Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Ex-candidata do PSL diz ter sido usada pelo partido e quer Bivar preso

Testemunha que disputou em Pernambuco diz que Bolsonaro deveria ter mais controle sobre legenda

Camila Mattoso Ranier Bragon
Brasília

Em entrevista à Folha, a candidata a deputada estadual Talita Caldas, 27, disse ter sido usada pelo PSL em Pernambuco com o único objetivo de preencher cotas de gênero e fazer campanha para o cacique da sigla.

"Só quero que as pessoas sejam punidas e que Luciano Bivar seja preso", disse ela. 

Um ano depois da eleição, Caldas falou pela primeira vez sobre o caso. Ela não faz parte do grupo de pessoas investigadas, mas foi ouvida pela Polícia Federal e deu seu testemunho de que o laranjal ocorreu.

Talita Caldas, que foi candidata pelo PSL em Pernambuco
Talita Caldas, que foi candidata pelo PSL em Pernambuco - Reprodução/Facebook

A candidata relatou ter sofrido pressão para apoiar Bivar e, depois, ter sido retaliada por discordar da dobradinha. 

Caldas afirmou ter entrado em depressão. Ela disse acreditar que o presidente Jair Bolsonaro não sabia do caso. Bivar não respondeu à Folha

Como foi sua campanha?
Não tive ajuda do partido. Foi quase toda virtual. Depois caiu a ficha, eu estava completando a cota [de gênero]. No meu caso, não estava de fachada, não estava para brincar, fiz quase 7.000 votos. 

Demorei, mas descobri que alguns partidos usam as mulheres como laranjas. Eles pegam para completar a legenda, pegam o dinheiro delas para os candidatos homens, principalmente para os donos do partido.

Por que virou candidata?
Não pensava em sair. Achava que não tinha influência e dinheiro. Tenho uma página na internet, com mais de 70 mil seguidores. Minha influência vinha daí. 

Estava fazendo dobradinha com o candidato Frederico França, que foi quem teve a ideia de me fazer candidata e de me juntar a ele, por ser mulher. Isso porque tinha a coisa de o Bolsonaro ser tratado pela mídia como machista. A intenção era quebrar o paradigma: uma nordestina, jovem, de direita e que apoia Bolsonaro.

E como veio o seu apoio ao candidato Luciano Bivar? 
Assessores do Bivar me chamaram para reunião, disseram que precisavam investir em um candidato a federal e que o Bivar era o mais forte. 

Não queria porque era uma pessoa que não conhecia. Eles disseram que seria bom para mim porque eu ia ter material de campanha.

Eles ofereceram ajuda de fundo partidário? 
A informação interna era de que a gente não ia ter fundo partidário, que ia ser uma campanha orgânica. Que por questão de conduta, o Bolsonaro tinha recusado o fundo. 

Eles falaram que, se eu fizesse com Bivar, eu ia me dar bem. Eles fizeram o material e me mandaram buscar. Mas eu não gostei. O material tinha eu, o Bivar e o Bolsonaro. O combinado era que haveria material só meu. 

E o que fez com o material? 
Praticamente não entreguei. Alguns amigos cortaram a foto do Bivar e colaram em carros o meu rosto e o do Bolsonaro. A assessoria não gostou. 

Os candidatos tiveram de fazer dobradinha com o Bivar. 

E qual foi a reação do partido? 
O partido não gostou que eu desisti da casadinha, passei a ser vista como traidora. Talvez isso justifique eles terem me depositado minutos antes de o banco fechar, na sexta antes da eleição. E só depositaram os R$ 10 mil porque meu advogado insistiu. 

Candidatas que não fizeram campanha receberam valores maiores. Eu queria expor, mas poderia prejudicar o Bolsonaro, mesmo sem ele ter envolvimento.

A sra. continua no PSL?
Vou sair. Não quero mais sair candidata pelo PSL. Um partido que prejudica a campanha de alguém não tem credibilidade. 

O escândalo ocorreu em vários estados. Só fiquei sabendo que ia ser usado fundo partidário quando um amigo da Paraíba me falou. Fui lá cobrar e eles não assumiam. 

Como o partido recebe o dinheiro e diz que não recebeu? Qual é a justificativa para o partido ter dado R$ 400 mil para a Maria de Lourdes, que é a mulher que serve o cafezinho no partido?

