Descrição de chapéu O que foi a Ditadura

Resistência na ditadura militar era substantivo no plural e marcada pela solidariedade

Negros, indígenas e LGBTs assistiram ao agravamento do preconceito e da violência nos anos de chumbo

São Paulo

Além da escrita, um período histórico aproxima as trajetórias dos autores Ailton Krenak, João Silvério Trevisan e Oswaldo de Camargo. De 1964 a 1985, os três viveram os anos de chumbo como ativistas dos direitos indígenas, LGBTs e das populações negras.

Passadas mais de três décadas desde a redemocratização, afirmam que o aprendizado que fica é o da resistência. A realidade, ainda longe de patamares ideais de igualdade e respeito, é marcada por um alto nível de consciência política adquirido por esses grupos.

“Enquanto os vocacionados à ditadura têm como projeto destruir, o nosso projeto é criar”, sintetiza Trevisan, 76, autor de “Devassos no Paraíso”​ (Companhia das Letras, 2018), durante o debate de encerramento do festival virtual “Na Janela: O que Foi a Ditadura”, promovido pela Companhia das Letras em parceria com a Folha.

Apesar de não terem suas histórias cruzadas ainda no período militar, os três escritores assistiram durante a ditadura ao agravamento de estigmas e violências já enraizados no Brasil.

Oswaldo de Camargo, 84, era revisor do jornal Estado de S. Paulo quando se consumou o golpe. O emprego veio após ter que abandonar os estudos para ser padre devido à cor da pele.

Único negro entre 35 alunos do seminário menor, descobriu que o seminário maior — a última etapa da formação para o sacerdócio — não aceitava não-brancos. Como justificativa, chegou a ouvir que “negro é muito violento e sensual”.

“Por conta disso, tive depressão e só sai dela graças a duas coisas: a minha confiança em Deus e a literatura. Escrevia de dois a três sonetos por dia”, lembra Camargo, que em breve terá três obras reeditadas pela Cia das Letras.

O episódio não o fez abandonar a fé e a religião. Logo envolveu-se com frades dominicanos e começou a frequentar a Comunidade de Jovens Cristãos. Também aproximou-se da Associação Cultural do Negro, embrião do Movimento Negro Unificado.

O escritor Oswaldo de Camargo aos 84 anos. 10.07.2020 - Arquivo Pessoal

Os grupos foram responsáveis por construir em Camargo a consciência do que significava aquele período. “Pela minha formação religiosa católica, eu tinha tudo para, em 1964, me postar junto dos que estavam tentando ‘salvar o Brasil da peste comunista’”, recorda.

Ao contrário, ao lado de jovens estudantes e intelectuais afrobrasileiros, contribuiu com a resistência pacífica ao regime militar por meio da literatura.

“Nós, negros, fomos criados sobre o tacão do receio, da timidez. A grande marca dessa época [ditadura militar] para mim foi a palavra medo”, descreve Camargo, que escondeu todos os seus livros por receio de ser preso.

Medo também aparece na descrição de Ailton Krenak, 67, ativista do movimento socioambiental e de defesa dos direitos indígenas. “A gente não recebeu ameaça, a gente recebeu pancada”, descreve sobre a relação dos militares com os indígenas.

Sua etnia, a Krenak, viu de perto a violência do regime. Em 1969, teve seu território, em Resplendor (MG), invadido pelo Reformatório Indígena Krenak, um centro de tortura criado pelos militares para aprisionar indígenas em 1969. Ao menos 121 presos de 23 etnias foram levados para o local até 1972.

“Queriam que fôssemos domesticados. Como não éramos, davam porrada na gente. Nossos parentes indígenas que sofriam perseguição no país eram presos e trazidos para serem despejados aqui”, descreve. “Viramos um território de despejo para índios que desobedeciam a orientação militarizada.”

Retrato de Ailton Krenak em Paraty (RJ). 12.07.2019 - Mathilde Missioneiro/Folhapress

Pelas estimativas do relatório da Comissão Nacional da Verdade, 8.350 índios foram assassinados durante a ditadura militar, mas o levantamento reconhece que o número real deve ser exponencialmente maior.

Em 2019, Krenak publicou, também pela Cia das Letras, a obra “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”. Com a chegada da pandemia, o título virou trocadilho de alguns leitores, que sugerem que o autor previu o que aconteceria. Ele diz que não.

“Eu não fiz profecia, falei o óbvio. Nós estamos ferrando o planeta. O título era um anúncio desse lugar que nós estamos chegando tão rapidamente”, explica.

João Silvério Trevisan afirma que o que une suas trajetórias é uma questão de solidariedade entre aqueles que “estão à margem”. “São histórias que compõem um Brasil absolutamente desconhecido e fascinante, porque nos dão ideia de uma realidade nacional que nos era proibida de conhecer.”​

Em 1978, ele fundou o Somos, primeiro grupo de afirmação homossexual do Brasil, e o Lampião da Esquina, primeiro jornal gay. “Eu estava, antes de mais nada, abrindo um espaço de sobrevivência pessoal”, descreve o escritor.

João Silvério Trevisan em Pinheiros (SP). 29.02.2016 - Felipe Gabriel/Projetor/Folhapress

Sobre os dias de hoje, diz que “temos diferenças e semelhanças muito grandes com a ditadura”. Com diferentes características e níveis, acredita que o Brasil experimenta atualmente uma sociedade autoritária.

“A primeira coisa que um projeto ditatorial busca fazer é, através do medo, desativar a esperança e ativar a melancolia, a depressão. É um caminho para que as pessoas abram mão de resistir.”

A saída, afirmam os debatedores, é manter a esperança e a consciência vivas. “Cultivar a esperança é ficar vivo todo dia com a possibilidade de o céu cair na sua cabeça”, brinca Ailton Krenak.

O debate “As Várias Faces da Resistência” teve mediação do jornalista Ricardo Kotscho e está disponível na íntegra no YouTube da Companhia das Letras, assim como os seis debates que o antecederam no festival “Na Janela: O que Foi a Ditadura”.

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