Faculdades abrem caminho para o que não se aprende na escola

Desenvolvimento de competências socioemocionais passa ser levado em conta

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Luciana Alvarez
Lisboa

Saber ouvir e se expressar bem, organizar o próprio tempo, superar os erros, adaptar-se rapidamente a situações imprevistas e conseguir motivar a equipe são características valorizadas pelas empresas há muitos anos, nas mais diversas áreas.

Embora não sejam exatamente uma novidade, cada vez mais o mundo do trabalho valoriza essas competências, chamadas de socioemocionais ou soft skills.

"A pandemia acelerou o processo de valorização das habilidades comportamentais. Portanto, o desenvolvimento dessas competências é uma ótima maneira de se diferenciar em um meio tão competitivo", afirma Fernando Mantovani, diretor-geral da empresa de recrutamentos Robert Half.

O analista de negócios Phelipe Pedrosa Mendes, 23, foi efetivado em 2020 em um banco, após seis meses como estagiário. Ele está certo de que suas habilidades de comunicação e flexibilidade fizeram a diferença. "Em todos os feedbacks, sempre fui elogiado pela capacidade de me relacionar com todas as equipes."

Mendes desenvolve projetos com empresas parceiras, então tem de se adaptar a culturas corporativas diferentes.

Homem sentado, olhando para a frente, com árvore ao fundo
Ex-estagiário, Phelipe Pedrosa Mendes, 23, foi promovido a analista de negócios em banco de SP - Jardiel Carvalho/Folhapress

Embora sejam características comportamentais, Mendes acredita que a faculdade o ajudou bastante.

"Projetos práticos preparam para o mundo real. Ter feito um plano de marketing para uma empresa na faculdade, sob orientação de um professor, mostrou como é importante o jeito de abordar certas questões", conta ele, que estudou marketing no Mackenzie.

"Procuramos propor desafios que juntem a realidade com o conhecimento teórico. Dessa forma, o envolvimento, o entusiasmo e a energia do aluno também são maiores", diz Miriam Rodrigues, docente de comportamento organizacional na universidade.

Diversas instituições de ensino vêm apostando em metodologias que aproximem os estudantes da prática, que vão da discussão de casos reais até a realização de trabalhos de campo e projetos sob orientação dos professores.

A ESPM de São Paulo montou uma trilha chamada Life Lab, em que estudantes de todos os cursos se misturam para realizar propostas multidisciplinares.

"Os alunos tendem a se relacionar com as pessoas dos próprios cursos. Nossa ideia é misturar todo mundo, porque a pessoa de tecnologia vai trabalhar com a de comunicação", afirma Adriana Gomes, professora da instituição. "Quem está no mercado sabe da importância de encontrar soluções para problemas complexos, que envolvem diversas áreas", diz Gomes.

Depois de um projeto-piloto em 2019, as disciplinas do Life Lab da ESPM entraram no currículo de todos os cursos da instituição. São oferecidas 10 disciplinas e cada aluno precisa cursar 6 delas.

No curso de direito da FGV (Fundação Getulio Vargas) do Rio de Janeiro, uma organização curricular incomum busca pôr o estudante em atividades práticas, com oferta de alto grau de autonomia.

"Metade da carga horária é de eletivas. Nenhum estudante vai passar cinco anos seguindo o fluxo. Ele tem que pensar o que quer —e se responsabilizar. Como foi ele que escolheu, já entra em sala de aula diferente. No final, chega ao mercado de trabalho mais maduro, porque refletiu sobre a carreira", afirma Thiago Bottino, coordenador acadêmico da graduação.

Além da autonomia para escolher disciplinas e montar um currículo particular, os alunos fazem trabalhos de campo, que os põem em contato com problemas concretos. Podem escrever projetos de lei, participar de audiências públicas e elaborar cartilhas sobre temas diversos.

"A gente promoveu essas mudanças porque sentiu que não é a técnica que faz um profissional de sucesso. São as habilidades de liderança, de trabalho em equipe, de saber negociar", afirma Bottino.

Contudo, Marco Tulio Zanini, pesquisador nas áreas de liderança e gestão estratégica de pessoas na FGV, alerta que nenhuma instituição de ensino tem o poder de formar profissionais com soft skills. "São qualidades humanas que nenhuma escola cria. A gente dá um contexto para que as pessoas se apropriem. Quem tem o poder de desenvolver essas competências é o indivíduo", afirma.

Dessa forma, para mostrar que possui certas competências socioemocionais, é necessário incluí-las no currículo e nos perfis profissionais. "Essas competências podem ser reconhecidas por recomendação de pessoas com quem a pessoa já trabalhou, como líderes e supervisores. E é altamente recomendável que os candidatos ponham uma breve autodescrição dessas competências em seus currículos", aconselha Zanini.

Miriam Rodrigues lembra que as entrevistas e dinâmicas de grupo de seleção costumam avaliar as soft skills dos candidatos, mas acredita que elas também podem ser incluídas no currículo. "Quando a gente lista nossas realizações no currículo, pode incluir qual competência foi desenvolvida em cada experiência."

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