Descrição de chapéu Coronavírus

Coronavírus provoca mudanças nos itinerários dos cruzeiros

Companhias facilitam cancelamento e adotam medidas para prevenir contágio

Navio iluminado atrás de alambrado
O navio Diamond Princess, que ficou em quarentena no porto de Yokohama, no Japão - Athit Perawongmetha/16 fev./Reuters
São Paulo

O navio com 3.700 pessoas que passou 14 dias em quarentena no porto de Yokohama, no Japão, ainda assombra quem tem um cruzeiro comprado para as próximas semanas.

O Diamond Princess, da Princess Cruises, fazia uma rota pela Ásia, quando, em 25 de janeiro, um passageiro que desceu na escala em Hong Kong foi diagnosticado com covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

Em 3 de fevereiro, ao chegar em Yokohama, ninguém pôde desembarcar. A quarentena no próprio navio terminou com 705 casos da doença e 6 mortes, até esta terça (3).

Navios que passaram por países afetados pela doença ou que levavam pessoas a bordo com sintomas da covid-19 também tiveram problemas.

O MSC Meraviglia foi rejeitado por Jamaica e Ilhas Cayman por ter dois passageiros sob suspeita de terem contraído o vírus —no final, era apenas gripe comum.

O Westerdam, da Holland America, não pôde aportar no Japão, nas Filipinas e na Tailândia depois de fazer escala em Hong Kong e se tornar suspeito de levar a doença. Conseguiu parar no Camboja.

O Sun Princess teve a parada recusada em Madagascar por ter passado pela Tailândia. No domingo (1º), quando chegou à ilha de Reunião, território francês no Índico, foi recebida com pedras e garrafas pelos locais.

Foi o medo de não conseguir parar nos portos do itinerário e ficar presa no navio, mais do que o receio de pegar a doença, que motivou a professora aposentada Gilvânia Alves, 54, a cancelar o cruzeiro que faria neste mês pela Ásia.

Sua mãe, de 92 anos, tem pressão alta, e ela não quer arriscar ficar dias sem dar ou receber notícias. "Ficar incomunicável, como as pessoas no navio em Yokohama, me apavora. E o cruzeiro termina lá".

A companhia já havia mudado o itinerário da viagem —que inicialmente passaria por Shenzen (China), Taiwan e Hong Kong— para Emirados Árabes, Vietnã e Tailândia.

Gilvânia e amigos que iriam com ela conseguiram reembolso do cruzeiro e agora tentam o estorno das passagens aéreas. "Era um sonho conhecer o outro lado do mundo, já estávamos arrumando as malas, mas ele foi adiado", diz.

Ela e seu grupo têm outro cruzeiro comprado, para a Europa, em setembro, que esperam conseguir manter.

Segundo a Clia Brasil (associação de cruzeiros marítimos), os países que negaram a atracação de navios com casos possíveis do coronavírus "estão contra os acordos internacionais sobre política marítima, e até mesmo contra questões dos acordos de saúde internacionais". A entidade afirma há conversas ocorrendo para evitar que esses casos se repitam.

Além de mudar itinerários, as companhias de cruzeiro afirmam que reforçaram a limpeza dos navios.

Na Costa Cruzeiros, passageiros ou tripulantes que viajaram para a China, ou que tiveram contato com casos suspeitos ou confirmados de covid-19 nos 14 dias anteriores ao embarque, não podem entrar nos navios. Na MSC, a lista inclui também Irã, Coreia do Sul, Japão e Singapura. Nos cruzeiros da companhia Norwegian, não viaja quem esteve na China em até 30 dias antes da saída do navio.

Na Costa e na MSC, pessoas de dez cidades da região da Lombardia e uma do Vêneto, na Itália, também não podem embarcar. As cidades são pontos críticos da contaminação pelo vírus no país europeu.

Antes de começar o cruzeiro, os passageiros passam por medição de temperatura e, caso apresentem febre ou outros sintomas do novo coronavírus, são barrados.

As companhias estão facilitando o cancelamento ou a alteração da viagem para quem comprou cruzeiros que sofreram alterações nos itinerários por causa da doença.

Essas medidas também são adotadas em cruzeiros fluviais. A Uniworld, que tem itinerários por Europa, Ásia e África, reforçou medidas de vigilância sanitária, segundo Beatriz Camargo, diretora para o Brasil da The Travel Corporation, que detém a Uniworld.

O advogado Fabrício Passos Magro, 35, presenciou a atenção com o coronavírus em sua viagem no MSC Poesia, de Santos até Buenos Aires, feita na semana passada.

"A tripulação estava mais cuidadosa que o normal. Na entrada de restaurantes e locais de aglomeração sempre tinha tripulante borrifando álcool gel nas mãos das pessoas, querendo elas ou não."

Segundo Magro, seu quarto era limpo duas ou três vezes por dia, e pegadores de comida, nos bufês, eram trocados com frequência. Ele também passou por uma câmera que registrava a temperatura dos passageiros no embarque.

A MSC afirma que os cruzeiros que estão na costa brasileira seguem a programação prevista e que não houve impacto nas reservas.

Para médico, epidemia do pânico é pior do que a da doença

Para o médico Marcos Vinícius da Silva, do Instituto de Infectologia Emilio Ribas, não há motivo para pânico ou para cancelar viagens.

Segundo ele, navios são ambientes propícios para a disseminação de doenças respiratórias por serem espaços de confinamento por períodos longos. Porém, o vírus influenza, da gripe, representa ameaça maior que o novo coronavírus, já que sua transmissão é mais fácil e rápida.

A covid-19 tem taxa de letalidade de cerca de 3,5%, e 80% dos doentes se recuperam sem tratamento específico, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde). O risco cresce para maiores de 60 anos (letalidade de 8,8%) e para quem tem doenças que comprometem a imunidade.

Silva explica que a melhor forma de se prevenir do covid-19, e da gripe, é evitar levar as mãos ao rosto e sempre lavá-las com água e sabão quando entrar em contato com superfícies tocadas por outras pessoas, como corrimões e botões de elevador.

"A maioria das pessoas não sabe lavar as mãos, não é uma passada rápida de água", diz. É preciso usar sabão e esfregar primeiro a parte de trás, depois entre os dedos e os polegares, então as palmas, o pulso e novamente a parte de trás.

Para o médico, o alarme em torno da doença diminuirá quando a OMS declarar estado de pandemia, o que significaria que a doença está presente em todos os continentes.

"As pessoas vão ver que a maioria dos infectados nem vai saber que teve o vírus. A epidemia do pânico é pior do que a da doença", afirma.

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