Legado do 'arquiteto de Detroit' cativa o turista na cidade do carro

Antiga capital industrial dos EUA preserva marcos arquitetônicos, como a casa dos Ford

Em uma recente viagem a Detroit, fiz uma coisa que jamais tentaria em Nova York: me detive em uma calçada movimentada e olhei para cima, para ver um arranha-céu.

O edifício era o First National Building, uma elegante estrutura de pedra calcária com 26 andares, perto do Campus Martius Park, no centro da cidade. Para quem a vê de fora, Detroit é menos conhecida por sua arquitetura do que por seus esforços de revitalização, que começam a se expandir do centro para outras áreas da cidade.

Mas porque gosto de saber mais, fiz uma busca sobre o endereço do edifício em meu celular, para descobrir o que apareceria. Nomes como Cadillac Place e Laboratório de Pesquisa General Motors apareceram nos meus resultados de busca, e saí à procura de informações sobre essa conexão. Por boa parte do século 20, Michigan foi a capital industrial dos Estados Unidos.

O desenvolvimento do Ford Modelo T, considerado como o primeiro automóvel de preço acessível, e as imagens de homens construindo carros em linhas de montagem móveis instaladas na região capturaram a imaginação do público.

À medida que a indústria automobilística transformava a economia de Detroit, a população da cidade crescia, de cerca de 285 mil habitantes em 1900 para mais de 1,6 milhão em 1940.Ao longo dessas décadas, edifícios de escritório suntuosos, edificações acadêmicas faustosas e grandes mansões se espalharam pela cidade e pela região, em larga medida por conta da engenhosidade de Albert Kahn.

Muitas vezes definido como "o arquiteto de Detroit", Kahn projetou entre 400 e 900 edificações na cidade, entre as quais o First National Building. Alguns desses edifícios foram demolidos. Mas dezenas dos marcos arquitetônicos criados por ele, entre os quais o Fisher Building, em estilo art déco, no bairro de New Center, e o Belle Isle Aquarium, continuam a cativar o público, gerações depois de sua inauguração.

Um desenhista que só estudou até a sétima série

Albert Kahn nasceu na Alemanha em 1869, em uma família judia. Depois de emigrar para os Estados Unidos em 1880, a família se estabeleceu em Detroit. Kahn trabalhava para ajudar a sustentar os pais e os sete irmãos, e por fim conseguiu emprego como desenhista no escritório do arquiteto George Mason, ainda que tivesse estudado apenas até a sétima série.

"Kahn é membro da última geração de arquitetos que começaram como aprendizes, vindo dos postos mais baixos em um escritório de arquitetura", disse Michael Hodges, jornalista do Detroit News e autor de "Building the Modern World: Albert Kahn in Detroit" [construindo o mundo moderno: Albert Kahn em Detroit].

"Mason gostava dele, e percebeu sua inteligência, ambição e dedicação".Em 1891, Kahn conseguiu uma bolsa para estudar no exterior, e viajou pela Europa, desenhando detalhes de grandes obras arquitetônicas, em companhia de Henry Bacon, que mais tarde projetaria o Memorial de Lincoln, em Washington.

A experiência ajudou a definir a vida do arquiteto. Ele fundou seu escritório de arquitetura, Albert Kahn Associates, em 1895. Khan projetou quase duas mil edificações, em todo o mundo, ao longo de sua carreira. (Ele morreu em 1942.)Agora, depois de décadas de relativo anonimato nas conversas arquitetônicas, a imensa influência que Kahn exerceu volta a merecer atenção.Claire Zimmerman, professora associada de arquitetura e história da arte na Universidade do Michigan, que está trabalhando em um livro sobre Kahn, o considera diferente de contemporâneos como Frank Lloyd Wright.

"Kahn é notável pelo fato de ser muito discreto, e por seu imenso talento ter vivido oculto por trás de uma figura muito convencional", ela disse. "Creio que o mesmo possa ser dito sobre seus projetos. Os edifícios parecem convencionais, e isso faz com que as pessoas não percebam o quanto são inovadores e modernos".

Boa parte do legado de Kahn ainda e visível no Michigan, dos velhos corredores bancários no centro de Detroit à arquitetura rica do subúrbio de Grosse Pointe Shores e o panorama acadêmico da Universidade do Michigan em Ann Arbor.

Eu queria ver de que maneira Kahn revolucionou a arquitetura, e seu impacto duradouro sobre o projeto arquitetônico, e por isso criei um trajeto para visitar suas obras mais significativas. 

A avenida Mack, que corta o centro de Detroit rumo a nordeste e se aproxima gradualmente do subúrbio de Grosse Pointe, é uma área de profundos contrastes. De um lado, ela conduz aos bairros do East Side, muitos dos quais se saíram ligeiramente melhor que boa parte do restante da cidade na era da crise, mas que ainda não se recuperaram totalmente de anos de declínio econômico.

