Conheça o candomblé-raiz no Recôncavo Baiano com terreiros seculares

Região, composta por 19 cidades, é polo de turismo religioso e de resistência cultural

Iara Biderman
Recôncavo Baiano

Cachoeira e São Félix, cidades-irmãs divididas pelo rio Paraguaçu, ficam a 120 km de Salvador e são o ponto de partida para uma viagem em busca das raízes mais profundas do Brasil, suas matrizes africanas.

Ficam no Recôncavo Baiano, polo de turismo religioso composto por 19 cidades e mais de 400 terreiros de candomblé, segundo o último Mapeamento dos Espaços de Religiões de Matrizes Africanas da Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial da Bahia.

Um turista poderia, em tese, esbarrar com um terreiro em cada esquina, tamanha a quantidade. Mas não é bem assim. Um roteiro pelo universo do candomblé do Recôncavo exige paciência, contatos, boa vontade para entrar em terrenos desconhecidos e, principalmente, muito respeito.
Fica-se sabendo das festas abertas ao público nas pousadas, onde também são indicados guias informais que podem marcar as visitas.

Os passeios aos terreiros também podem ser combinados na Associação de Guias e Condutores de Cachoeira, que fica junto ao posto de informações da Secretaria de Turismo do município. Os guias locais pedem aprovação do babalorixá (pai de santo) para levar os visitantes nas datas e nos horários permitidos —cada terreiro tem dias e épocas do ano nos quais fica fechado para quem é de fora.

“Levo as pessoas aos terreiros para elas verem o desconhecido, o sutil”, diz Vinícius Sena, 21, um desses guias locais, morador de Muritiba. Ele é iaô (filho de santo) de uma casa da região, e monta tours personalizados de acordo com os interesses do viajante e a disponibilidade dos pais de santo.

A falta de roteiros institucionalizados e pré-fixados é compensada pela oportunidade de ir além do candomblé-para-turista.

O Reconcâvo é conhecido como lugar de resistência e preservação das manifestações da tradição africana, onde estão alguns dos terreiros mais antigos ainda ativos.

Um deles é o Ilê Axé Oyo Nibecê, fundado por volta de 1870, na zona rural de São Félix. Também é conhecido como Casa de Capivari e Candomblé da Cajá. O ilê (onde ocorrem as festas) foi construído em torno de um cajazeiro centenário. Seus galhos atravessam o telhado.

“O axé (poder) do terreiro está nesta árvore”, diz pai Nino, o babalorixá do lugar. Ele assumiu a função depois que sua mãe morreu. Embora tenha sido fundada por um homem, só tem mulher na linha sucessória do Candomblé da Cajá. Nino é, portanto, o segundo homem a assumir o comando na história da casa.

“É importante saber de onde você veio, quem não tem passado, não tem história”, diz Graça Lopes, mulher de Nino. Ela é a ialaxé, responsável pela limpeza, pelas oferendas aos orixás, por cuidar das plantas. Seu trabalho pode ser apreciado no jardim, cheio de flores e ervas aromáticas. O terreiro fica em uma antiga terra de um engenho onde o fundador, Anacleto da Natividade, foi escravo-feitor. O rio Capivari, onde são feitas entregas de ebós (oferendas), passa no fundo do quintal da casa.

Mais urbana, a casa de Pai Gegeo fica em Faceira, bairro de Cachoeira. Para chegar ao barracão principal do terreiro é preciso subir um pequeno morro por uma escada cavada na terra, em meio a galinhas e crianças usando roupas e turbantes brancos.

O sincretismo, ali, é mais presente. No salão onde as pessoas esperam ser atendidas por Gegeo, imagens de Jesus, Santa Maria e Santa Bárbara convivem com representações de Oxalá, Iemanjá, Iansã. Ele atende no terreiro de sua avó, Mãe Dionísia, que já está com idade avançada.

Gegeo comanda as festas da casa, para Oxalá e Oxum, abertas a todos. Com hora marcada, lê búzios, dá banhos de limpeza espiritual e faz “boris”, oferendas para harmonizar e fortalecer a cabeça da pessoa. Ele atende tanto filhos de santos quanto visitantes não iniciados no candomblé.

Do terraço da casa avista-se o Paraguaçu, grande rio que nasce na Chapada Diamantina e deságua na Baía de Todos os Santos. O terreiro fica em frente à Pedra da Baleia, rocha no meio do rio aonde cortejos de barcos levam presentes para Iemanjá em fevereiro. A festa feita ali para a Rainha das Águas em Cachoeira é a segunda maior da Bahia, depois da de Salvador. É realizada em um domingo depois de 2 de fevereiro —a data é definida a cada ano, de acordo com o movimento das marés.

