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Tragédia de Paraisópolis faz Doria rever discurso sobre bandeira eleitoral

Padrão agora de governador na área de segurança pública será um discurso mais duro associado a gestos

São Paulo

A morte de nove jovens durante a repressão da Polícia Militar a um baile funk na favela de Paraisópolis, em São Paulo, obrigou o governador João Doria (PSDB) a reavaliar a forma com que trata do tema de segurança pública.

Se o tom linha dura não irá deixar de dominar, o espaço está garantido para gestos públicos de indignação e cobrança em caso de episódios de violência policial inequívoca.

O setor é uma de suas bandeiras principais hoje e em 2022, quando pretende disputar a Presidência. No páreo neste momento, dois representantes da linha dura contra a criminalidade, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o governador Wilson Witzel (PSC-RJ).

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O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), participa da inauguração da Casa da Mulher Brasileira de São Paulo - Zanone Fraissat/Folhapress

Pesquisas internas do governo indicam que, mesmo após as mortes ocorridas na madrugada do dia 1º, cerca de 80% da população ainda consideram os bailes funk, ou pancadões, um problema a ser combatido.

O que deve mudar é a forma com que episódios de erro operacional, para ficar numa visão mais benigna, ou de dolo, para o ângulo menos complacente, serão tratados. Nesse sentido, o afastamento de 38 policiais envolvidos na ação, que antagonizou Doria ao comando da PM na segunda (9), é uma baliza.

O governador assumiu dentro da vaga antipetista e bolsonarista que varreu as urnas em outubro de 2018, quando se tornaram lugares comuns antigos temas como: “Rota [tropa de elite] na rua”, “atirou contra a polícia, bandido vai para a vala”.

Desde os tempos em que era figura de proa na política paulista, o ex-governador e ex-prefeito Paulo Maluf já surfava esse sentimento.

Usualmente, segundo as pesquisas disponíveis, ele é prevalente não só nas camadas médias da população, mas também entre muitos os que estão na ponta, como o eleitorado evangélico das periferias.

Assim, Doria incorporou o figurino e determinou investimentos na área de segurança. Colheu resultados: índices de homicídios estão nos menores níveis da história aferível, por exemplo. Isso foi inclusive alvo de uma campanha publicitária específica, de R$ 12,7 milhões, em setembro.

O governador se reúne semanalmente com o comando da área. Empoderou os chefes da PM e da Polícia Civil, que têm assento de adjuntos na Secretaria da Segurança.

Obviamente, tal sentimento de apoio ao combate à violência não é compartilhado pelas vítimas de ações policiais como a de Paraisópolis.

No dia da tragédia, Doria publicou em sua conta no Twitter um comentário sóbrio, pedindo apuração do caso. Ao falar sobre o episódio, na segunda (2), o pêndulo mudou e ele defendeu a continuidade das operações contra bailes funk.

A divulgação de um vídeo mostrando outro PM, agora em outubro, batendo sadicamente em jovens na mesma Paraisópolis fez Doria endurecer a cobrança por apuração no dia seguinte.

O comandante da PM, coronel Marcelo Vieira Salles, não gostou e protestou contra a culpabilização prévia da corporação. O tucano, neste caso, seguiu na linha, chegando ao afastamento dos policiais.

Não deixa de ser irônica a situação, dado que Salles, ex-ajudante de ordens do governador Geraldo Alckmin (PSDB), é visto como um dos maiores adversários do aumento da letalidade policial que acompanhou a queda na violência em geral no estado.

 

Ao mesmo tempo, Doria tentou equilibrar a situação não perdendo uma oportunidade de prestigiar a polícia. Em sua lista de distribuição do WhatsApp, até vídeo de parto feito por PMs apareceu. Nesta quarta (11), premiou policiais no Palácio dos Bandeirantes.

O padrão já foi visto antes, quando o governador fez acenos ao setor após uma altercação com policiais aposentados em um evento.

No Twitter, do dia das mortes até aqui, foram oito postagens com temas favoráveis à política de segurança ante três sobre violência policial, fora duas republicações de seu encontro com mães de vítimas de Paraisópolis.

Esse episódio também chamou atenção de antigos auxiliares do governador, que não tem compaixão como a palavra mais lembrada quando seu perfil é avaliado em grupos de análise qualitativa.

Entre aliados distantes do Palácio dos Bandeirantes, por outro lado, Doria teria demorado a receber as famílias. Alguns lembraram dos episódios em que a rainha Elizabeth 2ª foi pressionada pelos fatos para fazer demonstrações públicas em momentos graves no Reino Unido, como na morte da princesa Diana em 1997 ou no desastre de mineração que matou 116 crianças e 28 adultos, em 1966.

Seja qual for a avaliação correta, é certo que esse será um padrão agora: discurso mais duro associado a gestos, quando a situação demandar.

Não houve uma mudança fundamental de avaliação sobre um ponto: a ideia de que bailes funk não são apenas promotores de cultura para aqueles desassistidos do estado.

Se o ponto é defensável, o entorno de Doria crê que há uma glamourização perigosa da cultura dos bailes, em especial na mídia, por ignorar o que chamam de presença do crime nos eventos. Por isso, ações contra pancadões continuarão.

Politicamente, como não houve nas pesquisas internas alteração significativa na avaliação do governador após Paraisópolis, agora é mais um jogo de imagem.

O tucano percebeu a movimentação do ministro Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública), que criticou a PM em Paraisópolis. Não gostou: quando Moro estava em baixa com Bolsonaro por sua suposta pretensão presidencial em 2022, o tucano ofertou-lhe abrigo no secretariado.

Na pesquisa do Datafolha divulgada nesta semana, Moro segue como o ministro mais popular do governo, e isso está na planilha dos estrategistas do PSDB. Ninguém descarta a possibilidade de ele ainda vir a ser candidato.

Doria não tem nem terá penetração no eleitorado mais à esquerda, que tende à demonização da PM a priori.

Se com a direita e centro-direita que disputa com Bolsonaro, Witzel e Moro parece que a conduta deu certo, resta saber como ficará o tal centro do espectro político, cortejado pelos atores que pensam em 2022.

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