O saguão do Detroit Athletic Club, projetado por Albert Kahn em 1915
O saguão do Detroit Athletic Club, projetado por Albert Kahn em 1915 - (Kevin Miyazaki/The New York Times)

Na outra ponta da avenida fica Grosse Pointe, cercada por quatro comunidades: Grosse Pointe Farms, Grosse Pointe Park, Grosse Pointe Shores e Grosse Pointe Woods.Na época em que foi desenvolvida, a região de Grosse Pointe era o epítome da alta sociedade, com mansões em estilo Tudor Revival e colonial americano clássico.

A área continua claramente afluente, com ruas silenciosas e arborizadas e nomes associados à Inglaterra, a exemplo de Kensington e Yorkshire. Perto do lago St. Clair, há grandes propriedades à beira da água.

Na ponta norte de Grosse Pointe Shores, fica a casa de Edsel e Eleanor Ford, construída em 1929. O paisagismo criado por Jens Jensen, paisagista americano de ascendência dinamarquesa, inclui um santuário para pássaros em uma ilha, um lago e jardins.

 

Jardim e casa do filho único do barão do automóvel Henry Ford, no subúrbio de Detroit
Vista da casa de Edsel e Elanor Ford, em Grousse Pointe Shores, subúrbio rico perto de Detroit - Kevin Miyazaki/The New York Times

A suntuosa casa do filho único do barão do automóvel

Edsel e Eleanor Ford criaram seus quatro filhos na elegante casa, construída ao estilo da região inglesa dos Cotswolds. Edsel Ford, filho único do barão da indústria automobilística Henry Ford e presidente da Ford Motor entre 1919 e 1943, gostou tanto da arquitetura da região de Cotswolds, quando visitou a Inglaterra, que planejou construir uma casa seguindo aquele estilo.

Para o projeto, Ford recorreu ao seu bom amigo Kahn, que havia trabalhado para Henry Ford por anos, com projetos como a fábrica da Ford em Highland Park. 

A casa tem fachada de arenito e um topo inclinado, com telhas de pedra. Chaminés proeminentes, um dos traços marcantes do estilo Cotswolds, se erguem por sobre a casa sem obscurecer a natureza graciosa do projeto.Ao entrar no saguão, me impressionei com a larga escadaria lateral de carvalho. A decoração de muitos dos aposentos é tradicional. As salas em estilo art déco no segundo piso abrigam mobília curvilínea e paredes revestidas de couro.

A casa irradia classe.Muitos quadros conhecidos, entre os quais "Bouilloirte et Fruits", de Paul Cézanne, decoram as paredes da casa. (Edsel Ford era membro do conselho do Instituto de Arte de Detroit e ajudou a criar o projeto de murais Detroit Industry, uma coleção de afrescos pintados pelo pintor mexicano Diego Rivera entre 1932 e 1933, retratando os operários que definiam a indústria e a classe trabalhadora de Detroit naquela era.)

Passei pelo pátio e tomei uma pequena trilha pavimentada que conduz ao lago St. Clair. Ao longe, vi um navio de carga da linha Great Lakes.Caminhei pela propriedade, que abriga também uma casa de piscina, uma casa para os geradores, uma casa de hóspedes e uma casa de brinquedos com mobília miniaturizada, construída em 1930 para a filha de Edsel Ford, Josephine Clay Ford, quando ela tinha sete anos.

Depois da visita à casa dos Ford, optei por tentar descobrir como Kahn havia projetado alguns de seus edifícios públicos mais proeminentes.Fui a Belle Isle, um parque em uma ilha de 365 hectares no rio Detroit. Percorrendo as ruas largas, avistei uma edificação em estilo estufa --um dos espaços públicos mais sutis entre os projetos de Kahn.

"O que se destaca em Albert Kahn é sua ideia de como o espaço à beira do rio devia ser utilizado", diz Ryan Patrick Hooper, jornalista da rádio WDET-FM de Detroit, que guia visitas ao Fisher Building, projetado por Kahn, e organizadas pela Pure Detroit, uma empresa que vende mercadorias com a marca da cidade. "Ele pensava em espaços públicos altruístas, em um momento no qual a indústria sufocava as áreas do rio e dos lagos. Estava décadas adiante de seu tempo".

O Hill Auditorium, na Universidade de Michigan, projetado por Albert Kahn em 1913
O Hill Auditorium, na Universidade de Michigan, projetado por Albert Kahn em 1913 - Kevin Miyazaki/The New York Times

O Belle Isle Aquarium, uma construção compacta inaugurada em 1904, é um dos mais antigos aquários dos Estados Unidos. A entrada frontal em estilo beaux arts, com golfinhos e um selo da cidade de Detroit talhados em pedra, é sedutora, mas é o interior que realmente revela a amplitude do projeto de Kahn.