Por que quer sair do partido? 
A bandeira que a gente levantou na campanha era de lutar contra a corrupção, a principal bandeira do Bolsonaro. Fazer uma nova política, limpa. Eu acreditei nisso. 

Quando vi que o partido não tinha os mesmos princípios que o Bolsonaro pregava, para mim, foi meio vergonhoso.

A gente era as novas caras, mas vi que o partido que eu estava filiada, o partido do Bolsonaro, estava fazendo pior do que o que estava sendo feito antes. Era uma conduta do partido, não do Bolsonaro.

O que você espera dessa investigação?
Só quero que as pessoas sejam punidas e que o Luciano Bivar seja preso. Quero que a Maria de Lourdes e a Érika devolvam o dinheiro e arquem com as consequências do esquema. Espero justiça. 

Entrei numa depressão seríssima, estou me recuperando. Acho que vou passar a vida inteira e não vou me esquecer. 

Espero que Bolsonaro se policie melhor.

Entenda o caso das laranjas do PSL

Como surgiram as suspeitas?
Folha revelou, em 4.fev, que o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, deputado federal mais votado em MG, patrocinou um esquema de candidaturas de laranjas no estado, abastecidas com verba pública do PSL, em 2018. Dias depois, em 10.fev, outra reportagem mostrou que o grupo do deputado Luciano Bivar, presidente nacional da sigla, também criou candidatas laranjas em Pernambuco 

Como funcionou o esquema em Pernambuco?
Maria de Lourdes Paixão virou candidata de última hora para preencher vaga de cota feminina. O PSL repassou R$ 400 mil do fundo partidário no dia 3 de outubro, quatro dias antes da eleição --ela foi a terceira que mais recebeu dinheiro do partido no país. Já Érika Siqueira Santos, ligada a Bivar e assessora de imprensa do partido, recebeu R$ 250 mil. Ela também foi escolhida de última hora para disputar a eleição. Há ainda suspeitas de que a candidata Mariana Nunes seria laranja 

Quais as evidências de que elas eram laranjas?
Maria de Lourdes gastou 95% do dinheiro em uma gráfica para a confecção de 9 milhões de santinhos e 1,7 milhão de adesivos. Para isso, cada um dos quatro panfleteiros que ela diz ter contratado teria a missão de distribuir 750 mil santinhos por dia. A Folha foi a endereços vinculados à gráfica e não encontrou sinais de que ela tenha funcionado durante a eleição. Lourdes teve somente 274 votos. Érika, que destinou R$ 56,6 mil à mesma gráfica, teve 1.315 votos. Não há também sinais de que as candidatas tenham de fato feito campanha

Há outros relatos sobre o caso?
Bete Oliveira, presidente do PSL Mulher de Pernambuco em 2018, disse à PF que Maria de Lourdes e Érika não tiveram atos de campanha que justificassem gastos tão expressivos e que, em seu estado, mulheres da legenda só foram chamadas à disputa para cumprir a cota mínima obrigatória de 30% de candidatas

Como funcionava o esquema em MG?
Álvaro Antônio era presidente do PSL em Minas e tinha o poder de decidir quais candidaturas seriam lançadas. Quatro candidatas receberam R$ 279 mil de verba pública de campanha da legenda, ficando entre as 20 que mais receberam dinheiro do partido no país 

Quais os indícios de irregularidades?
Não há sinais de que elas tenham feito campanha efetiva. As candidatas em MG, juntas, somaram cerca de 2.000 votos. Em buscas realizadas pela PF em Minas Gerais no fim de abril, os policiais não encontraram nas gráficas citadas nas prestações de contas nenhum documento que indicasse que elas de fato prestaram os serviços declarados

Quais as origens das suspeitas de caixa dois?
O coordenador da campanha de Álvaro Antônio a deputado federal disse à PF que acha que parte dos valores depositados para as campanhas femininas foi usada para pagar material de campanha do hoje ministro e de Bolsonaro. Em uma planilha apreendida em uma gráfica há referência ao fornecimento de material eleitoral para a campanha de Bolsonaro com a expressão "out", o que significa, para a PF, pagamento "por fora"

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