Marcas brasileiras querem desbancar preferência por chocolate importado

Segmento dominado por pequenas e microempresas investe em cacau nativo e controle da produção

São Paulo

Chocolates finos suíços, belgas e italianos começam a ganhar uma concorrência sólida nas prateleiras de grandes redes de supermercados e empórios: a dos tabletes produzidos no Brasil.

Feito de cacau nativo, esse chocolate conta com uma produção que passa por processos de qualidade, tem preocupação socioambiental e é acompanhada em todas as etapas, da amêndoa à barra.

Chocolate ao leite com crocante de amêndoas e chocolate 63 % em barras
Chocolate ao leite com crocante de amêndoas e chocolate 63 % em barras - Nani Rodrigues/Divulgação

“É um mercado que vem crescendo muito no país. A questão é que agora estamos valorizando a produção de um cacau de qualidade, que antigamente era exportado. O processo é parecido com o qual o grão de café especial brasileiro passou”, diz Luiz Araujo, gerente acadêmico da Universidade Anhembi Morumbi.

Recém-chegada ao mercado, a Danke inaugurou uma fábrica no Pará em agosto com capacidade de produção de mil toneladas ao mês. A marca aposta em um modelo de venda baseado no varejo, sem lojas próprias. Até agora, negociou sua distribuição na Casa Santa Luzia, St Marche e Natural da Terra, em São Paulo, nas lojas do Zaffari do Rio Grande do Sul e na rede Hortifrúti, no Rio de Janeiro.

“Estamos muito otimistas para o fim do ano, com perspectiva de entrada de mais parceiros, e também para ano que vem, com projeção de faturamento de R$ 20 milhões”, diz Ernesto Neugebauer, 63, proprietário. A caixa da marca com três barras de chocolate lançada para o Natal custa R$ 49,90 (270 g).

A empresa escolheu instalar sua fábrica no Pará para manter uma relação próxima com produtores e garantir a rastreabilidade do ingrediente. Segundo Ernesto, o principal desafio do negócio é a compra de cacau de qualidade, com fruto que foi colhido maduro, teve secagem uniforme e fermentou com cuidado.

“Trabalho com 300 produtores e preciso que eles tenham excelência agrícola. Hoje, quem cultiva cacau está voltado para a grande indústria. Queremos que esse produtor seja igual ao de uva para a produção do vinho. O cacau é ainda é o primo pobre entre os produtores”, diz Ernesto.

Depois de ter vendido em 2015 a Harald, marca de chocolate que atendia à indústria, por R$ 840 milhões, o empresário decidiu retornar ao ramo com a motivação de fabricar chocolate de qualidade e em alta escala —e, assim, atingir um consumidor não especializado.

“Quando começou essa moda de chocolate belga, fiquei muito frustrado. Se tem uma coisa que não consigo engolir é gente enchendo a mala de chocolate na viagem de volta Europa quando podemos produzir um chocolate de qualidade aqui”, diz o empresário, que começou a trabalhar no segmento aos 18 anos na fábrica fundada pelo avô em 1903, a Neugebauer, em Porto Alegre (RS).

Outra preocupação da Danke é a responsabilidade social: para serem parceiros da marca, agricultores têm que provar que os filhos estão na escola e com a carteira de vacinação em dia, entre outras obrigações.

Para Luiz Araujo, da Anhembi Morumbi, essa demanda também vem de consumidores, mais sensíveis à histórias da relação entre a indústria de chocolate, trabalho infantil e destruição de florestas —a situação é tema, por exemplo, em um episódio da série documental “Rotten”, da Netflix.

A ideia de enfatizar a relação com quem cultiva o cacau também é uma das frentes da Dengo, marca de chocolates brasileiros que existe desde 2017. Em novembro, a empresa inaugurou a Fábrica de Dengo —uma estrutura de 1.500 m² e quatro pavimentos na avenida Faria Lima, em São Paulo— que tem como ideia mostrar ao visitante como o chocolate é feito.

“Temos um olhar social para promover produtores. Mas, se nosso chocolate for muito 'nichado', ele não permite impacto. Há um ponto de equilíbrio combinando a saúde, o sabor e o preço sem abrir mão dos produtores”, diz Estevan Sartoreli, 39, cofundador da marca, ex-gerente de marketing da Natura.

Para chegar a esse ponto de equilíbrio, a estratégia da empresa foi se verticalizar, assumindo etapas que, em geral, são comandadas por diferentes elos na grande indústria —como cultivo, o processamento da amêndoa, a produção e distribuição do chocolate e a venda no varejo.

Hoje, o consumidor que visita uma das 19 lojas da Dengo —a maioria em shoppings, em cidades como São Paulo, Curitiba e Brasília— tem como tíquete médio R$ 80.

“As marcas de chocolate [premium] que chegam ao Brasil não são plantadoras de cacau. Mas nós somos um país que planta e que tem um mercado consumidor relevante. Queremos dizer ao consumidor: 'Dengo é daqui com muito gosto'”, diz ele.

Além da atenção à qualidade e ao impacto social, o consumidor também começa a entender as diferenças de terroir do cacau produzido no Brasil, diz Juliana Aquino, 55, dona da marca de chocolate Baianí.

Ela integra o movimento de produtores chamado bean to bar (na tradução, da amêndoa à barra), que se destaca por um maior domínio do processo, do cultivo até a produção. Podem existir discordâncias na definição do chocolate bean to bar, mas a ideia segue alguns pilares, diz ela, que é presidente da Associação Bean to Bar Brasil.

“Um deles é a sustentabilidade. E, o outro, a técnica, que sempre parte da amêndoa integral do cacau e tem todo o processo de produção feito em um local só, sem adição de essências ou aromatizantes”, diz.

No Brasil, são cerca de 150 marcas com esse perfil. “Hoje, o consumidor do chocolate bean to bar entende que existem nuances que são geradas pelo processamento artesanal. Agora, essa conversa começa a chegar num consumidor que é menos especializado”, afirma.

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