As telhas de vidro verde e formato esguio que formam o teto recurvo criam a sensação de que o visitante ingressou em um distante universo subaquático. (Entre os espécimes do aquário há peixes-donzela, ciclídeos, frontosas e achigãs de boca pequena.) 

Logo ao lado, o Anna Scripps Whitcomb Conservatory, com uma estufa e jardim botânico, toma por modelo o Crystal Palace, construído para abrigar a Grande Exposição londrina de 1851 e destruído por um incêndio em 1936, e a Palm House, parte do jardim botânico Kew Gardens, em Londres.

Plantas comuns em climas mais quentes, como a opúncia de ramas brancas do México e a crassula sul-africana, são destaque entre as atrações, e o domo elevado da estufa propicia uma sensação de possibilidade.De volta ao centro de Detroit, caminhei por perto do First National Building uma vez mais, contemplando a avenida Woodward, uma via proeminente que serve de espinha dorsal ao serviço de bondes Qline, inaugurado cerca de um ano atrás.

O Qube, um edifício de 14 andares projetado e construído pelo escritório Albert Khan Associates, agora serve como centro de operações da financeira Quicken Loans, e atraiu minha atenção.Ainda que Kahn não tenha projetado o edifício pessoalmente (ele foi inaugurado bem depois de sua morte), sua influência é evidente.

O edifício, reformado em 2011, é utilitário, com janelas estreitas e exterior de mármore. A alguns quarteirões dali fica o Detroit Athletic Club, um clube privado em estilo neorrenascentista inaugurado em 1915, mais um projeto de Kahn. A inspiração para o projeto veio do Palazzo Borghese, de Roma.

O clube que pribia a entrada de judeus e foi projeto por um

 clube exclusivo O saguão do clube, com candelabros e paredes revestidas por painéis de madeira, no passado era a grandiosa porta de entrada para a elite de Detroit. (O clube é privado, e por isso não pude visitar o resto da edificação.) Mas por boa parte da existência da instituição, judeus, negros e mulheres não eram aceitos como sócios. O clube decidiu abrir uma exceção para Kahn, de acordo com Hodges e Zimmerman, mas ele preferiu não aceitar o convite.

A cerca de 6,5 quilômetros do centro da cidade, o bairro de New Center foi uma área comercial importante antes de as lojas começarem a se mudar para o subúrbio. O bairro abrigou a sede mundial da General Motors entre 1923 e 2000, e conseguiu escapar ao menos em parte à fuga de investimentos que abalou algumas áreas vizinhas. Agora, como muitos dos bairros de Detroit, New Center exibe uma energia vibrante. 

O Cadillac Place, antiga sede da General Motors, em Detroit. A obra é de Albert Kahn, conhecido como 'O Aquiteto de Detroit'
O Cadillac Place, antiga sede da General Motors, em Detroit. A obra é de Albert Kahn, conhecido como 'O Aquiteto de Detroit' - Kevin Miyazaki/The New York Times

O Fisher Building, de 30 andares, é um dos projetos mais amados de Kahn, um edifício art déco clássico com uma mistura intricada de pedra calcária, granito e mármore em seu revestimento. A construção do edifício foi bancada pelos irmãos Fisher, que haviam vendido a Fisher Body, especializada na produção de carrocerias de automóveis, à General Motors.

O orçamento de Kahn era virtualmente ilimitado, e o projeto envolvia mais de 600 portas de bronze para os elevadores, tanto interiores quanto exteriores, e mais de 1.800 janelas de bronze. O revestimento do telhado era dourado.Inaugurado em 1928, o edifício deveria ter sido parte de um complexo mais amplo e dramático, com duas torres nos flancos e uma grande torre central.

O colapso do mercado de ações americano no ano seguinte pôs fim a esse sonho. A excursão da Pure Detroit ao Fisher Building começa na arcada em formato semiesférico, na qual Hooper oferece aos visitantes uma ideia de como era o edifício ao ser inaugurado. Ele explica que a garagem anexa abastecia e consertava carros enquanto os visitantes cuidavam de suas tarefas dentro do edifício.

Túneis conectavam o Fisher Building ao Albert Kahn Building e ao Cadillac Place, dois edifícios vizinhos.O projeto contraria a opinião usual de que espaços para escritórios não podem ser inspiradores. Isso fica evidente ao contemplar a arcada do Fisher Building do terceiro andar, o que nos permite ver os afrescos e mosaicos que enfeitam os tetos do edifício, com imagens de águias de asas abertas, para representar o poder americano.

"Já faço isso há quatro anos, e continuo a me divertir conduzindo grupos de excursão", disse Hooper.

