Extrato de Queiroz e novos cheques à primeira-dama abrem lacunas sobre papel de Bolsonaro; entenda

Hoje preso, ex-assessor depositou 21 cheques no total de R$ 72 mil à primeira-dama Michelle Bolsonaro

Rio de Janeiro

A quebra do sigilo bancário do policial militar aposentado Fabrício Queiroz revelou novos empréstimos do amigo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) à primeira-dama Michelle Bolsonaro, segundo mostrou a revista Crusoé nesta sexta-feira (7).

Entre as transações de Queiroz, até o momento se sabia que haveria repasses que somavam R$ 24 mil para a mulher do presidente.

Em entrevistas após a divulgação do caso, Bolsonaro disse que o ex-assessor repassou a Michelle dez cheques de R$ 4.000 para quitar uma dívida de R$ 40 mil que tinha com ele (essa dívida não foi declarada no Imposto de Renda).

Mas, segundo a revista, os cheques de Queiroz que caíram na conta de Michelle somam R$ 72 mil, e não os R$ 24 mil até então revelados nem os R$ 40 mil ditos pelo presidente. Pelo menos 21 cheques foram depositados por Queiroz na conta de Michelle de 2011 a 2018.

A Folha confirmou as informações obtidas pela revista e apurou que o repasse foi ainda maior. Queiroz depositou 21 cheques na conta de Michelle de 2011 a 2016, no total de R$ 72 mil.

A reportagem também apurou que a mulher de Queiroz, Márcia Aguiar, repassou para Michelle R$ 17 mil entre janeiro e junho de 2011. Assim, no total, Queiroz e Márcia depositaram R$ 89 mil para primeira-dama entre 2011 e 2016.

As revelações da quebra de sigilo abriram novas lacunas sobre a relação entre Queiroz e Bolsonaro e o esquema da "rachadinha" no gabinete de Flávio Bolsonaro. A Folha reuniu algumas perguntas ainda não respondidas sobre o caso.​

Por que a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, recebeu R$ 93 mil de Queiroz e sua mulher entre 2011 e 2016? Essa é a principal dúvida que se segue após a revelação das transações pela revista Crusoé. Quando as movimentações financeiras atípicas de Queiroz vieram à tona, ao fim de 2018, sabia-se que o ex-assessor havia repassado R$ 24 mil para a primeira-dama.

À época, Jair Bolsonaro disse que o ex-assessor havia depositado a Michelle dez cheques de R$ 4.000 para quitar uma dívida de R$ 40 mil que tinha com ele. Também afirmou que os recursos foram para a conta de sua mulher porque ele "não tem tempo de sair".

Mas, segundo a revista, os cheques de Queiroz que caíram na conta de Michelle somam R$ 72 mil, e não os R$ 24 mil até então revelados nem os R$ 40 mil ditos pelo presidente.

A Folha confirmou as informações obtidas pela revista e apurou que o repasse foi ainda maior. Queiroz depositou 21 cheques na conta de Michelle de 2011 a 2016, no total de R$ 72 mil.

A reportagem também apurou que a mulher de Queiroz, Márcia Aguiar, repassou para Michelle R$ 17 mil entre janeiro e junho de 2011. Foram cinco cheques de R$ 3.000 e um de R$ 2.000. Assim, no total, Queiroz e Márcia depositaram R$ 89 mil para primeira-dama de 2011 a 2016, em um total de 27 movimentações.

Às vésperas de assumir a Presidência, em entrevista ao Jornal da Record, Bolsonaro afirmou em dezembro de 2018 que fez mais de um empréstimo a Queiroz e que nunca cobrou juros.

"Há seis, sete, oito anos atrás também chegou uma dívida a R$ 20 mil e ele pagou em cheque para mim também. Quem nunca fez um negócio como esse com um amigo até? Foi o que foi feito. Não cobrei juros, não cobrei nada, então não devo nada", disse.

Bolsonaro nunca explicou o motivo desses empréstimos ou apresentou comprovantes das transações. A dívida também não foi declarada no Imposto de Renda.

A quebra de sigilo atingiu a movimentação financeira de Queiroz de 2007 a 2018. Nesse período, porém, não há depósitos de Jair Bolsonaro na conta do ex-assessor que comprovem o empréstimo alegado. Assim, se o empréstimo ocorreu depois de 2007, foi feito em espécie.​

Em dezembro de 2019, questionado por um repórter sobre a existência de algum comprovante dos empréstimos, Bolsonaro respondeu: “Oh rapaz, pergunta para a tua mãe o comprovante que ela deu para o teu pai, tá certo?”.

