Agricultura regenerativa é o novo mantra de empresas globais

Para cumprir objetivos contra aquecimento, gigantes do setor alimentício fazem revisão nas cadeias de fornecedores

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Andrea Vialli
São Paulo

Multinacionais do setor de alimentos se comprometem a zerar suas emissões de gases de efeito estufa a partir de 2030, no esforço de evitar que a temperatura da Terra suba além de 2ºC —maior alvo do Acordo de Paris.

Os compromissos foram assumidos pelos governos dos países signatários, mas o setor privado, pressionado por consumidores e investidores, entrou na corrida também.

Além de melhorias nas fábricas e nos processos de distribuição, o foco é a cadeia de fornecedores. Hoje, a palavra de ordem de gigantes como Nestlé, Unilever e Coca-Cola é promover, entre produtores de insumos agrícolas, práticas regenerativas e de conservação de solo, água e biodiversidade, conforme o conceito de agricultura de baixo carbono.

Fornecedora da Nespresso (marca de café em cápsula da Nestlé) e da rede Starbucks, a Guima Café, que tem duas fazendas no noroeste mineiro, vem adotando o conceito.

Fazenda Guima Café, em Varjão de Minas (MG), que pratica agricultura regenerativa e fornece para a Nestlé
Fazenda Guima Café, em Varjão de Minas (MG), que pratica agricultura regenerativa e fornece para a Nestlé - Arquivo pessoal

O conjunto de ações começa pela escolha genética do café a ser cultivado, com variantes mais resistentes, para reduzir o uso de pesticidas, e segue com técnicas de preparo e recuperação do solo.

“Viramos a chave para produzir cafés especiais com foco em sustentabilidade, o que nos levou a rever práticas agrícolas. Partimos para essa abordagem regenerativa”, diz Lucimar Silva, gestora da Guima, que soma 850 hectares de plantio de café e produz 40 mil sacas por ano.

A fazenda toca com a Nestlé um projeto que incluiu o plantio de 1.600 abacateiros em meio aos cafezais, para sombrear a lavoura, ajudar na reciclagem de nutrientes e sequestrar carbono da atmosfera. Dados de umidade e temperatura do solo são monitorados em pesquisa com a consultoria ReNature, contratada da Nestlé. A ideia é compartilhar o conhecimento gerado com outros produtores.

Esse piloto é parte de um plano da Nestlé que prevê investimentos de US$ 3,6 bilhões nos próximos cinco anos em ações contra mudanças climáticas. A empresa é uma das que assinaram com a ONU o compromisso “Ambição de Negócios para 1,5ºC”, contribuição ao Acordo de Paris.

A meta da multinacional suíça é reduzir à metade suas emissões até 2030 e alcançar emissões líquidas zero até 2050. O plano prevê engajar 500 mil agricultores no mundo em práticas que melhoram o solo e restauram ecossistemas; comprar 14 milhões de toneladas de ingredientes originários da agricultura regenerativa; fazer a transição para energia 100% renovável e plantar 20 milhões de árvores nos próximos dez anos.

A Unilever, que além de alimentos atua também nos segmentos de cuidados com a casa, cuidados pessoais e beleza, segue caminho semelhante, com metas globais e locais para redução das emissões e incentivo às práticas agrícolas de baixo carbono.

Em abril, a empresa lançou um conjunto de princípios sobre agricultura regenerativa para impulsionar o engajamento de produtores rurais do mundo todo em boas práticas de produção de matérias-primas, em especial de óleo de palma, celulose, chá, soja e cacau. A pretensão é chegar a uma cadeia de suprimentos livre de desmatamento até 2023, com base em ferramentas de rastreabilidade de fornecedores, como geolocalização e blockchain.

A Unilever também amplia o leque de produtos orgânicos, para atender a demanda de consumidores vegetarianos, veganos ou que buscam itens mais saudáveis.

“As marcas estão envolvidas em uma estratégia para reduzir o impacto ambiental da cadeia alimentar global”, diz João Francisco Ribeiro, vice-presidente de cadeia de suprimentos da Unilever. Os programas para fomentar práticas sustentáveis entre fornecedores serão custeados por um fundo de € 1 bilhão voltado a clima e natureza.

Na Coca-Cola, as metas de carbono são reduzir as emissões em 25% até 2030. “Por mais que cresçamos em vendas ou volume, emitiremos menos 25% de carbono em 2030 do que em 2015. É a cota que precisamos reduzir como empresa, para ajudar a manter a mudança climática abaixo do limite de 2ºC”, diz Rodrigo Brito, gerente de sustentabilidade da Coca-Cola Brasil.

Para isso, a empresa atuará em cinco frentes na cadeia: ingredientes, embalagens, produção, distribuição e refrigeração nos pontos de venda.

No Brasil, adotou critérios de agricultura sustentável na compra de insumos como açúcar, leite, erva mate e guaraná –neste, uma parceria com a ONG Imaflora capacitou mais de 300 produtores do Amazonas em sistemas agroflorestais e práticas regenerativas. Outro compromisso é dar destinação correta a 100% das embalagens colocadas no mercado até 2030.

Fazenda Guima Café, em Varjão de Minas (MG), que pratica agricultura regenerativa e fornece para a Nestlé
Fazenda Guima Café, em Varjão de Minas (MG), que pratica agricultura regenerativa e fornece para a Nestlé - Arquivo pessoal

A adoção de metas climáticas por grandes companhias de alimentos é reflexo tanto da demanda dos consumidores por produtos com menor impacto social e ambiental quanto das pressões de investidores, cada vez mais conectados à agenda ESG (sigla em inglês que se refere a critérios ambientais, sociais e de governança nas decisões de investimentos).

As metas também são influenciadas pelo movimento das redes de supermercado, especialmente europeias. Pressionadas por consumidores, elas chegam a boicotar produtos que estejam vinculados a problemas sociais ou ambientais. No ano passado, a Tesco, maior rede do Reino Unido, anunciou que deixaria de comprar carne brasileira por estar vinculada ao desmate na Amazônia.

Mas, tal como ocorre com os governos, existe o risco dessas metas não serem cumpridas de fato, configurando ‘‘greenwashing” —quando a sustentabilidade fica mais no discurso que na prática.

“As empresas precisam mostrar como pretendem chegar nesses objetivos e se têm metas intermediárias. O mercado, que é míope e reducionista, acredita nas metas e só vai cobrar esses compromissos em 2049”, diz Fabio Alperowitch, fundador da Fama Investimentos, gestora brasileira de fundos com foco em ações de empresas com práticas ESG. Segundo ele, isso é mais evidente no Brasil, onde a cultura de investimentos sustentáveis ainda engatinha.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.