Nas crises, Bolsonaro se orienta pelas redes sociais para manter sua base coesa

Estudo aponta que presidente passou a se preocupar mais em janeiro com reações de núcleo duro de seus apoiadores

Brasília

Em um início de ano turbulento, marcado por crises políticas e tropeços administrativos, o presidente Jair Bolsonaro tomou decisões e recuou de algumas delas com base na reação de redes sociais. Assim, buscou evitar perder apoio junto ao eleitorado bolsonarista.

O presidente Jair Bolsonaro, em frente ao Palácio da Alvorada
O presidente Jair Bolsonaro, em frente ao Palácio da Alvorada - Sérgio Lima/AFP

Sob críticas até mesmo de militantes de direita, motivadas pela viagem de um auxiliar presidencial em avião da FAB e pela discordância pública com o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, Bolsonaro intensificou o monitoramento dos canais digitais e os usou como bússola do governo.

As posições adotadas por ele, que tentou evitar a todo o custo uma deterioração de sua base de apoio, contrariaram até mesmo recomendações de assessores e o levaram a protagonizar recuos públicos em janeiro.

Como quando desistiu de recriar o Ministério da Segurança Pública, desvinculando-o da pasta da Justiça, e de conceder um novo cargo ao secretário-executivo da Casa Civil Vicente Santini, demitido por usar um voo exclusivo da FAB para a Índia.

Nos dois episódios, a pressão das redes sociais foi determinante na posição de Bolsonaro, segundo aliados.

A relação entre a atitude do presidente e a reação de apoiadores do governo é abordada, por exemplo, em estudo promovido pela empresa de análise de dados Arquimedes, feito a pedido da Folha.

O levantamento aponta que, em janeiro, Bolsonaro tomou decisões para “manter um ambiente virtual favorável”.

A análise destaca que o presidente se preocupa com o comportamento de três grupos. Em primeiro plano, eleitores bolsonaristas e seguidores lavajatistas, fãs da força-tarefa de Curitiba. E, em um segundo momento, internautas liberais e moderados, que ora apoiam as medidas econômicas da administração ora criticam a pauta de costumes da gestão federal.

“No discurso de posse, o presidente já antecipou que usaria as redes sociais para falar com a população. Ele sabe mobilizar e tenta não perder apoio junto à base eleitoral dele”, diz Pedro Bruzzi, analista e sócio da Arquimedes.

O presidente também se orientou pelas redes sociais após polêmica com o resultado de auditoria do BNDES sobre a “caixa-preta” do banco estatal. A investigação externa, que teve um custo de R$ 48 milhões, não encontrou indícios de corrupção.

O resultado contrariou discurso eleitoral de Bolsonaro, que denunciava o suposto uso dos recursos da instituição financeira de maneira irregular por governos petistas. A mobilização de internautas bolsonaristas contra o relatório levou o presidente a fazer uma crítica dura ao dirigente do banco.

“Tem coisa esquisita aí. Parece que alguém quis raspar o tacho”, disse. “É o garoto lá [Gustavo Montezano, presidente do banco], foi o garoto”, afirmou na terça-feira (28).

Bruzzi observa que, em relação ao primeiro ano de governo, houve uma mudança no padrão de Bolsonaro. Ele costumava reagir diante de repercussões negativas que mobilizassem um grande público nas redes sociais. Em janeiro deste ano, focou sua resposta apenas no comportamento de sua base de apoio.

A prova disso foi o tratamento dado por ele às falhas identificadas na prova do Enem, que colocaram sob risco de demissão o ministro da Educação, Abraham Weintraub, criticado até pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Os ataques nas redes sociais foram capitaneados por internautas de esquerda e por estudantes, sem envolvimento inicial da base eleitoral de Bolsonaro, o que o motivou a sair em defesa do ministro, cogitando risco de sabotagem.

“Está complicado, eu tenho conversado com ele [Weintraub] para ver o que está acontecendo. Se realmente foi uma falha nossa, se tem uma falha humana, sabotagem, seja lá o que for, temos que chegar no final de linha e apurar isso aí”, disse o presidente, também na última terça.

Com a declaração, os simpatizantes do governo iniciaram movimento em defesa de Weintraub, o que assegurou até o momento a sua permanência no governo. 

Na sexta-feira (31), por exemplo, Bolsonaro postou nas redes sociais uma fotografia ao lado do ministro da Educação.

A decisão do presidente em guiar a sua reação apenas pelo comportamento de sua base de apoio teve início no segundo semestre do ano passado, quando enfrentou um aumento de sua reprovação em setembro, como mostrou o Datafolha.

O levantamento apontou que o núcleo duro de apoio a Bolsonaro era de 12% da população, o que levou o Planalto a iniciar uma estratégia de reação para tentar aumentar o percentual do chamado “bolsonarista heavy”. Em dezembro, essa taxa de bolsonaristas que aprovam e apoiam tudo o que ele diz passou para 14%. 

“Desde a queda nas pesquisas de opinião, o presidente focou nesse grupo com o objetivo de manter uma base coesa e evitar uma perda de apoio”, avalia Bruzzi, da Arquimedes.

Para evitar a perda de mobilização, o presidente resolveu atuar como porta-voz de seu próprio governo, municiando a militância digital com declarações diárias, concedidas duas vezes ao dia aos veículos de imprensa na entrada do Palácio da Alvorada.

Em paralelo, o chamado “gabinete da raiva”, bunker digital que atua no terceiro andar do Planalto e que é tutelado pelo filho e vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), trabalhou mais ativamente na produção de conteúdo digital que mantenha a militância bolsonarista mobilizada em defesa do governo.

Nos dois episódios em janeiro em que o presidente acabou recuando após sofrer críticas em sua base de apoio, ele decidiu avaliar mudanças na configuração ministerial.

Após entrar em conflito com Moro, por exemplo, Bolsonaro voltou a cogitar a indicação do ex-juiz da Operação Lava Jato para a vaga do ministro Celso de Mello no STF (Supremo Tribunal Federal) —o ministro se aposenta compulsoriamente em novembro, quando completará 75 anos.

O movimento, além de evitar o risco de Moro se tornar um oponente de Bolsonaro na próxima disputa presidencial, em 2022, faria com que ele tivesse mais autonomia sobre seu próprio governo.

Em relação à polêmica envolvendo o uso de jato da FAB, o presidente passou a considerar a saída do ministro Onyx Lorenzoni do comando da Casa Civil e sua realocação para outra pasta, como Cidadania, Educação ou Desenvolvimento Regional.

Neste sábado (1º), Onyx se encontrou com Bolsonaro no Alvorada e disse que permanecerá no cargo. ​

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