Bolsonaro usa helicóptero e anda a cavalo para prestigiar ato na Esplanada contra STF e Congresso

Nas faixas, ataques ao Supremo e pedidos de intervenção militar; congressistas foram chamados de corruptos

Brasília e São Paulo

O presidente Jair Bolsonaro requisitou um helicóptero oficial para sobrevoar a Esplanada dos Ministérios neste domingo (31) e prestigiar mais uma manifestação a favor de seu governo e contra o STF (Supremo Tribunal Federal) e o Congresso.

Depois, desceu e caminhou para cumprimentar seus apoiadores que estavam em frente ao Planalto. Ele não utilizava máscara, obrigatória no Distrito Federal como medida de combate à Covid-19. Em seguida, andou a cavalo diante de manifestantes. O presidente não deu declarações.

Na domingo passado (24), o presidente também havia utilizado um helicóptero para sobrevoar a área.

Neste domingo, uma carreata e pessoas a pé se dirigiram à Praça dos Três Poderes, onde um grupo se aglomerou à espera do presidente da República.

O helicóptero, em um passeio de 40 minutos, deu pelo menos seis voltas na Esplanada e pousou por volta das 12h no Palácio do Planalto. O ministro da Defesa, Fernando Azevedo, acompanhou o presidente. Após cumprimentar apoiadores, em frente ao Planalto, Bolsonaro retornou ao Alvorada de helicóptero.

O presidente Jair Bolsonaro sobrevoa de helicóptero a praça dos três poderes durante uma manifestação em apoio ao governo
O presidente Jair Bolsonaro sobrevoa de helicóptero a praça dos três poderes durante uma manifestação em apoio ao governo - Pedro Ladeira/Folhapress

Como tem ocorrido constantemente, o STF foi o principal alvo das palavras de ordem e das placas carregadas por manifestantes.

​Placas afirmavam: "Supremo é o povo" e "Abaixo a ditadura do STF". Faixas faziam ataques ao Supremo e pediam intervenção militar. Congressistas foram chamados de corruptos.

Manifestantes demonstraram ainda apoio aos ministros Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Abraham Weintraub (Educação). "Fake news não é crime", dizia uma faixa. O número de manifestantes deste domingo era um pouco maior do que o da semana passada.

Neste sábado (30), sem compromissos oficiais previstos, Bolsonaro também usou um helicóptero, desta vez para visitar cidades de Goiás que ficam próximas a Brasília.

De acordo com imagens publicadas por apoiadores nas redes sociais, sem usar máscara, o presidente causou aglomeração em uma lanchonete no município de Abadiânia, contrariando orientações sanitárias e repetindo cenas provocadas por ele durante a pandemia do coronavírús.

No início da madrugada deste domingo, um grupo de pessoas mascaradas carregando tochas protestou em frente ao STF (Supremo Tribunal Federal).

Os manifestantes eram liderados por Sara Winter, investigada no inquérito contra fake news que tramita no STF.

Ela é um dos líderes do chamado movimento "Os 300 do Brasil", grupo armado de extrema direita formado por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro que acampam em Brasília.

Com máscaras, roupas pretas e tochas, o grupo, formado por poucas dezenas de pessoas, desceu a Esplanada e, segundo imagens divulgadas por eles nas redes, se posicionou em frente ao Supremo.

Mais cedo, Bolsonaro voltou a fazer ataques à imprensa em publicação em redes sociais.

"O maior dos FAKE NEWS é o 'gabinete do ódio' inventado pela imprensa", afirmou, em referência ao grupo alvo de investigação no inquérito das fake news.

"Até o momento a Folha, Globo, Estadão... não apontaram uma só fake news produzida pelo tal 'gabinete'", afirmou.

Depois, Bolsonaro falou em "mídia podre" e citou ações do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sobre disparos de mensagens em massa de WhatsApp na campanha eleitoral.

"Será que, se eu chamar essa imprensa e negociar com ela alguns BILHÕES DE REAIS em propaganda, tudo isso se acaba?", afirmou.

CELSO DE MELLO

Em mensagem enviada a colegas da corte, o ministro Celso de Mello, decano do STF, disse que o bolsonarismo quer uma ditadura militar instalada no Brasil.

No texto, ele diz que a “intervenção militar, como pretendida por bolsonaristas e outras lideranças autocráticas que desprezam a liberdade e odeiam a democracia”, nada mais é “senão a instauração, no Brasil, de uma desprezível e abjeta ditadura militar”.

Também comparou o momento vivido pelo Brasil com o da Alemanha durante a ascensão do ditador nazista Adolf Hitler.

O juiz é o relator do inquérito sobre as acusações do ex-ministro Sergio Moro sobre interferência de Bolsonaro na Polícia Federal. Sua manifestação, que ele em nota disse ter sido em caráter pessoal e não institucional, levou a imediatas acusações de suspeição por parte dos filhos de Bolsonaro em redes sociais.

Segundo disse à Folha o ministro Gilmar Mendes, a manifestação não veio em boa hora.

O decano fez a afirmação antes dos protestos do domingo, em que Bolsonaro novamente prestigiou ato pregando golpismo.

Outro ministro da corte, falando sob reserva, se disse preocupado com a suspeita que a afirmação trará sobre Celso de Mello enquanto preside um inquérito de grande peso contra o presidente.

O clima de tensão institucional é malvisto pelo serviço ativo das Forças Armadas, que rechaçam hipóteses golpistas.

Incomodou muito generais, almirantes e brigadeiros ouvidos no domingo pela Folha o fato de o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, ter dividido o helicóptero usado pelo presidente neste domingo.

Bolsonaro sobrevoou a manifestação golpista a seu favor com Azevedo a seu lado, embora não tenha sido visto nos momentos subsequentes do desempenho presidencial, que incluíram uma cavalgada.

Detalhe: era um aparelho camuflado da Força Aérea, e não o usual helicóptero pintado de branco da Presidência.

Na semana passada, Azevedo já havia divulgado nota apoiando o general Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) em sua manifestação que via risco de instabilidade democrática no país.

A ativa fardada se queixou com Bolsonaro sobre o tema na segunda, em reunião dos comandantes das Forças com o presidente e Azevedo.

Por outro lado, tanto a ativa quanto a ala militar alocada no governo estão do lado de Bolsonaro no embate com o Supremo, considerando as recentes medidas envolvendo o presidente equivalentes a um cerco ao Planalto.

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