é feita uma avaliação das eleições passadas. Para o partido, elas se deram "em um ambiente contaminado por um alto grau de intolerância e radicalismo e refletiram a desordem que ainda imperava no sistema político".

O documento atribui a "partidos enfraquecidos, uma opinião pública confusa e desorientada e o esforço de parte importante dos formadores de opinião para desvalorizar a política e os políticos" o cenário para uma eleição polarizada em 2018. Ao tratar da nova direita no Brasil e no mundo, fala de uma pauta "muito conservadora e pouco apreço pelas normas da democracia liberal e pelos valores civilizatórios".

"Neste novo momento, quando o país assiste imobilizado a uma tentativa de ressuscitar velhos fantasmas que nos atormentaram no passado, precisamos voltar às nossas raízes e aos valores que presidiram nosso nascimento e nossas lutas", diz o documento.

E é neste contexto que o MDB se coloca como uma legenda de centro. "Nosso compromisso permanente é com a democracia e a liberdade", diz o texto.

A cúpula do MDB vem trabalhando o nome do líder do partido na Câmara, Baleia Rossi (SP), 47. Ele é visto como alguém jovem e que dialoga com um conjunto importante do partido, sendo capaz de conduzir a renovação pela qual a legenda passar para sobreviver nos próximos anos.

Em conversas com aliados, Baleia não demonstra intenção de entrar em uma disputa. Se diz atarefado com a reforma tributária que tramita na Câmara e, se for para presidir o partido, quer que isso se dê por aclamação.

Mas Baleia não é unanimidade por ser tido como alguém associado aos atuais caciques. Reservadamente, alguns correligionários dizem ver no líder uma continuação da gestão atual, que ancora o partido ao passado recente de denúncias de corrupção.

No documento da FUG, o partido não faz um mea culpa, mas afirma que "não deve temer esse debate nem essa luta" e que "todas estas formas de apropriação do poder devem ser combatidas".

Uma ala da legenda, principalmente dos estados do Sul, quer uma chapa alternativa. O nome prioritário é o do ex-senador Pedro Simon (RS), 89. Ele tem sido procurado por correligionários para que aceite entrar na disputa em outubro. Contra ele há questionamentos sobre sua disposição para rodar o país num momento em que o MDB precisa se reerguer.

Caso Simon não aceite a missão, outro emedebista se coloca como opção, o deputado estadual Gabriel Souza, 35. Ele está no partido desde os 15 anos e, pelo tempo de casa, tem diálogo nacional na sigla.

Mais que o próprio nome, ele defende que o MDB gaúcho tenha espaço na cúpula da legenda condizente com o tamanho do diretório.

O Rio Grande do Sul é o estado que tem mais votos na eleição. São 41 dos 425 votos. Os três estados do sul somam 25% do total de votos.

"A disputa favoreceria um debate que não acontece no MDB há 18 anos. Se o Pedro Simon disser que quer ser candidato, será unanimidade. O que já tem consenso é que há necessidade de uma chapa de oposição", afirmou Souza.

A presidente da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado, Simone Tebet (MDB-MS), já foi citada como possibilidade para presidir o partido, mas disse não. Ela foi ao Rio Grande do Sul no início desta semana conversar sobre a chapa alternativa.

No início do ano, quando Tebet disputou a preferência da bancada do MDB para tentar a cadeira de presidente do Senado, avaliou-se que ela deixaria a sigla. A senadora permaneceu no partido e perdeu a disputa interna para Renan Calheiros (AL).

O MDB acabou derrotado por Davi Alcolumbre (DEM-AP), que se cercou de um grupo de senadores que levantava a bandeira da nova contra a velha política, discurso que ganhou fôlego nas urnas em 2018 e renovou o Legislativo.

A lista de possibilidades para o comando do MDB já foi maior. Um dos nomes era o do ex-deputado Daniel Vilela, 35, mas ele perdeu força desde que foi derrotado na disputa pelo governo de Goiás por Ronaldo Caiado (DEM).

Ainda no início do ano, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, 48, se colocou como interessado em substituir Jucá. Porém, correligionários ponderaram que ele é novo não só na política como no MDB.

Nomes de governadores com um histórico no partido começaram a ser aventados. É o caso de Renan Filho (AL), 39, e Helder Barbalho (PA), 40, respectivamente filhos dos senadores Renan Calheiros e Jader Barbalho.

No entanto, o estatuto do MDB diz que “são inelegíveis para as comissões executivas de qualquer nível o presidente da República, os governadores de estado e do Distrito Federal”, o que, de pronto, descartou os três nomes.

Ao longo do primeiro semestre, o estatuto foi atualizado e o impedimento foi suprimido, mas o texto não foi aprovado. Em agosto, a executiva decidiu deixar para o próximo presidente a reformulação das regras do partido, o que afunilou a lista de potenciais candidatos.

“Espero que haja unidade para que consigamos diminuir nossos obstáculos para que o partido possa reconstruir sua imagem e sua estatura”, disse Helder Barbalho.

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