"Muita gente que participa está vendo o lugar pela primeira vez, ou não o vê há décadas, e parte importante da experiência é surpreender as pessoas ou levá-las a mudar de ideia sobre a arquitetura de Detroit". Do outro lado da rua, o Albert Khan Building, estrutura de pedra calcária em estilo art déco construída em 1931, continua a parecer imponente apesar de ter apenas dez andares de altura. Os pisos inferiores do edifício foram ocupados por uma loja Saks Fifth Avenues durante 40 anos.

Desde 1931, o edifício aloja os escritórios da Albert Kahn Associates, mas o escritório vai se mudar para um espaço reformado no Fisher Building, neste ano, e o área que ele deixará será ocupada por apartamentos.Na visita ao Fisher Building, os visitantes podem ver o topo do Cadillac Place, edifício que serviu de sede à General Motors.

Kahn construiu uma base larga com dois andares de altura sobre a qual se erguem quatro edifícios separados de 15 andares, o que eliminou a cara de fortaleza que muitos edifícios de escritório costumam ter, e permitiu iluminação por luz natural, de diversos ângulos. O primeiro piso do Cadillac Place, ocupado por escritórios do governo estadual do Michigan, está aberto ao público. Muitas das paredes são revestidas de mármore italiano; os pisos são de mármore do Tennessee.

A região de Detroit também abriga muitos dos edifícios industriais projetados por Kahn, entre os quais os da fábrica da Ford em Highand Park, onde o Modelo T era fabricado. Ele também projetou a fábrica da Packard e a fábrica River Rouge da Ford, na cidade de Dearborn. Infelizmente, boa parte da fábrica de Highland Park foi demolida.

Visitantes no Belle Isle Aquarium, em Detroit, um dos mais velhos dos EUA. A obra, de 1904,  é de Albert Kahn, conhecido como 'O Aquiteto de Detroit'
Visitantes no Belle Isle Aquarium, em Detroit, um dos mais velhos dos EUA. A obra, de 1904, é de Albert Kahn, conhecido como 'O Aquiteto de Detroit' - Kevin Miyazaki/The New York Times

Na fábrica River Rouge, virtualmente todos os edifícios projetados por Kahn foram demolidos ou consideravelmente modificados. Mas a fábrica da Packard continua muito visível, com suas duráveis paredes de tijolos e a passarela para pedestres sobre o East Grand Boulevard servindo de prova do poderio econômico que a cidade teve no passado.

"Foi com base no edifício número 10 da fábrica da Packard que Henry Ford contratou Albert Kahn para projetar a fábrica de Highland Park, em 1908", disse Hodges. "A edificação é interessante porque não tinha qualquer ornamentação, e foi reduzida ao mínimo essencial de elementos, a fim de economizar dinheiro para o cliente".

Em seu auge, a fábrica da Packard tinha mais de 300 mil metros quadrados de espaço útil, e foi uma das primeiras instalações industriais a usar concreto reforçado. Há planos para converter parte de sua área em escritórios, mas o projeto industrial mais marcante de Kahn persistirá. (A Pure Detroit agora oferece visitas guiadas à fábrica.)

Um modernista antes dos modernistas

"Kahn influenciou fortemente o movimento modernista", disse o arquiteto Alan Cobb, presidente da Albert Khan Associates desde 2013. "[Walter] Gropius e [Ludwig] Mies van der Rohe se inspiraram em Kahn para suas filosofias. Basicamente, enquanto eles estavam desenvolvendo uma filosofia para a arquitetura moderna, Kahn silenciosamente já a estava construindo".

Isso ficou claro quando visitei o Hill Auditorium, no campus da Universidade do Michigan em Ann Arbor, e ouvi as notas belas e cristalinas que emanavam do palco - exatamente a acústica com que Kahn deve ter sonhado ao projetar a edificação. O auditório, inaugurado em 1913, me lembrou o do Radio City Music Hall, em Nova York, com seu notável palco principal em arco.

Ao lado do auditório fica a imponente Burton Memorial Tower, na qual um carrilhão operado por estudantes opera nos dias de semana. A alguns minutos de distância, o grandioso Angell Hall, com suas numerosas colunas, ajuda a definir a atmosfera acadêmica. O edifício de Ciências Naturais, curto, com paredes de tijolos e um sóbrio arco de entrada, serve como centro de aprendizado há décadas.

"Na década de 1920, Kahn trabalhou com outros membros da comunidade da Universidade de Michigan para modernizar o campus, como parte de um comitê de cinco membros", disse Zimmerman. "Os edifícios são todos compatíveis em termos de aparência, mas também de funcionalidade.

E eles realmente transformaram a universidade, de um campus do século 19 a um campus muito mais moderno para o século 20".Em Ann Arbor e em Detroit, os edifícios de Kahn não só parecem modernos como parecem não ter idade.

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