Livro 'A Sombra do Vento' conduz passeio pelo centro de Barcelona

Programa compacto começa em restaurante tradicional e termina em bar de tapas

Salão grande com prateleiras em madeira e teto decorado
Sala do Ateneu Barcelonés, centro cultural junto à praça da Vila de Madrid  - Divulgação
Leão Serva
São Paulo

​Você já leu “A Sombra do Vento”? A pergunta é a senha para o início de uma conversa entre membros de uma espécie de seita. Quem leu inicia um diálogo sobre o êxtase de percorrer cada linha do romance de Carlos Ruiz Zafón, cuja trama é atada à cidade de Barcelona, na Espanha.

Se não leu, corra arrumar um exemplar. Não é completa a vida de quem não passou pelo “Cemitério dos Livros Esquecidos”, onde começa a história, e chegou, mais de 400 páginas adiante, até as quatro últimas palavras do texto, cabalisticamente, “a sombra do vento.”

Desde que foi lançado na Catalunha, em 2001 (no Brasil, em 2007), o livro viciou pessoas em todo o mundo, com 15 milhões de exemplares vendidos. A lenda diz que não se deve comprar um exemplar, mas ganhar. E que o volume não é seu, você apenas cuida dele para o próximo leitor. 

O resultado de tanto sucesso repercute nas ruas centrais de Barcelona: agências de turismo organizam tours com hora marcada, em que o guia aponta os lugares citados no livro e lê trechos correspondentes. Há quem prefira montar o próprio roteiro. Adiante, uma sugestão para isso.

Quem tem muitos dias na cidade pode ir a vários lugares; quem tem pressa deve reservar um período para visitar ao menos alguns sítios. Uma sugestão compacta é começar pouco antes do almoço e terminar no fim da tarde, alimentando-se nas duas pontas em lugares citados no romance: o tradicionalíssimo restaurante Els Quatre Gats e o bar El Xampanyet.

“A Sombra do Vento” é um livro dentro de um livro. Conta a história do menino Daniel Sempere, que perde a mãe logo após a guerra civil espanhola (1936-1939), quando a republicana Barcelona foi arrasada sob ataques das tropas de Francisco Franco (1892-1975).

Diante da permanente tristeza de Daniel, o pai decide levá-lo a um lugar secreto: o Cemitério dos Livros Esquecidos, onde cada pessoa deve adotar uma obra que não fez sucesso e cuidar dela, para que não caia definitivamente no esquecimento.

Nas infinitas estantes empoeiradas, o menino se encanta com o livro “A Sombra do Vento”, de um certo Julián Carax. 

Pronto: o romance que lemos tem duas camadas, trechos da obra e a vida de Daniel, que busca reconstruir a memória do estranho autor e sua criação. E ambas citam locais de Barcelona, reais ou outros, que Zafón trocou de nome, mas têm correspondência na vida atual da cidade.

Assim começa o romance. O lugar, que só existe na ficção, fica na rua do Arco do Teatro (carrer del Arc del Teatre, em catalão), travessa da rambla de Santa Mônica. Uns metros após entrar no beco ficava a entrada do Cemitério.

Do outro lado da rambla, na altura do número 46, está a praça Real (plaça Reial). Daniel frequenta o local porque ali mora Clara, por quem se apaixona. A praça tem luminárias desenhadas pelo arquiteto Antoni Gaudí (1852-1926), conhecido projetista dos principais pontos turísticos da cidade, como o Parque Güell.

Atravesse os arcos sob os prédios do lado norte da praça para chegar na rua de Ferran. Pegue a direita em direção à rua Del Call, no antigo bairro judeu de Barcelona. Ali, no número 2, está uma loja de chapéus, a Sombrerería Obach, que no livro pertence ao personagem Antoni Fortuny, e, para tanto, muda de nome e localização.

Quem entra na loja vê que ela tem um quê decadente, mas elegante, porque os barceloneses ainda consomem muitos chapéus.

Saia andando pelas vielas medievais desse bairro Gótico até a rua de Montsió, 3, onde fica o restaurante Els Quatre Gats (os quatro gatos).

Fundado em 1897, o lugar era um ponto boêmio nas primeiras décadas do século 20, onde artistas pagavam a conta com desenhos, pinturas ou ilustrando cardápios, como fizeram o poeta e pintor Santiago Rusiñol (1861-1931) e Pablo Picasso (1881-1973). O resultado é que as paredes são adornadas com obras mais valiosas que o restaurante.

Na Catalunha, como os catalães: coma pouco para comer sempre. Peça duas ou três tapas para compartilhar e siga para o próximo destino, localizado a quatro minutos.

No prédio grandioso e solene do Ateneu Barcelonés Daniel conhece Clara. Na grande porta de madeira há uma mão de metal para que o visitante possa bater, um bonito detalhe do tempo em que não existiam campainhas.

O centro cultural está localizado na rua de la Canuda, 6, junto à praça da Vila de Madrid onde escavações encontraram túmulos do tempo em que Barcelona era parte do Império Romano. Localizados abaixo do nível da calçada, foram deixados a céu aberto, protegidos por um vidro.

Depois de ver o “cemitério dos romanos esquecidos”, siga para o sul até a baixada Libreteria. Ali, no número 2, está a papelaria Papirum, que ecoa uma cena do livro em que o autor presta homenagem a seus ídolos, Victor Hugo.

Caso ainda tenha forças, visite a Basílica de Santa Maria del Mar, que, no livro, é frequentada por Bernarda, a mulher que cuida de Clara. A igreja medieval é marcante pela riqueza de suas obras sacras e pelo estilo austero.

Se já estiver cansado, ao sair vá direto para El Xampanyet, na rua de Montcada, 22. Bar de tapas conhecido por seus espumantes, vive lotado. Ao degustar suas tapas e drinques, vê-se que o sucesso não é por causa do romance de Zafón, onde é citado de passagem.

Para fechar o passeio, a sugestão é rumar para a avenida do Tibidabo, 32. No livro, ali ficava o lúgubre palacete da família de Penélope Aldaya. E o lugar fica no começo da montanha Tibidabo, que tem uma linda vista da cidade.

Depois disso, você verá que um dos prazeres do romance é imaginar que Barcelona está sempre presente, mesmo que seja só na lembrança ou na sombra do vento.

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