Museu da maconha só dá barato como cenário de selfies em Las Vegas

Novo Cannabition Cannabis Museum entra na onda do turismo imersivo com instalações bizarras

Fernanda Ezabella
Las Vegas

Um escorregador sai de uma escultura em formato de boca, atravessa nuvens de fumaça e desemboca numa piscina cheia de flores de maconha. Dá para abraçá-las e cheirá-las, ainda que sejam feitas de espuma.

Não é preciso estar chapado para visitar o Cannabition Cannabis Museum, que abriu em setembro em Las Vegas, no estado de Nevada (EUA), mas é preciso estar muito fora de si para achar que entrou num museu de verdade.

O espaço, no centro antigo da cidade, faz parte da moda das atrações imersivas. São instalações, entre o curioso e o bizarro, que convidam o público a tirar fotos e postar nas redes sociais. O Museu do Sorvete, em Nova York, e a Experiência da Pizza, em Los Angeles, são dois exemplos que fizeram sucesso recentemente.

O consumo da droga é proibido em locais públicos, assim como em quartos de hotel e em parques. Portanto, nem pense em acender um baseado no Cannabition (ingresso a US$ 24,20 ou R$ 89, apenas para maiores de 21 anos).

No museu, há um baseado gigante cercado de luzes fluorescentes pronto para o registro do Instagram e uma estátua gigante de Buda. A principal “obra” do espaço é um bong (cachimbo de água) de vidro de 7,3 metros de altura, o maior do mundo, segundo o criador do espaço, o publicitário J.J. Walker, 38. “E funciona de verdade”, diz.

“Nosso objetivo é transformar a planta em algo convencional, fugir da cultura do chapado”, afirma Walker, que já foi dono de uma loja de maconha e de uma empresa de turismo de experiências com a planta, ambas em Denver, no Colorado, que também legalizou o uso recreativo da droga.

“No sul dos Estados Unidos, ela continua ilegal, ainda é um tabu grande. Queremos mudar a percepção das pessoas. Penso a maconha como uma mercadoria normal, do mesmo mundo que o álcool.”

Cada instalação, incluindo um jardim com plantas falsas, tem o nome de um patrocinador. O criador do espaço não vê problema em fazer apologia da droga, já que ela é legalizada e comercializada em Nevada. “Marcas de cervejas patrocinam festivais, fazem promoções e criam experiências para seus consumidores”, compara.

A peça mais histórica do Cannabition é um conversível vermelho Chevrolet Caprice 1973 que pertenceu ao jornalista Hunter S. Thompson (1937-2005). O carro foi usado no filme “Medo e Delírio em Las Vegas” (1998), inspirado no livro homônimo de Thompson, protagonizado pelo ator Johhny Depp.

O jornalista foi um dos primeiros membros da organização Norml, fundada em 1970 por ativistas pela legalização.

“A viúva de Thompson é amiga de um investidor meu”, conta Walker, que não é usuário frequente da droga. “Uso muito pouco. Talvez uma vez por semana, após um dia longo de trabalho.”

Outro espaço do museu explica as diferenças entre os componentes químicos da planta, os chamados terpenos, por meio de tubos que emitem cheiros diferentes. 

Ao fim do passeio, há duas lojas. Uma tem itens como camisetas e bonés. A outra vende chocolates e cremes feitos de canabidiol (CBD), a substância não psicoativa da planta usada para fins medicinais.
Para quem quer conhecer a história da maconha, a loja (“dispensary”, em inglês) Acres tem um espaço educativo —não é preciso mostrar identidade para entrar, mas a loja em si é aberta apenas para maiores de 21 anos.

Em um corredor, há exemplares emoldurados da revista especializada High Times, além de uma janela que mostra bastidores da Acres, como a produção de comestíveis e de cigarros de maconha.

Outra parede exibe uma série de fotos, artigos históricos de jornal e até uma bandeira dos Estados Unidos feita de cânhamo, a fibra da planta, conhecida como “hemp”.

Um cartão-postal de 1775 mostra a primeira plantação de maconha no estado de Kentucky, que, em 1850, chegou a colher 40 mil toneladas. O espaço também conta a história da campanha Hemp for Victory, na Segunda Guerra Mundial, quando o governo dos EUA encorajou fazendeiros a plantar maconha para a fabricação de cadarços e cordas.

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