Juíza Barbara Mack explica iniciativa 100% digital para combater exploração sexual nos EUA

Força-tarefa que usou big data e inteligência artificial zerou prisões de menores por prostituição

São Paulo

A partir de uma estratégia totalmente digital, que se valeu de big data e inteligência artificial, uma força-tarefa no condado de King (noroeste dos EUA) alcançou 428 vítimas de exploração sexual ao longo de quatro anos, de 2015 a 2019.

Destas, 95 aceitaram ajuda, o que tornou o método 433% mais eficaz do que o anterior, que envolvia a abordagemnas ruas. A responsável por convocar essa força-tarefa foi a juíza Barbara Mack.

Barbara Mack sorri em foto em estúdio com fundo branco
Barbara Mack, juíza aposentada do condado de King, no estado de Washington (EUA); ela convocou uma força-tarefa de combate à exploração infantil na região - Arquivo pessoal

Nomeada para o juizado de menores em 2012, ela se incomodou com a falta de serviços específicos para crianças e adolescentes explorados e se uniu a uma iniciativa estadual para enfrentar o problema. A operação zerou as prisões de crianças e adolescentes por prostituição e aumentou em mais de dez vezes as punições aos clientes de sexo com menores.

Hoje aposentada, Mack atua como secretária do conselho nacional de juízes da família dos EUA e é uma das fundadoras da Environmental Law & Policy Center, ONG focada em proteção ambiental. Em entrevista à Folha, Mack explica o sucesso da iniciativa e defende que entender o trauma é prioritário para combater a exploração sexual infantil.

Por que a força-tarefa comandada pela senhora deu certo? Uma das coisas que nos diferencia é que decidimos incluir qualquer um que pudesse ter tido contato com as crianças exploradas —não só o sistema judicial. Reunimos gente de educação, da saúde pública, dos centro de trauma, promotores, policiais, advogados de defesa e ONGs. O objetivo de todo mundo era o mesmo, mas havia uma tensão entre, por exemplo, os agentes da lei—que queriam punir os exploradores— e os assistentes sociais, que queriam proteger as crianças e não queriam que elas fossem obrigadas a depor. Tivemos de aprender a trabalhar juntos para chegar lá.

O gabinete do nosso promotor decidiu que o único jeito de realmente por as mãos no problema era o mercado: você pode prender um cafetão, mas logo vem outro para substituí-lo. É economia básica: o mercado regula a demanda.

Quais práticas foram mais eficazes para atingir o mercado? Há uma organização chamada Seattle Against Slavery (Seattle Contra a Escravidão), que é muito adepta da tecnologia e que faz parte da força-tarefa. O então diretor-executivo desenvolveu parcerias com a Microsoft e com o Google. Eles colocavam anúncios nas buscas que diziam coisas como ‘A prostituição envolve agressão e estupro. Você quer mesmo comprar esse serviço?’.

Também tinha um anúncio para vítimas perguntando ‘Você quer ajuda?’, com referências para serviços de assistência. Ficamos surpresos com quantas pessoas clicaram na página de ajuda.

Eles também desenvolveram chatbots [robôs de conversa] em parceria com sobreviventes. Quando os homens buscavam sexo com menores na internet, eles recebiam uma resposta do robô. Tinha todo tipo de resposta e, dependendo da busca, o robô poderia se apresentar como um adolescente ou um adulto. Algumas mensagens ofereciam ajuda, outras eram de dissuasão. Eles foram bastante criativos e inovadores.

Então foi uma estratégia inteiramente digital. Totalmente. Fizeram estudos na sequência que indicaram que os anúncios tinham reduzido as buscas por sexo com menores na internet: houve uma diminuição de 31% em buscas repetidas. Quando o número de uma criança ou mulher aparecia se oferecendo na internet, os sobreviventes mandavam uma mensagem: ‘Oi, sou fulano. Peguei seu número na internet. Estive na vida por oito anos e agora trabalho em uma organização que ajuda quem está na vida. Se quiser ajuda ou precisar de alguém para conversar, estou por aqui’.

A parte mais interessante disso é que essa organização fez trabalho social nas ruas de 2011 a 2015, quase 1.600 horas de buscas com a equipe e voluntários. Conseguiram contato com 624 pessoas desse jeito e 26 de fato quiseram assistência. No esquema digital, de 428 pessoas, 95 aceitaram ajuda. Eles descobriram que uma vítima de exploração sexual —é uma estatística enorme— tem 433% a mais de chance de pedir ajuda a partir de uma conversa inicial, se isso for feito por mensagem de texto.