​“Você tem a nota fiscal desse relógio no teu braço? Não tem. Você tem nota fiscal do teu sapato? Você tem do teu carro, o documento. Tudo para o outro lado tem que ter nota fiscal e comprovante. Eu conheço o Queiroz desde 1985, nunca tive problema. Pescava comigo, andava comigo no Rio de Janeiro. Tinha que ter segurança comigo, andava com meu filho. Se ele fez besteira, responda pelos atos dele”, concluiu.

O presidente Jair Bolsonaro tinha controle ou, ao menos, conhecimento sobre o suposto esquema da "rachadinha"? Bolsonaro e Queiroz se conheceram no Exército e são amigos há mais de 30 anos. Dessa forma, foi por meio de Jair que o ex-assessor ingressou no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Os gabinetes do pai e dos filhos eram, de certa forma, interligados. Com frequência pessoas do entorno de Jair se tornavam servidores dos filhos. Também era comum que os assessores migrassem de gabinete.

Foi o caso de Nathalia Queiroz, filha de Queiroz, nomeada servidora de Flávio na Assembleia e, depois, de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados. Como a Folha revelou, Nathalia era funcionária fantasma do então deputado federal e atuava como personal trainer no Rio. Segundo o MP-RJ, ela repassou pelo menos R$ 633 mil ao pai.

Não ficou claro até o momento, no entanto, o quanto Jair Bolsonaro sabia ou se ele tinha controle sobre o suposto esquema ainda sob investigação pelo MP-RJ.

Por que Fabrício Queiroz estava abrigado no sítio do então advogado da família Bolsonaro, Frederick Wassef? A família Bolsonaro sabia da localização do ex-assessor? Essa foi a principal pergunta remanescente após a operação Anjo, que prendeu o ex-assessor de Flávio Bolsonaro no dia 18 de junho. Em entrevista à Folha, Wassef chegou a dizer que nunca telefonou ou trocou mensagens com Queiroz e que o caso era uma armação para incriminar o presidente Jair Bolsonaro.

Posteriormente, em entrevista à revista Veja, Wassef afirmou que escondeu Queiroz por uma “questão humanitária” porque o ex-servidor estaria sendo ameaçado de morte. O advogado não apresentou provas para essa versão.

Jair Bolsonaro diz não sabia do abrigo dado a Queiroz e afirmou em live no dia 18 de junho que o ex-assessor estava em Atibaia porque a região fica perto do hospital onde trata um câncer. Flávio Bolsonaro também já afirmou que a famíla não sabia do paradeiro do ex-assessor.

Qual a origem de R$ 900 mil sacados por Queiroz, ainda não identificada pelo Ministério Público? No pedido de prisão de Queiroz, a Promotoria indica que, de 2007 a 2018, 11 assessores vinculados a Flávio Bolsonaro repassaram pelo menos R$ 2 milhões ao PM aposentado, sendo a maior parte por meio de depósitos em espécie.

No mesmo período, no entanto, Queiroz sacou R$ 2,9 milhões, o que indica que o volume entregue a ele pode ter sido maior. Por isso, o MP-RJ ressalta que o esquema pode não ter se limitado aos 11 assessores identificados pelos registros bancários.

Quem enviou dinheiro para familiares de Queiroz, incluindo os R$ 174 mil em espécie que custearam as despesas do ex-assessor no hospital Albert Einstein? Como indicado pela Promotoria na peça que pediu a prisão do ex-assessor, uma troca de mensagens entre Márcia Aguiar e sua filha, Mayara Gerbatim, sugere que a família Queiroz recebia dinheiro de terceiros para se manter.

"Sabe me dizer se deram o dinheiro do mercado e das coisas da Melissa?", pergunta Márcia à filha, após afirmar que houve um estresse com o "Anjo" [supostamente o advogado Wassef] depois da publicação de uma reportagem sobre Queiroz. "Deram", ela responde.

O Ministério Público também afirma que anotações em uma caderneta apreendida na casa de Márcia e os recibos do hospital Albert Einstein comprovam que a mulher de Queiroz recebeu pelo menos R$ 174 mil em espécie para custear o tratamento do ex-assessor na unidade de saúde.

Qual a profundidade dos laços de Queiroz com as milícias do Rio? A partir de uma troca de mensagens, o MP-RJ afirma que Queiroz mantém influência sobre a milícia de Rio das Pedras, na zona oeste do Rio. Em dezembro de 2019, Márcia Aguiar encaminhou ao PM aposentado um áudio de um homem que queria pedir ajuda a Queiroz depois de ter sido ameaçado pelo grupo paramilitar que domina a região.

"Eu queria que, se desse para ele ligar, se conhecer alguém daqui, Tijuquinha, Rio das Pedras, os 'meninos' que cuidam daqui", afirmou o interlocutor à mulher de Queiroz.

