Pandemia gera alta procura por terrenos no interior e no litoral de São Paulo

Procura por mais espaço, área verde abundante e sossego já inflaciona preço dos lotes

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São Paulo

O isolamento social forçado pela pandemia despertou no paulistano a vontade de construir do zero. Segundo levantamento do portal Imovelweb, as buscas por terrenos no litoral de São Paulo, em 2020, foram 110% maiores que do ano anterior.

No caso do interior do estado, o pico foi registrado este ano: em janeiro de 2021, a procura foi 129% maior em relação ao mesmo mês de 2020.

O casal Beatriz Rocha e Francisco Lobello em apartamento nos Jardins, trocado por propriedade em Jacareí "‚Adriano Vizoni/Folhapress
O casal Beatriz Rocha e Francisco Lobello em apartamento nos Jardins, trocado por propriedade em Jacareí - Adriano Vizoni/Folhapress

Para Angélica Quintela, 33, gerente de marketing da Imovelweb, a adoção em massa do home office pela classe média está por trás do fenômeno.

Quem passa o dia trabalhando dentro de casa, junto com a família, descobre que tem outras necessidades e, naturalmente, pensa em construir o imóvel do seu jeito.”

Essa foi a motivação que levou o casal Francisco Lobello, 37, e Beatriz Rocha, 34, a trocar o apartamento nos Jardins por uma fazenda de 40 alqueires (968 mil m²) em Jacareí, a 80 km da capital.

Produtores artesanais de queijos, eles já tinham o projeto para erguer uma fábrica em São Paulo, mas decidiram construi-la em uma região rural, onde vão criar vacas leiteiras e pássaros —hoje, a ararajuba macho Giallo e a loris australiana Lorenza vivem na varanda do apartamento.

Ao longo de seis meses, os dois visitaram 40 propriedades, espalhadas pelos municípios do Vale do Paraíba e pelas regiões no entorno de Joanópolis e Piracaia, e constataram como a alta demanda por terrenos rurais está inflacionando o mercado.

“Pagamos menos de R$ 50 mil pelo alqueire, mas vimos propriedades custando até R$ 120 mil o alqueire. Terrenos menores, com mais infraestrutura para casas de fim de semana, são os mais caros”, conta Lobello.

Era justamente essa estrutura que o casal Luiz Sene, 57, e Henrique Sampaio, 35, buscava. Moradores de um apartamento de 130 m² no Alto da Boa Vista, zona sul de São Paulo, eles acabam de assinar a escritura de um terreno de 1.500 m² dentro de um condomínio nos arredores de Itu.

Escolheram o ponto em função dos espaços de esportes e de lazer e da localização, a poucos minutos de Sorocaba e Itu e a uma hora da capital.

“Pagamos R$ 280 mil, o que foi muito barato, pois sabemos que alguns terrenos nas proximidades já passam de R$ 1 milhão”, conta Sene.Proprietário da Imobiliária Rural SP, em Itapetininga (SP), Fabio Almeida, 40, viu a clientela aumentar até 80% desde o início da pandemia.

Pedaços de terra nos municípios de Porto Feliz, Itu e Boituva, com fácil acesso pela rodovia Castello Branco, são os mais valorizados segundo ele —no caso das propriedades maiores, o preço do alqueire pulou de R$ 80 mil, em 2019, para os atuais R$ 200 mil.

“Os clientes que planejam morar na nova casa representam cerca de 60%. Os demais querem ter um imóvel de veraneio ou terras para plantar ou criar animais”, afirma.

É o caso de Gean Lucas Gras, 63, que há três meses procura uma propriedade para cultivar oliveiras e videiras como hobby. O mercado aquecido, ele conta, tem exigido muita negociação. “Vejo os corretores e proprietários perdidos. Todos jogam o preço para o alto no início, pedem absurdos, mas logo notam que a cena não é bem essa.”

Lotes bem menores, com até 400 m², também estão em alta. A plataforma 1M2, especializada nesse tipo de propriedade, registrou alta de 200% no primeiro trimestre de 2021, em relação ao mesmo período do ano anterior.

Segundo Rodrigo Gordinho, 44, diretor geral da plataforma, jovens casais com filhos, com alto poder aquisitivo e intenção de mudar definitivamente para o interior, são maioria entre a clientela.

Francisco Lobello e Beatriz Rocha, que compraram uma fazenda em Jacareí, onde vão morar, criar gado e fabricar queijos
Francisco Lobello e Beatriz Rocha, que compraram uma fazenda em Jacareí, onde vão morar, criar gado e fabricar queijos - Arquivo pessoal

Trata-se de um público disposto a pagar até R$ 200 mil reais por lotes entre 300 e 400 m². “Os mais procurados ficam a até 200 km da capital, dentro de condomínios fechados, com lazer e segurança. Itu, Bragança, Atibaia, Campinas e Vinhedo estão no topo da lista”, diz Gordinho.

Quem planeja trocar o asfalto pelo mato deve atentar para algumas particularidades desse tipo de transação.

O principal critério de valorização de um terreno, segundo Angélica Quintela, é a localização, mas em regiões rurais as características nem sempre são tão óbvias.

É preciso averiguar as alternativas de acesso, a extensão dos trechos sem asfalto e seu estado de conservação, o perfil das propriedades ao redor, a distância até o vilarejo urbano mais próximo e a infraestrutura básica disponível, como energia elétrica e telefonia.

A documentação exigida para a escritura de áreas exclusivamente rurais também requer cuidado, pois as regras são bem diferentes das que vigoram em regiões urbanas.

É comum o proprietário de uma grande fazenda decidir picotá-la em lotes pequenos para facilitar a venda, o que nem sempre é permitido por lei —cada município estabelece uma fração mínima de parcelamento de áreas rurais, o que deve ser consultado no Registro de Imóveis.

Por último, Fabio Almeida recomenda estudar bem o mapa e, se for o caso, ampliar o raio de busca. Enquanto as regiões mais disputadas sofrem com a alta de preços, outras ainda oferecem bons negócios de ocasião para quem sonha com sossego e isolamento.

“O Vale do Ribeira, mais ao sul do estado de São Paulo, por exemplo, ainda tem bons terrenos disponíveis a partir de R$ 15 mil o alqueire”, afirma Almeida.

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