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Sobrevivência da democracia depende de resgate da verdade factual, diz Bucci

Em novo livro, professor busca desvendar conceitos de pós-verdade e também das fake news

São Paulo

Eugênio Bucci tem se voltado a intervenções públicas pela liberdade de imprensa, como um artigo em defesa da Folha e um ato na Faculdade de Direito da USP, no largo São Francisco, em defesa do site The Intercept Brasil, alvos recentes de tentativas de intimidação por “vivandeiras”, como chama.

Mas ele prossegue no esforço intermitente de dar sustentação ao debate sobre jornalismo no país. Professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, agora também no programa da área no Insper, está lançando “Existe Democracia sem Verdade Factual?”, baseado em duas conferências, em que busca distinguir do que se trata quando jornalistas e outros falam em “pós-verdade” ou “fake news”.

Seu primeiro alerta é que “a imprensa, ao menos na visão de seus praticantes menos pernósticos, nunca teve a missão de entregar ‘a’ verdade às pessoas”. O que busca é permitir um primeiro conhecimento dos fatos, “transitório e precário”, que nada tem de metafísico.

Eugenio Bucci, professor de jornalismo da ECA-USP
Eugênio Bucci, professor de jornalismo da ECA-USP - Reinaldo Canato/Folhapress

“Não é uma verdade que se manifeste em epifania”, escreve, mas “simplesmente a verdade dos fatos”. Ele foi buscar a noção de verdade factual, do título, na filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975), mas observando que nasceu, significativamente, de um artigo para a revista semanal The New Yorker, publicação em que ela atuou como repórter.

Passado meio século, a verdade factual de Arendt serve de parâmetro para encarar o atual “mal-estar causado pela era da pós-verdade” porque, entre outras coisas, estabelece uma desvinculação categórica entre “a esfera abrangida pela política e aquela em que os fatos são apurados”.

Fica evidente, segundo ele, que “confiar à política o papel de estabelecer a verdade dos fatos é flertar com o autoritarismo”.

É a esfera em que se disseminam as fake news, que o autor defende chamar de notícias fraudulentas, e não notícias falsas, seguindo a tradução sugerida por Carlos Eduardo Lins da Silva, também do Insper e ex-ombudsman da Folha.

“‘Fake’, em inglês, envolve intenção de enganar”, justifica Bucci. “‘Falsa’, em português, não implica esse dolo, essa intenção maliciosa.”

Bucci aponta a responsabilidade das plataformas sociais e de busca, por “acelerar e fortalecer a pós-verdade”, resultado da “exploração industrial do olhar do desejo”. Facebook e Google estabeleceram um ambiente em que “a fraude compensa”, em parte porque é mais barata do que a busca da verdade factual.

Além de afirmar que a defesa da verdade factual implica compromisso com a imprensa livre e crítica, ele escreve que é necessário tornar “transparentes todas as formas de controle privado (e por vezes secreto) das tecnologias empregadas para administrar o fluxo de informações”.

Em outras palavras, “ou a democracia consegue desenvolver meios de governar os algoritmos comandados por oligopólios globais, ou a democracia se amofinará sob a gestão dos algoritmos”.

Existe Democracia Sem Verdade Factual?

  • Preço R$ 35 (135 págs.)
  • Autor Eugênio Bucci
  • Editora Estação das Letras e Cores
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