Descrição de chapéu Financial Times

IPOs de tecnologia decepcionam, mas era dos unicórnios está longe do fim

Lançamento de ações de empresas como Uber fica abaixo do esperado, mas interesse no setor continua

Elaine Moore
San Francisco | Financial Times

No início deste ano, parecia que as startups de tecnologia mais valiosas dos EUA —Uber, Lyft, Airbnb, Pinterest, Slack, WeWork e Palantir— estavam à beira de ofertas públicas iniciais triunfantes. Em San Francisco, onde se situam muitas dessas empresas, vários amigos meus ficaram fixados de maneira pouco saudável nos modos como uma nova geração de milionários de IPOs (ofertas iniciais de ações, na sigla em inglês) estava prestes a arruinar a cidade.

Os que cresceram na Área da Baía e se lembravam do estouro da tecnologia no fim dos anos 1990 previam um ano de festas detestáveis, iates vistosos e preços de imóveis ainda mais inacessíveis.

O proprietário do meu prédio parecia realmente atordoado, dizendo aos moradores para aproveitar a vida em San Francisco enquanto ainda podiam pagar. Um site de notícias de tecnologia chamou 2019 de corrida do ouro, enquanto a mídia nacional afirmava que a cidade estava em “ponto de ebulição”.

Para muitos, essas riquezas imaginárias evaporaram no ar. A empresa de transporte por aplicativo Uber deu o tom em maio, quando listou ações bem abaixo de uma esperada avaliação de US$ 120 bilhões. O cofundador Travis Kalanick e os primeiros investidores ainda colheram bilhões de dólares. Mas investidores e funcionários em etapa posterior não o fizeram. As ações da Uber perderam um terço do valor desde então.

Um dos espaços do We Work, em Washington
Um dos espaços do We Work, em Washington - Mandel Ngan - 13.mar.2014/AFP

A principal rival da Uber, a Lyft, também perdeu cerca de um terço de seu valor. 

O programa de mensagens em locais de trabalho Slack evitou um IPO tradicional e vendeu ações diretamente ao público, mas seus preços também caíram. 

O escritório de startups WeWork falhou no lançamento de ações e teve que procurar um acordo de resgate. 

Das startups preparadas para ingressar nos mercados, quatro foram listadas e fracassaram, uma quase entrou em colapso e duas ainda vão dar o salto.

Foi um ano inesperado de acerto de contas para os chamados unicórnios. No jargão tecnológico, um unicórnio é uma startup com avaliação de pelo menos US$ 1 bilhão (o equivalente hoje a R$ 4,1 bilhões).

Elas costumavam ser raras. Quando o capitalista de risco Aileen Lee cunhou o termo em 2013, a rastreadora de startups CB Insights contava 43. Hoje existem mais de 400.

A ascensão dos maiores unicórnios remonta à crise financeira global e à agitação econômica do período posterior. A primeira versão do Lyft foi uma empresa de transporte por aplicativo chamada Zimride, criada em 2007. O Airbnb chegou em 2008. A Uber em 2009. WeWork e Pinterest, em 2010.

A versão do mito fundador dessa história é que apenas os criadores mais dedicados lançam suas próprias empresas em uma crise, aumentando sua probabilidade de sucesso. Mas eles também devem algo às circunstâncias.

À medida que a década avançava, mais pessoas possuíam smartphones, o que significava que elas podiam acessar serviços de empresas como Uber e Lyft com mais facilidade. O alto desemprego após a crise criou um conjunto de pessoas dispostas a trabalhar sem segurança ou benefícios.

A nova regulamentação aumentou o número de potenciais investidores em empresas novatas, e os bancos centrais reduziram as taxas de juros ao limite, liberando dinheiro disposto a aceitar riscos.

O principal fazedor de reis foi Masayoshi Son, presidente-executivo do SoftBank. Armado com um fundo de US$ 100 bilhões para investir em empresas que moldariam os próximos 300 anos, ele disse às startups para colocar o crescimento em primeiro lugar.

Combinados, esses fatores criaram grandes empresas. A Uber tem quase 4 milhões de motoristas. O WeWork se tornou o maior inquilino privado em Londres e Nova York. O Pinterest tem mais de 300 milhões de usuários. 

Todas receberam aplicações de bilhões de dólares de investidores privados. Nenhuma teve lucro.

Os lucros não deveriam ter importância quando os mercados de ações estavam famintos por novas empresas de alto crescimento para investir. Tampouco havia queixas de trabalhadores ou ameaças de órgãos reguladores. Mas as perdas reveladas nos prospectos eram chocantes.

Isso poderia ter sido aceito se também houvesse planos convincentes para parar de vazar dinheiro. Mas não havia. Acrescente as preocupações a uma possível recessão nos Estados Unidos e uma guerra comercial com a China, e essas vastas empresas que mudariam o mundo começaram a parecer caras e precárias.

Nem todo IPO foi mal. Preços mais conservadores no segundo semestre provavelmente ajudaram. Um fundo administrado pela Renaissance Capital que rastreia empresas americanas recém-listadas em todos os setores cresceu 30% neste ano.

Os campeões da indústria também apontam que muitas ações de tecnologia caem no início. Quando a jornalista do New York Times Erin Griffith brincou no Twitter que as ações listadas recentemente deveriam ser apelidadas de Plumps —sigla em inglês para Unicórnios Listados em Bolsa de Péssimo Desempenho—, o capitalista de risco (e investidor da Uber) Bill Gurley respondeu rapidamente que casos de sucesso em tecnologia como Facebook e Amazon também eram negociados abaixo de seu preço inicial.

Como a resposta sugere, o investimento privado em tecnologia não está diminuindo. Nos últimos meses, encontrei dois fundos soberanos abrindo novos escritórios perto de startups. Está sendo levantado dinheiro para novos fundos. 

San Francisco pode não estar repleta de festas extravagantes e iates novos neste ano, mas a era dos unicórnios está longe de terminar.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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