É um método que não julga e protege a vítima. Exato. E eles não precisam se preocupar com um cafetão vendo o que estão fazendo, com quem estão falando. Podem fazer isso de forma privada, nas horas vagas, isso os dá mais controle. Tinha gente que não respondia às mensagens por seis ou oito meses e depois, do nada, pedia ajuda.

Quais as principais causas por trás da exploração nos EUA? Qual é a cara desse crime no país? É uma mistura. Dá para dizer que uma porcentagem significativa das crianças exploradas não são brancas, que vêm de circunstâncias econômicas estressantes, da pobreza. Sabemos que vêm de lares com dependência química, violência doméstica, todo tipo de abuso. Estamos começando a acreditar que muito da exploração é feita pela própria família, com o crescimento da epidemia de opioides. Suspeito que mais gente está explorando os filhos para comprar drogas.

A internet mudou o mundo da exploração. Qualquer criança é passível de sofrer aliciamento online. Conheço um juiz cuja filha foi aliciada em uma rede social durante seis meses. E eles são o que você chamaria de família normal. Ela saiu de casa quando tinha 16 anos. Obviamente não sabia com o quê estava lidando. Foi explorada durante nove semanas, os pais não sabiam onde estava. Voltou com todos os dedos marcados a fogo.

Sabemos que os predadores estão aliciando as crianças em sites de games. Não sabemos a dimensão, mas isso faz o escopo dos criminosos muito maior do que era há 20 anos.

Quem é o cliente médio da exploração infantil nos EUA? São homens bem pagos, da indústria da tecnologia, gente do mundo dos negócios, pastores, dentistas, estão em todos os lugares. Um detalhe que sempre tento reforçar é que [o cliente] é o seu vizinho, você apenas não sabe disso. Uma das coisas que tenho feito é treinar escritórios de advocacia, porque são clientes deles que empregam os exploradores. As empresas precisam ter uma política interna que diga ‘Isso não é aceitável. É ruim para a empresa se isso vier a público e se os funcionários usarem celulares e computadores corporativos para buscar por sexo na internet’. No país, 61% dos homens que buscam por sexo têm ensino superior completo.

A senhora defende que as crianças e adolescentes sejam mantidos fora do sistema criminal, que chamou de “ambiente opressor”. Por quê? Porque não é um ambiente terapêutico, não ajuda os jovens que foram traumatizados. Muitos juízes pensam que, se puserem um jovem em um centro de detenção, ele estará seguro. Mas, emocionalmente, a maioria das crianças se sente menos segura lá do que em qualquer outro lugar.

Claro que nenhuma alternativa a isso funciona a menos que você tenha serviços apropriados para as crianças vítimas de exploração. É uma experiência absurdamente traumática. Sabemos que uma porcentagem muito alta das crianças exploradas —entre 70% e 90% delas— foram abusadas antes de serem exploradas comercialmente.

Por isso, acho tão importante que todos entendam como o trauma funciona. Precisamos descobrir como prevenir o trauma nas famílias para impedir que esse ciclo se repita.

De que forma os juízes podem entender o trauma? O National Center on Sexual Exploitation [ONG que atua contra a exploração sexual] tem pelo menos dois treinamentos por ano sobre exploração sexual para juízes e oficiais de Justiça. São dois dias e meio de treinamento intenso sobre as dinâmicas e o cenário da exploração sexual, trauma e como os tribunais podem responder a isso.

Quando você começa a entender a dinâmica, ganha uma noção de como fazer perguntas de um jeito que não constranja as crianças ou os pais, mas que te ajude a entender o que aconteceu.

Os juízes precisam entender o trauma de todo tipo. Isso é muito importante no caso da exploração sexual infantil, porque você tem a chance de mudar a trajetória da vida de uma criança se detectar o abuso em um estágio inicial, não importa de qual tipo.


Barbara Mack
Magistrada aposentada, comandou o juizado de menores do condado de King, no noroeste dos EUA; se uniu a uma iniciativa estadual e conduziu uma operação com estratégia totalmente digital, entre 2014 e 2019, que zerou a prisão de crianças e adolescentes por prostituição

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