Outro terreiro mais para o urbano e sincrético é a casa da Mãe Dó de Oyá. O galpão onde acontecem festas e trabalhos fica nos fundos de sua casa, no município de Muritiba.

Ali ela faz festas abertas (qualquer pessoa pode ir) e as fechadas, para os filhos do seu terreiro, o Oyá Balé de Ofá. Também joga búzios, faz consultas e dá banquetes para iabás (orixás femininas) e obarás (orixás masculinos).  

Imagens desses santos do candomblé esculpidas em pequenos painéis de madeira decoram as paredes do galpão Ile Axé Onire Femim, no município de Cruz das Almas (a cerca de 24 km de Cachoeira ou São Félix).

Foram encomendados pelo babalorixá Erick ao escultor Mimo, artista bem conhecido em Cachoeira, onde tem seu ateliê. Pai Erick é apaixonado por obras de arte. Tem uma escultura em ferro de Exu na entrada do barracão principal do terreiro. Seu sonho é ter uma Oxum de ferro bem no meio do salão.  

Erick Jean Lima Silva vem de uma linhagem de iniciados. Seu tio é pai de santo, o avô era do candomblé. Comprou a casa onde está hoje há 14 anos do filho de um amigo de Pierre Verger (1902-1996), o fotógrafo francês que se apaixonou pela Bahia e pelo candomblé e se tornou referência para estudo e documentação das tradições afro-brasileiras.

Babá Erick reformou a construção de mais de 40 anos, originalmente com paredes de barro, para homenagear seus santos (filho de Xangô, também tem uma adoração especial por Oxum). E receber pessoas do mundo todo que frequentam seu terreiro, filhos da casa ou estudiosos e turistas que marcam visitas ou participam das festas abertas, realizadas nos meses de julho, setembro e dezembro.

Chega-se ao Recôncavo a partir de Salvador pela rodovia 324. Na rodoviária há ônibus de hora em hora. O trajeto até Cachoeira ou São Félix leva cerca de 180 minutos. Uma ideia é alugar um carro em Salvador, o que facilita visitas a terreiros mais distantes.

A Associação de Guias e Condutores de Cachoeira fica na Praça da Aclamação, 4, tel. (71) 9154-5965. O guia independente Vinícius Sena pode ser contatado por WhatsApp: (75) 98336-2501. Davi Rodrigues, artista de Cachoeira, também leva turistas aos terreiros, além de acompanhar em outros roteiros; seu WhatsApp é (75) 9181-7791.

Para se hospedar em São Félix, vale o La Buena Vida Apartamentos (labuenavida.com.br), que fica em casarão histórico com fachada restaurada. Os quartos são no estilo “loft”, com sala e cozinha.

Em Cachoeira, há a Pousada Identidade Brasil (tel. 75 99140-0946). São seis quartos em uma mansão, cada um decorado com cores e elementos de um orixá. O lugar já hospedou grandes nomes do movimento negro, como a ativista americana Angela Davis, que esteve lá no fim do ano passado. Outra opção é a Pousada Convento do Carmo, única da região com piscina (pousadadoconvento.com.br).

Colaborou Caia Amoroso 


GLOSSÁRIO

Axé  termo iorubá que significa energia, poder, força e que sustenta os terreiros de candomblé

Babalorixá, babaloxá ou babá é o pai de santo, pai de terreiro, sacerdote

Bori oferenda para harmonizar e fortalecer a cabeça de uma pessoa iniciada ou não no candomblé

Candomblé religião introduzida no Brasil a partir da escravidão e do período colonial com os africanos principalmente das regiões atuais da Nigéria e do Benim

Eguguns espíritos dos ancestrais mais importantes de uma comunidade

Iabás orixás femininas

Ialaxé  mulher responsável pela casa de candomblé, que cuida da limpeza, da oferenda de comidas aos orixás, das plantas

Ialorixá, iyá ou ialaorixá é a mãe de santo, mãe do terreiro, sacerdotisa

Ilê ou ilê axé local sagrado, casa onde acontecem as festas públicas e abriga os convidados

Iorubá língua viva, de tradição falada, composta por milhares de dialetos africanos que atravessou o Atlântico nos porões nos navios negreiros e sobrevive até hoje

Nações do candomblé termo usado por portugueses para agregar diferentes grupos étnicos que foram escravizados no Brasil. Segundo o historiador Nicolau Parés, essa divisão era de ordem política, por meio da língua, dos cantos, das danças e dos instrumentos. Com o passar do tempo, o parentesco biológico foi sendo substituído pelo parentesco do santo, de caráter teológico

Obarás orixás masculinos

Iaô filho de santo

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