Descrição de chapéu Seminário Coração Fraco

País ainda falha ao prevenir insuficiência cardíaca, dizem médicos

Em evento, especialistas defendem mais recursos para evitar internações

Everton Lopes Batista
São Paulo

Investimentos em ações de prevenção da insuficiência cardíaca e um reforço na rede básica de saúde para receber adequadamente os pacientes são os principais caminhos apontados por especialistas para reduzir a taxa de mortalidade associada à doença no país.

A insuficiência cardíaca, doença crônica que prejudica o bombeamento do sangue pelo coração, consome aproximadamente R$ 22 bilhões por ano, segundo Manoel Canesin, presidente da Rede Brasileira de Insuficiência Cardíaca (Rebric). Cerca de 70% desse gasto é feito dentro dos hospitais, com internações de pacientes mais graves.

“A maior parte dos recursos é usada quando o paciente já está em estado gravíssimo. Nesse momento, é muito tarde para investir o dinheiro”, afirmou Canesin durante o seminário Coração Fraco, realizado pela Folha na segunda-feira (25), no auditório do jornal.

Mais de 10% da população idosa no país e entre 1% e 2% da população total sofre com o mal. Atualmente, é a causa mais frequente de internação dos mais velhos. 

Para Canesin, existe dinheiro para investir no combate à doença, mas falta gestão para diminuir internações e evitar casos mais graves. “O investimento deve ser feito fora do hospital também”, afirmou.
Investir na prevenção tem custo-benefício maior do que deixar o quadro evoluir para uma internação ou transplante, disse Fernando Bacal, diretor da Unidade Clínica de Transplante Cardíaco do Instituto do Coração (InCor), do Hospital das Clínicas da USP. 

Ainda assim, segundo ele, o Brasil não faz tantos transplantes quanto deveria. “Em 2018, fizemos 400 transplantes, mas teríamos de fazer 1.200. Os pacientes não chegam porque não são encaminhados ou morrem ao esperar”, afirmou Bacal.

“Cada vez se gasta mais com o tratamento, mas precisamos falar de prevenção e promoção da saúde”, completou Marlene Oliveira, fundadora e presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida, organização que reúne pacientes oncológicos e cardíacos.

Sedentarismo, tabagismo e alcoolismo estão entre os principais motivos que levam a problemas nos cardíacos, que podem resultar na insuficiência. Na avaliação dos especialistas que participaram do seminário, o país ainda falha ao fazer a prevenção.

Segundo João Manoel de Almeida Pedroso, diretor do Instituto Nacional de Cardiologia (INC), instituição que é referência do Ministério da Saúde para tratamentos na área, em torno de 46% da população brasileira é sedentária.

Pacientes com hipertensão, ainda que pequena, têm o dobro de chance de desenvolver  insuficiência cardíaca, disse Pedroso.

“Hoje, controlamos cerca de 25% dos casos de pressão alta no país, quando poderíamos atingir até 80% dessas ocorrências”, disse.

O investimento na informação é uma das apostas do INC. Segundo o diretor do instituto, será desenvolvido neste ano um projeto de treinamento de equipes de saúde da família em parceria com a Dinamarca para o acompanhamento de pacientes e a prevenção dos fatores de risco junto à população. 
O INC desenvolve também manual para que profissionais da saúde ensinem os pacientes a fazer atividade física sem precisar de academia. 

Médicos e enfermeiros também carecem de conhecimento sobre a doença, concordaram os especialistas.
Por ser um quadro complexo, com causas diversas, a insuficiência cardíaca tem um diagnóstico difícil, de acordo com Pedroso, do INC. Sintomas associados à doença, como cansaço frequente, dificuldade para respirar e inchaço nas pernas, podem não aparecer em alguns casos. Isso faz com que, muitas vezes, a piora da saúde seja silenciosa.

A capacitação nas unidades básicas de saúde, conhecidas como UBS, para o reconhecimento e manejo adequado do paciente pode fortalecer a ponta da prevenção e colaborar para o acesso a um tratamento melhor.

De acordo com Canesin, da Rebric, a maior parte dos casos pode ter o tratamento iniciado na unidade básica de saúde, o que não acontece hoje por falta de capacitação.

“Com um diagnostico assertivo, o paciente ganha qualidade de vida”, afirmou Marlene. 

O evento, que teve o patrocínio da Novartis e o apoio da Rebric e do Instituto Lado a Lado Pela Vida, contou com a mediação da repórter especial da Folha Cláudia Collucci.

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