'Se eu levantar a borduna, todo mundo vai atrás de mim', afirma Bolsonaro

Presidente diz que falas polêmicas, como as que atingiram presidente da OAB, são reações a 'sacanagem'

Sérgio Dávila Leandro Colon
Brasília

O presidente Jair Bolsonaro afirmou que declarações polêmicas recentes, como a que tratou da morte do pai do presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, na época da ditadura, são reações ao que chamou de "sacanagem" contra ele.

Ele afirmou que, apesar do que diz ter sofrido, não tomou nenhuma medida excepcional. "Se eu levantar a borduna, todo mundo vai atrás de mim e eu não fiz isso ainda", disse em um café da manhã com a Folha no Palácio do Alvorada. 

O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia no Palácio do Planalto - Lucio Tavora/Xinhua

Em julho, Bolsonaro disse que, se Felipe Santa Cruz quisesse saber, poderia contar como seu pai foi morto na ditadura militar. Fernando Santa Cruz desapareceu em fevereiro de 1974, após ser preso por agentes do DOI-Codi, órgão de repressão da ditadura militar, no Rio de Janeiro.

Bolsonaro fez a declaração ao reclamar que a OAB tinha entrado com uma ação para impedir a quebra do sigilo telefônico do defensor de Adélio Bispo, que o esfaqueou na campanha eleitoral do ano passado.

presidente da OAB interpelou Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal sustentando que, das declarações, podia-se inferir a prática dos crimes de calúnia contra a memória do seu pai e injúria contra si. Ao STF Bolsonaro negou ter ofendido o pai de Felipe Santa Cruz.

“No tocante à forma pela qual teria ocorrido a morte do pai do interpelante, limitei-me a expor minha convicção pessoal em função de conversas que circulavam à época”, disse o presidente. Para Bolsonaro, o pai do presidente da OAB pode ter sido morto por militantes da esquerda. ​Documentos de Estado, porém, afirmam que ele foi morto pela repressão.

O ministro do STF Luís Roberto Barroso arquivou a petição do presidente da OAB.Em julho, num intervalo de dez dias, Bolsonaro deu outras declarações recheadas de conteúdo falso e preconceituoso. 

Entre os alvos do presidente estiveram os jornalistas Miriam Leitão e Glenn Greenwald, os governadores nordestinos e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Na conversa desta terça com a Folha, Bolsonaro disse ainda que o comando da Polícia Federal precisa dar uma "arejada" e chamou de "babaquice" a reação de integrantes da corporação às declarações dele sobre trocas em superintendências e na diretoria-geral. 

O presidente afirmou também que o governador João Doria (PSDB) não tem chance nas eleições presidenciais de 2022 porque "é uma ejaculação precoce"

Participaram da conversa, além dele, o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, o chefe da Secom (Secretaria de Comunicação) da Presidência, Fábio Wajngarten, e o deputado Marco Feliciano (Podemos-SP). O encontro ocorreu das 7h40 às 9h10.

QUEM FOI FERNANDO SANTA CRUZ DE OLIVEIRA

  • Fernando desapareceu em fevereiro de 1974, após ser preso por agentes do DOI-Codi, órgão de repressão da ditadura militar, no Rio de Janeiro. Ele era pai do atual presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, na época um bebê de dois anos.
  • Nascido no Recife, se juntou no fim dos anos 1960 à Ação Popular Marxista Leninista, grupo dissidente da Ação Popular, da juventude católica.
  • Nenhum documento escrito sobre ele pela própria ditadura o vincula a qualquer ato violento ou da esquerda armada. Fernando não era processado quando desapareceu, aos 26 anos. Ele usava seu nome e sobrenome reais e era funcionário público de uma empresa de água e energia de São Paulo.
  • No Carnaval de 1974, foi visitar seu amigo Collier, que morava no Rio. Desapareceu quando se dirigia ao encontro, em Copacabana.
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