Lula critica manifestos suprapartidários e diz não ter idade para ser 'maria vai com as outras'

Petista pediu a partido cautela antes de aderir a iniciativas em favor da democracia e contra Bolsonaro

São Paulo

O ex-presidente Lula criticou em reunião do PT nesta segunda-feira (1º) os manifestos suprapartidários em defesa da democracia surgidos nos últimos dias, sob o argumento de que os documentos articulados pela sociedade civil desconsideram os direitos dos trabalhadores.

Como mostrou a Folha, as iniciativas buscam recriar o clima das Diretas Já e uniram adversários ideológicos diante dos ataques do presidente Jair Bolsonaro a instituições e à Constituição.

A atual leva é encabeçada pelo Movimento Estamos Juntos, mas outras mobilizações e grupos recém-criados compõem o cenário (como a campanha Somos 70% e o movimento Basta!).

Lula defendeu que o partido analise as iniciativas antes de tomar qualquer decisão e as relacionou a um projeto da elite brasileira —embora parte dos manifestos venha se organizando por meio da internet, com a possibilidade de qualquer cidadão aderir.

"Li os manifestos e acho que tem pouca coisa de interesse da classe trabalhadora. Não se fala em classe trabalhadora, nos direitos perdidos", afirmou o ex-presidente. Para ele, os textos só falam genericamente no que chamou de corte recente de direitos.

Lula se disse incomodado com a presença, nas listas, de nomes de pessoas que apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff (PT) e que, na visão do petista, abriram caminho para a eleição de Bolsonaro. Em diversos momentos, ele reivindicou protagonismo para o partido.

"Sinceramente, eu não tenho mais idade para ser maria vai com as outras. O PT já tem história neste país, já tem administração exemplar neste país. Eu, sinceramente, não tenho condições de assinar determinados documentos com determinadas pessoas", afirmou.

Na fala, transmitida em redes sociais, o ex-presidente disse ter lido os manifestos do Estamos Juntos (inicialmente assinado por artistas e intelectuais) e do Basta! (organizado por advogados e outros representantes do universo jurídico).

Alguns dos manifestos, segundo Lula, são "feitos com boas intenções" e contam com "gente muito boa assinando", mas também há "aqueles que estão fugindo do barco" —que apoiaram Bolsonaro e agora querem se desvencilhar dele.

"Nós precisamos apoiar qualquer manifesto que for para resolver o problema do Brasil, [mas] não podemos ser levados pela euforia", acrescentou, afirmando que a sigla não pode se deixar ser usada por pessoas que são contra Bolsonaro, mas apoiam a política econômica do ministro Paulo Guedes.

"[Tem] muita gente de bem que assinou. E tem muita gente que é responsável pelo Bolsonaro. O PT tem que discutir com muita profundidade, para a gente não entrar numa coisa em que outra vez a elite sai por cima da carne seca, e o povo trabalhador não sai na fotografia."

O petista disse não ter certeza se o objetivo das mobilizações é tirar Bolsonaro, "porque o que interessa para a elite brasileira é a política de desmonte do Guedes. Eles estão tentando reeducar o Bolsonaro, mas não querem reeducar o Guedes".

Após as justificativas, Lula defendeu que o PT tome "muito cuidado" diante das iniciativas. "Para a gente não pegar o primeiro ônibus que está passando. É preciso que a gente analise todos esses manifestos e que conversemos com os organizadores para saber o que eles querem."​

O ex-prefeito Fernando Haddad, que disputou a eleição de 2018 pelo PT e foi derrotado por Bolsonaro no segundo turno, assinou o Estamos Juntos.

Na opinião de Lula, "há um interesse muito grande da elite brasileira em voltar a governar o país sem o PT".

"As pessoas acabaram de cometer um ato ilícito, tirando uma presidente democraticamente eleita pelo povo, e aí perceberam que o troglodita que eles elegeram não deu certo. Eles agora querem tentar tirar o troglodita para quê?", afirmou.

"Até o Fernando Henrique Cardoso, que é um dos que ajudaram a derrubar a Dilma, porque se acovardou, [assinou]", continuou o petista, citando o tucano, que aderiu ao Estamos Juntos. "Eu não posso aceitar com muita facilidade aquilo que as pessoas que ajudaram a destruir o país estão querendo fazer", disse.

Lula falou aos colegas de legenda que o PT deve "agradecer a todos os brasileiros e brasileiras de todos os pensamentos ideológicos que foram para a rua protestar contra o Bolsonaro", mas não pode abrir mão de propagar suas ideias e reafirmar a defesa dos trabalhadores.

"O PT não é uma coisa qualquer que pode ser menosprezada. Eu vejo uma tentativa muito grande de isolar o PT, de fazer com que o PT desapareça do cenário político", insistiu.

"Eu acho que todos esses manifestos têm uma importância para a sociedade e para a democracia, mas é preciso que o PT defina qual é o manifesto que interessa para o PT, qual é a linguagem que interessa para o PT", discursou.

O ex-presidente disse ainda que o partido precisa ter clareza de qual discurso apresentar à sociedade e que não pode "se deixar levar outra vez pela elite brasileira".

"Eu só quero dizer para o PT o seguinte: o PT não tem idade para outra vez entrar enganado numa disputa. Nós sabemos por que queremos o impeachment do Bolsonaro: porque nós queremos que este país seja governado para os interesses dos trabalhadores brasileiros", afirmou.

A onda de mobilizações contra o autoritarismo e as ameaças ao Estado democrático de Direito tomou as redes sociais e as páginas de jornal nos últimos dias. No Estamos Juntos, por exemplo, a lista de signatários vai de apoiadores do socialismo a defensores do Estado mínimo.

De 2018 para cá, também estão atuantes organizações independentes como o Direitos Já! Fórum pela Democracia, a Comissão Arns de Direitos Humanos e a plataforma Pacto pela Democracia, todas com integrantes de diferentes origens e pensamentos.

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