Descrição de chapéu 4º Fórum Inovação Educativa

Tecnologia é desafio e grande oportunidade para professores

Debatedores apontam vantagens nas inovações, mas alertam para a dificuldade de concentração dos jovens

São Paulo

​O uso de tecnologia em sala de aula costuma dividir opiniões. De um lado, há histórias bem-sucedidas de escolas que adotaram computadores, celulares e tablets no cotidiano dos alunos para criar avaliações customizadas, estimular o trabalho em grupo e ensinar programação e robótica.

De outro, um sem-número de queixas de professores em relação à dispersão de atenção dos alunos relacionada ao uso de smartphones.

Ambas as versões coexistiram nas mesas de discussão do 4º Seminário Inovação Educativa, realizado na quarta-feira (13) no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo. O evento foi organizado pela Folha e contou com patrocínio da Fundação Telefônica Vivo.

 
Everton Lopes (esq.), jornalista da Folha, Marcelo Veras, presidente do IBFE (Instituto Brasileiro de Formação de Educadores), da Unità Faculdade, em Campinas/SP, Julia Pinheiro Andrade, pesquisadora do Centro de Referências em Educação Integral, e Débora Sebriam, coordenadora de projetos no Instituto Educadigital
Everton Lopes (esq.), jornalista da Folha, Marcelo Veras, presidente do IBFE (Instituto Brasileiro de Formação de Educadores), da Unità Faculdade, em Campinas/SP, Julia Pinheiro Andrade, pesquisadora do Centro de Referências em Educação Integral, e Débora Sebriam, coordenadora de projetos no Instituto Educadigital - Reinaldo Canato/Folhapress

A tônica comum foi que a tecnologia é bem-vinda na sala de aula, mas não basta por si só. Para ser eficaz, ela deve ser usada como um meio --e não um adereço-- para o conteúdo da disciplina.

"Falar de educação sem tecnologia é como falar de futebol sem bola", diz Marcelo Veras, presidente do Instituto Brasileiro de Formação de Educadores. "A discussão não é se devemos trazer celular à sala de aula, é como fazer isso."

Para ele, a principal colaboração da tecnologia é a possibilidade de customizar o ensino. "Antes, a gente não conseguia reunir no mesmo espaço físico alunos aprendendo em ritmos diferentes. Com tecnologia, dá. Isso é lindo, maravilhoso", afirmou. "O educador precisa entrar nessa dança e parar de achar que vai perder por causa da tecnologia."

Veras acredita que a tecnologia possibilitará uma valorização inédita do trabalho do docente. Isso teria a ver com uma volta às origens do papel do professor, o educador voltaria a ser um condutor do processo de aprendizado e deixaria gradualmente de atuar como transmissor de conhecimento.

Para ele, isso está em vias de acontecer "por bem ou por mal". "O que nos trouxe até aqui não nos levará ao futuro. O mundo mudou, o aluno mudou."

Julia Pinheiro Andrade, pesquisadora do Centro de Referências em Educação Integral, é outra adepta do uso do celular na sala de aula. Ela acredita que a tecnologia potencializa imensamente a comunicação e a colaboração na escola e que o "letramento tecnológico" é um exercício de cidadania tão importante quanto o ensino de linguagem ou aritmética no mundo atual.

"A gente precisa entender como os algoritmos são feitos e utilizados para não sermos vítimas de seu uso."
Débora Sebriam, coordenadora de projetos do Instituto Educadigital, ressaltou que não é preciso ter aparelhos de última geração para propor abordagens inovadoras na sala de aula.

"Trabalhei em escolas de periferia e todos os alunos tinham celular. A gente conseguia fazer as coisas acontecer com o pouco que tínhamos", conta. "Com criatividade, dá para progredir juntos."

Para Ramon Cosenza, médico e professor aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais, dispositivos como celulares, relógios inteligentes e tablets pesam na dispersão da atenção das crianças.
"A sociedade moderna é cada vez mais uma sociedade de distraídos. A tecnologia está destreinando nossa atenção, e seria valioso ensinar o aluno a manter mais atenção por mais tempo", afirma.

Fernando Louzada, doutor em psicologia, dá um conselho aos professores: "Se há algo importante a ser dito, diga nos primeiros cinco minutos de aula e mostre por que aquele assunto é essencial para mobilizar a atenção do aluno. Depois de 15 minutos, já era".

Cosenza chamou a atenção para as mudanças no desenvolvimento infantil. "Antes, as crianças interagiam com os pais e outras crianças e, pouco a pouco, iam recebendo as habilidades necessárias e os valores da sociedade. Isso mudou radicalmente nos últimos anos. A interação é cada vez maior com aparelhos eletrônicos e grupos virtuais. É preciso fazer um esforço para desenvolver habilidades interpessoais, essas conexões que permitem que os jovens se tornem adultos autônomos. Essas habilidades são aprendidas na interação", afirma.

Aluno aprende mais pelo método ativo, mas não percebe

Um estudo da Universidade Harvard publicado em setembro mostrou que os estudantes aprendem mais a partir das metodologias ativas, ainda que tenham a impressão de terem aprendido menos.

No experimento, alunos de física assistiram a uma mesma disciplina por 11 semanas. Depois, foram divididos em dois grupos: um deles teve aulas expositivas durante mais quatro semanas, enquanto o outro passou ao método de aprendizado ativo.

Nesse formato de aula, eles foram instruídos a se dividirem em equipes para resolver problemas relacionados à disciplina. Os professores acompanharam as discussões, tiraram dúvidas e fizeram uma exposição rápida sobre as dificuldades enfrentadas na atividade.

No final, os estudantes foram avaliados. Os que passaram pelo método ativo se saíram melhor na prova, mas acreditaram ter aprendido pouco e afirmaram, em sua maioria, que a aula expositiva seria um método melhor.

Já os alunos que passaram pelo método tradicional tiveram notas piores, mas disseram ter aprendido mais.

"Há uma diferença entre percepção e realidade, em que se ainda valoriza muito o método expositivo", diz Julia Pinheiro Andrade. 

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