Bairro em Lisboa é reduto escondido do estilo art déco

Região é repleta de prédios bem preservados no estilo decorativo que teve seu auge nos anos 30

Heloisa Seixas
Lisboa

Chiado, Alfama, Castelo de São Jorge. Praça do Comércio, Avenida da Liberdade. Bonde 28, tuk-tuks. O Tejo e sua luz única, os Jerônimos, o monumento aos Descobrimentos, os novos museus na beira-rio. São muitas as Lisboas que hoje atraem turistas do mundo inteiro, e com razão.

Portugal é um país encantador. E Lisboa parece ser a nova queridinha, com sol, calor, segurança, comida boa e barata, povo hospitaleiro.

 

Mas há Lisboas mais secretas, menos óbvias, e é por uma delas que estive a passear (essa língua portuguesa fica em nós) numa tarde de início de outono, não faz muito tempo: o Bairro das Colônias. Ou das Colónias, que é como o chamam os portugueses, embora o nome oficial tenha mudado para Bairro das Novas Nações. É um surpreendente —e quase secreto— enclave art déco em uma cidade tão deliciosamente século 19.

Não muito longe do Centro, seguindo pela avenida Almirante Reis, chegamos a essa região onde um dia foi a Quinta da Charca. É lá, junto ao Monte Agudo, entre as ruas Penha de França e Sapadores (ah, esses nomes!), que fica o bairro construído nos anos 1930, onde muitas ruas foram nomeadas em homenagem a lugares colonizados por Portugal: Angola, Macau, Timor, Moçambique, Ilha de São Tomé, Ilha de Príncipe, Cabo Verde.

Há também a Praça das Nações, que antes da Revolução dos Cravos, em 1974, se chamava Praça de Ultramar. Preservado, o Bairro das Colônias, com seus prédios de quatro andares, detalhes de formas geométricas e pintura em tons pastel, forma um dos mais belos e menos conhecidos conjuntos de arquitetura Art Déco da Europa. 

Quando o bairro foi construído, as autoridades pensaram em dar às ruas nomes de personagens importantes da colonização, ou “colonizadores ilustres”, como diz um documento da época (citado no blog bairrodascolonias.blogspot.com.br, que luta pela preservação do lugar).

Mas a ideia de ruas com nomes de países acabou prevalecendo, um pouco inspirada na região vizinha, o Bairro de Inglaterra, onde muitos logradouros homenageiam cidades e também poetas ingleses. Esse outro bairro, erguido no início do século 20, foi nomeado inicialmente Bairro Brás Simões, mas mudou de nome ao final da Primeira Guerra, em homenagem à nação aliada (Portugal entrou na guerra em 1916).

O art déco surgiu em Paris, com a Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais, em 1925 (“art déco” é a abreviação da expressão francesa “arts décoratifs”). Dali, o estilo se espalhou pelo mundo e seu apogeu na Europa foi nos anos 1930. 

Nada mais natural que, nessa época em Lisboa, um bairro novo, planejado, ganhasse edificações no estilo que estava em voga. Assim nasceu o Bairro das Colônias. As principais características do art déco estão todas lá: formatos geométricos, uso de linhas circulares, retas estilizadas, motivos náuticos, formas femininas, pintura em cores suaves. 

Todos os prédios são parecidos, mas ao mesmo tempo únicos, porque as fachadas, varandas, grades, portas, janelas e os enfeites nos beirais são, em cada um, diferentes. Eles foram construídos ao longo de anos, sendo seus projetos de autoria de vários arquitetos, o que talvez explique a diversidade. Mas há, em todos eles, o denominador comum do art déco, inconfundível. 

Durante muitos anos, o bairro ficou um pouco abandonado (o que ajudou a mantê-lo intacto), e só de alguns anos para cá começou a ser ocupado por artistas, intelectuais, gente jovem —pessoas em busca de um lugar charmoso e barato para morar ou trabalhar.

E a preocupação com sua preservação tem sido crescente. Ainda bem. Porque, para os admiradores do art déco, andar pelas ruas do Bairro das Colônias é extraordinário.

Heloisa Seixas é autora de “Agora e na Hora” e “O Oitavo Selo”, nasceu no Jardim Botânico, no Rio

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