Descrição de chapéu Mobile World Congress

Em meio a debate ético, UE quer assumir a frente no uso de inteligência artificial

Europa deve investir 20 bilhões de euros (R$ 85 bi) anualmente a partir de 2020

Raphael Hernandes
Barcelona

Em meio a um debate sobre o uso responsável de inteligência artificial (IA), a Europa quer assumir a frente no uso da tecnologia e no 5G, nova geração do sinal da telefonia.

Foi o que afirmou Mariya Gabriel, comissária da UE (União Europeia) para Economia e Sociedade digital, durante o MWC (Mobile World Congress), na manhã desta segunda-feira (25) em Barcelona.

Em termos financeiros, afirmou, a UE deve investir 20 bilhões de euros (R$ 85 bi) anualmente, a começar em 2020, para o desenvolvimento de IA —o grupo já vem fazendo investimentos na área.

Deixada para trás pelos EUA e pela Coreia do Sul, que lançaram versões comerciais do 5G no ano passado, a Europa precisa trabalhar na regulamentação do setor, argumenta Mariya. Além disso, a UE trabalha em um piloto para criar um corredor de conexões 5G entre os países.

“A Europa precisa acompanhar outras regiões enquanto certifica que seus cidadãos e negócios vão se beneficiar com as novas estruturas”, disse a comissária.

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Visitantes dançam em frente à câmera para gravar vídeo em 360ºC, na Mobile World Congress, em Barcelona - AFP

O 5G é visto como fundamental para um mundo altamente conectado, realidade que já bate na porta. A tecnologia é o que possibilitará a conexão entre um crescente número de dispositivos tradicionalmente offline, como carros e eletrodomésticos, na chamada internet das coisas.

Essa conectividade ajudará a impulsionar o já grande volume de dados produzidos hoje, que é o que possibilita os avanços vistos nos últimos anos em inteligência artificial.

“Coisas como as redes neurais [sistema inspirado no cérebro e usado para fazer máquinas aprenderem padrões] foram propostas 50 anos atrás, mas agora podem funcionar porque temos dados suficientes para isso”, afirmou Matei Zaharia, professor de ciência da computação na Universidade Stanford.

O debate sobre IA gira em torno do desenvolvimento responsável e ético dessa tecnologia, de modo que o tratamento de dados pessoais respeite o direito à privacidade. 

Especialistas que falaram nesta segunda no MWC vêm, nesta esfera, a necessidade de regulação por parte do governo.

Na avaliação de Ali Parsa, executivo-chefe da Babylon Health, a criação de regras ajudaria o mundo corporativo a conquistar a confiança do público. 

A Babylon Health usa IA para fazer diagnósticos e acompanhar a saúde de seus usuários, fazendo a ligação entre pacientes e médicos quando julga necessário.

Parsa diz que os dados, sensíveis, não saem da sua plataforma, mas reconheceu que não há garantias para o usuários de que, no futuro, essa informação não possa ser vendida a outros interessados. Aí que entraria uma regulação.

Enquanto algo oficial não vem, empresas tentam preencher essa lacuna criando diretrizes próprias a fim de criar o que vem sendo chamado de inteligência artificial responsável, ou seja, com preocupações éticas e que evita, ao máximo, ter um viés.

Quando se fala de IA, o enviesamento significa que os dados serão tratados inclinando para um lado. Na prática, por exemplo, seria reproduzir preconceitos da sociedade real –como racismo— em um sistema informatizado. Isso acontece porque os sistemas aprendem com dados do mundo real e, se a informação pende para um lado, o computador tende a fazer o mesmo.

“Foram publicados mais de 100 princípios para tratamento de IA por empresas diferentes”, afirmou Tabitha Goldstaub, conselheira do governo britânico para o assunto, que diz que haverá também politização no processo. “Cada país vai atacar as ponderações éticas de uma forma.”

Já há alguma movimentação por parte de autoridades no sentido de regulamentar a área. Organizações como Unesco, OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e a própria UE desenvolvem em diretrizes para uma IA responsável.

Com diferentes órgãos trabalhando simultaneamente em regras, no entanto, o que hoje é visto como uma necessidade pelas empresas poderia se tornar um problema: a criação de regulamentações distintas pouco harmoniosas entre si.

A possibilidade foi rechaçada por Ángel Gurría, secretário-geral da OECD. “Nós [Unesco, OECD e UE] conversamos. Os diferentes grupos propõem como avançar com a IA e, obviamente, faremos isso juntos.“
Segundo Gurría, a OECD trabalha para criar regras intergovernamentais para a inteligência artificial. O tema deve ser debatido em reuniões do G7, em maio, e do G20, em agosto. 

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