Aos poucos, madeira engenheirada ganha terreno na construção

Tendência no exterior, material ainda incipiente no Brasil promete alta resistência, obras rápidas e poucos resíduos

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Casa modular MiniMod, em São Luiz do Paraitinga, interior paulista

Casa modular MiniMod, em São Luiz do Paraitinga, interior paulista Leonardo Finotti/Divulgação

São Paulo

Surgida no mercado mundial há cerca de duas décadas, a madeira engenheirada desembarcou no Brasil não faz mais de cinco anos —e já promete agitar o mercado da construção civil.

Por enquanto, o custo é alto comparado aos métodos construtivos convencionais, tanto que boa parte dos projetos executados carrega assinaturas estreladas como as dos arquitetos Thiago Bernardes e Marcio Kogan. Aos poucos, porém, a matéria-prima vai ganhando mais terreno.

O escritório Mapa Arquitetura, que atua em Porto Alegre e Montevidéu, lançou o sistema de casas modulares MiniMod —unidades de madeira engenheirada com plantas entre 45 m² e 100 m², entregues prontinhas, com preço a partir de R$ 380 mil.

Duas delas, de um mesmo proprietário, já foram fincadas em uma fazenda de Catuçaba, em São Luiz do Paraitinga, interior de São Paulo.

Dentro do mesmo conceito, em junho chegam ao mercado os lofts Nomad, criados pela Cubicset Construções Modulares. Com plantas de 33 m², vão custar R$ 280 mil.

A empresa já tem um chamariz no portfólio: a casa para locação Altar Prainha, às margens da represa entre os municípios paulistas de Piracaia e Joanópolis, construída por encomenda do empresário Facundo Guerra e alugada por temporada pelo Airbnb.

Também em junho, a incorporadora Artesano lança o loteamento de alto padrão Artesano Galleria, em Campinas (SP). O empreendimento terá 230 lotes de 500 m² —todas as áreas comuns, do clube à portaria, serão de madeira engenheirada. Até o fim do ano, a empresa lança outro loteamento, nos mesmos moldes, em Alphaville.

Todos os projetos têm em comum o visual contemporâneo, que não lembra em nada os chalés de madeira das montanhas. “No Brasil, a madeira é vista como um material provisório, barato, que você usa enquanto não tem dinheiro para a construção definitiva. Isso mudou. A tecnologia da madeira engenheirada gera estruturas sólidas como o concreto”, diz o arquiteto Luciano Andrades, do Mapa Arquitetura.

Há diferentes tipos do material. Pilares e vigas são feitos de madeira lamelada colada (MLC), obtida a partir da colagem de longas lâminas de madeira no sentido das fibras, submetidas a forte pressão em prensas hidráulicas.

Já as lajes e paredes são de madeira lamelada colada cruzada, mais conhecida pela sigla em inglês CLT (Cross Laminated Timber) —as lâminas também são coladas sob pressão, mas em sentidos opostos, dando origem a grandes painéis com alta capacidade de suporte de carga.

Além de produzir os componentes, os fabricantes entregam os projetos praticamente acabados, em peças que só precisam ser montadas no terreno, como um Lego.

“O cliente recebe o produto pronto e bem acabado, com instalações elétrica e hidráulica e revestimentos. O tempo de obra, portanto, é bem menor”, afirma Calil Neto, 35, sócio-diretor da Rewood, que fabrica CLT em Taboão da Serra, Grande São Paulo.

As casas do Mapa Arquitetura construídas em Catuçaba saíram da fábrica da Crosslam, em Suzano (SP), até com o mobiliário. Coube ao cliente apenas nivelar o terreno e preparar as fundações, que não precisam ser muito parrudas, já que o material é leve —a estrutura deve ser elevada, para que a madeira fique a ao menos 30 cm do solo, sem contato direto com umidade.

O conforto térmico, segundo Andrades, é assegurado, já que a cobertura de CLT impermeabilizado ainda pode receber cobertura verde ou de argila expandida, que ajudam a manter o interior mais fresco.
Embora admita pintura, a madeira engenheirada ao natural, com nós e veios aparentes, tem sido a opção da maioria dos arquitetos.

Na opinião do presidente da Artesano, Marcelo Willer, o material merece ficar à vista por ser leve e bonito. “Os arquitetos projetaram grandes vãos que poderiam ser construídos com aço para os clubes dos condomínios. Mas a madeira não tem comparação do ponto de vista estético.”

Outro fator decisivo para a escolha da madeira engenheirada, afirma o empresário, foi a sustentabilidade.

Além de 100% produzida de eucalipto e pinus provenientes de áreas de reflorestamento certificadas, a madeira engenheirada é colada com agente adesivo livre de formaldeído. Como as peças chegam à obra prontas para ser encaixadas, quase não há produção de resíduos.

Com quatro pavimentos e 1.500 m² de área construída, a nova loja da Dengo Chocolates, inaugurada em São Paulo em novembro de 2020, foi inteiramente construída em madeira engenheirada.
Projetado pelo escritório Matheus Farah e Manoel Maia Arquitetura, o prédio foi montado em 37 dias por apenas quatro operários.

Para a arquiteta Ana Belizário, 38, gerente de projetos e novos negócios da Amata, que forneceu matéria-prima para o prédio da Dengo, a madeira engenheirada tem tudo para se popularizar no Brasil.
“Conforme o mercado vai se ampliando e entram novos fabricantes, o preço vai caindo. Será cada vez mais atraente comparada a outros sistemas que dependem de mão de obra intensiva. O concreto armado, por exemplo, é barato, mas depende de muitos operários, cujo trabalho tem encarecido ano a ano.”

A própria Amata promete abocanhar uma fatia considerável do mercado. Por enquanto, a empresa traz o material da Áustria, mas uma fábrica com capacidade para produzir 60 mil m³ anuais está em construção no Sul do país, com inauguração prevista para outubro de 2022.

“A madeira engenheirada traz conforto e natureza para a casa. É um material ancestral que volta em nova onda. Não por acaso, é tendência em vários países”, diz Belizário.

Perguntas frequentes

Por ser tão novo, o material ainda gera desconfiança, relatam fabricantes e arquitetos. Eles contam que têm sido crivados de perguntas. Veja as mais comuns:

Fica mesmo em pé?
A madeira engenheirada não se parece em nada com materiais compostos, como aglomerado, compensado ou MDF —um complexo processo industrial a torna tão resistente quanto o aço

Pega fogo fácil?
Não. No processo industrial, a madeira recebe produtos químicos sem cor nem cheiro, que retardam a carbonização por até 120 minutos

Dá manutenção?
A madeira engenheirada é resistente a fungos e cupim, com garantia de 50 anos. Exposta a sol e chuva, envelhece com maior rapidez —para evitar, basta protegê-la com pintura ou verniz, como qualquer madeira

É caro?
O metro quadrado custa cerca de 15% a mais que o da alvenaria convencional, mas a madeira engenheirada não precisa de acabamento estético, o que pode equiparar custos


Fontes: Amata, Cubicset, Mapa Arquitetura e Rewood

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.