Descrição de chapéu DeltaFolha

Esquerda inflama após ato pró-intervenção com Bolsonaro, e direita fala de golpe contra presidente

Folha analisou 885 mil mensagens no Twitter que falavam sobre o presidente da República

São Paulo

O presidente Jair Bolsonaro referendou no domingo (19) ato de manifestantes de direita de apoio a intervenção militar, mas foi a esquerda que se inflamou no Twitter com esse gesto.

A Folha analisou 885 mil mensagens que continham o nome do presidente na rede social, postadas das 14h de domingo (logo após ele falar aos manifestantes que não estava negociando nada) até as 12h desta segunda-feira (20).

O número de usuários de esquerda que se manifestaram (77 mil) foi superior aos de direita (50 mil). Os perfis de centro reagiram menos (27 mil contas).

A classificação dos usuários entre centro, direita e esquerda é feita pelo GPS Ideológico, ferramenta da Folha que categorizou 1,7 milhão de perfis no Twitter, com interesse em política.

Os usuários são distribuídos numa reta, do ponto mais à direita ao mais à esquerda, de acordo com quem eles seguem na rede social.

Na esquerda, os tuítes mais populares ironizavam as manifestações pelo país. O que mais circulou nesse espectro mostra o vídeo de uma pessoa tocando berrante em frente a pessoas com roupas do Brasil.

O gesto foi uma alusão ao gado, termo usado pejorativamente contra apoiadores de Bolsonaro. Esse também foi o tuíte mais popular no centro.

Neste domingo, em cima da caçamba de uma caminhonete, diante do quartel-general do Exército e se dirigindo a uma aglomeração de apoiadores pró-intervenção militar no Brasil, Bolsonaro afirmou que "acabou a época da patifaria" e gritou palavras de ordem como "agora é o povo no poder" e "não queremos negociar nada".

"Nós não queremos negociar nada. Nós queremos ação pelo Brasil", declarou o presidente, que participou pelo segundo dia seguido de manifestação em Brasília, provocando aglomerações em meio à pandemia do coronavírus. "Chega da velha política. Agora é Brasil acima de tudo e Deus acima de todos."

Já nesta segunda-feira, o presidente procurou mudar o tom. "Peguem o meu discurso. Não falei nada contra qualquer outro Poder. Muito pelo contrário. Queremos voltar ao trabalho, o povo quer isso. Estavam lá saudando o Exército brasileiro. É isso, mais nada. Fora isso é invencionice, tentativa de incendiar a nação que ainda está dentro da normalidade", disse Bolsonaro nesta manhã.

Na direita, o tuíte mais popular falava sobre uma suposta conspiração contra o governo, usando a epidemia do coronavírus como pretexto.

A segunda e terceira mensagens mais populares eram tuítes do próprio presidente, um chamando para um vídeo seu e outro para live da dupla musical Henrique e Juliano.

Para essa análise, a reportagem dividiu os usuários em três grupos (33% mais à esquerda, 33% no centro e 33% à direita).

Numa segunda etapa, o mesmo contingente foi dividido em seis grupos, para ser possível identificar perfis mais extremos, dentro de cada grupo.

Com esse recorte, foi possível verificar que houve divisão dentro da direita. Os mais extremos nesse espectro se engajaram mais que os mais moderados. Foram 37 mil perfis mais à direita tuitando, ante 13 mil mais ao centro (diferença de 180%).

Na esquerda, essa divisão não ocorreu. O número de usuários mais à esquerda (45 mil) foi próximo aos perfis um pouco mais ao centro (33 mil), uma diferença de apenas 35%.

Também no conteúdo houve descolamento entre os dois grupos de direita. Para o grupo mais ao centro, o tuíte mais popular foi do ministro Luís Roberto Barroso (STF), que condenava o ato.

Em outras ocasiões, mais usuários de direita participaram das discussões do que os de esquerda, como à época de atos de 15 de março, também contra Congresso e Supremo ou quando o STF tomou decisão que soltou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Já na direita mais radical, a mensagem mais popular foi do deputado federal Carlos Jordy, falando sobre o suposto golpe contra Bolsonaro.

Na esquerda mais radical, o tuíte mais popular mostrava uma foto de um policial empunhando uma arma, aparentemente protegendo os manifestantes críticos ao Supremo e ao Congresso.

Na esquerda mais moderada, o tuíte sobre o berrante e o gado foi o mais popular.

Outra análise

Monitoramento feito pela consultoria Quaest mostra que a popularidade de Bolsonaro nas redes sociais caiu no fim da semana passada, após ele demitir o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Num índice que vai de 0 a 100, Bolsonaro vinha com 78, mas caiu para 65 até este domingo (19). Mas ele ainda tem número maior que o próprio Mandetta (56), Lula e o apresentador Luciano Huck (que vinha se movimentando para concorrer à Presidência) --estes dois com cerca de 30 pontos.

A empresa elaborou um índice a partir de variáveis como número de seguidores, volume de comentários, reações positivas e engajamento nas redes sociais. Buscas na enciclopédia online Wikipedia e no Google também foram consideradas.

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