Em resposta a Márcia, o ex-assessor disse que poderia interceder com os milicianos pessoalmente, e que não faria o contato pelo telefone porque tinha receio de estar grampeado.

Qual foi o destino do dinheiro obtido pela família do ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, líder do grupo miliciano Escritório do Crime, por meio do suposto esquema de rachadinha? Morto em uma operação policial na Bahia em fevereiro deste ano, o ex-capitão do Bope e líder do grupo miliciano Escritório do Crime, Adriano Magalhães da Nóbrega, conseguiu empregar a ex-mulher e a mãe no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia.

Adriano era amigo de Queiroz e ambos trabalharam juntos no 18° Batalhão da Polícia Militar.

Na peça que pediu a prisão de Queiroz, o MP-RJ indica que, durante o período em que permaneceram no gabinete, Danielle Mendonça da Silva e Raimunda Veras Magalhães obtiveram remuneração de R$ 1 milhão. Desse valor, R$ 400 mil retornaram para Queiroz, que, segundo a promotoria, era o operador financeiro do esquema da rachadinha.

O Ministério Público não esclareceu o destino dos R$ 600 mil restantes. Após ter sido exonerada ao final de 2018, a ex-mulher de Adriano, Danielle, pediu a ele ajuda financeira.

"Imagina como fiquei em dezembro? Que você sempre me dava o dobro. Me descontrolou total", afirma. "Não foi culpa minha, né. Contava com o que vinha do seu também", Adriano respondeu, indicando que também se beneficiava diretamente do esquema.

Qual foi o recado encaminhado por emissários de Queiroz a familiares de Adriano, por meio de encontro em MG? Em dezembro de 2019, segundo mensagens obtidas pela Promotoria, se reuniram em Astolfo Dutra (MG) Raimunda Magalhães, mãe de Adriano; a mulher do ex-capitão; Márcia Aguiar, mulher de Queiroz; e Luis Gustavo Botto Maia, advogado de Flávio Bolsonaro. Antes de ir a Minas, Botto teria se encontrado previamente com "Anjo" (Wassef) e com Queiroz.

O objetivo, segundo o Ministério Público, era que a mulher de Adriano levasse a ele, que estava foragido, um recado de Queiroz. "Vai falar com o amigo sobre o recado", escreveu Márcia Aguiar ao marido. "Depois que ela falar com o amigo ela vai entrar em contato comigo", completou.

A Promotoria acredita que Adriano iria elaborar um plano de fuga para a família de Queiroz, mas não apresentou na peça os indícios dessa teoria.

Por que Bolsonaro apresentou justificativa para a estadia de Queiroz em Atibaia, afirmando que o local fica perto do hospital onde o ex-assessor trata um câncer? Após o início das investigações do suposto esquema de rachadinha, a família Bolsonaro passou a afirmar que não se encontrava ou tinha qualquer tipo de contato com Queiroz.

Em live no dia 18 de junho, no entanto, Bolsonaro afirmou que o ex-assessor estava naquela área porque o local fica perto do hospital onde trata um câncer. Resta a dúvida de como o presidente poderia ter acesso a essa informação se não tem qualquer contato com Queiroz.

Em entrevista ao Jornal Nacional, Wassef disse que Bolsonaro jamais teve ciência ou conhecimento sobre o caso da rachadinha. "Eu sempre afirmei que o que eu trato com o presidente são assuntos jurídicos entre eu e ele, de temas dele, de casos dele."

Por que Flávio Bolsonaro mudou de discurso e se referiu a Queiroz como "um cara correto e trabalhador"? Ao final de maio, Flávio fez uma rara defesa de seu ex-assessor em transmissão em sua rede social. O senador se referiu a Queiroz como "um cara correto, trabalhador".

Foi a primeira vez que Flávio fez um elogio público ao ex-servidor. Desde o início das investigações, o filho do presidente vinha tentando se desvincular de Queiroz.

Onde estão os assessores informais que Queiroz diz ter remunerado? ​Em março de 2019, Queiroz afirmou por escrito ao Ministério Público que recolheu parte dos salários de funcionários do gabinete de Flávio para distribuir a outras pessoas que atuavam como assessores informais.

O objetivo, segundo ele, era aumentar o número de assessores a fim de aproximar Flávio de sua base eleitoral. Até o momento, não se sabe quem seriam e onde estariam esses assessores.

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior desta reportagem informou incorretamente que foram 28 depósitos da família de Queiroz à Michelle Bolsonaro. A quebra do sigilo, porém, mostrou 27 movimentações bancárias, que totalizam R$ 89 mil na conta da primeira-dama. Apenas os cheques em nome de Fabrício Queiroz somam R$ 72 mil. O texto já foi corrigido.​

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