Descrição de chapéu The Washington Post

Como os cruzeiros lidam com quarentenas para conter o coronavírus

Até quinta (6), mais de 7.500 pessoas estavam isoladas em navios na costa do Japão e de Hong Kong

Pessoas em sacada de navio

Passageiros nas sacadas de suas cabines no navio Diamond Princess, que está ancorado no porto de Yokohoma (Japão), em quarentena Kazuhiro Nogi/AFP

Hannah Sampson
The Washington Post

Ao longo da semana passada, o setor de cruzeiros começou a enfrentar uma nova ameaça, que está se espalhando rapidamente e deixou milhares de passageiros em quarentena em navios, e tornou o setor parte do crescente pânico mundial sobre a saúde.

A confirmação de que passageiros de navios de cruzeiro eram portadores do novo coronavírus também serviu como lembrete dos riscos associados a confinar milhares de pessoas em espaços apertados por períodos prolongados.

Em um artigo publicado em 2014 pelo site Daily Beast, Kent Sepkowitz, especialista em doenças infecciosas, escreveu que havia lidado com a gripe, tuberculose, antraz e ebola sem qualquer pânico.

“Mas existe uma coisa que me apavora mortalmente, um lugar que é tão ameaçador, tão repleto de organismos contagiosos, que não consigo acreditar que seja um setor econômico que movimenta US$ 36 bilhões anuais —e é um lugar a que as pessoas pagam para ir”, ele escreveu na época, durante uma epidemia de um norovírus gastrointestinal: “Estou falando dos navios de cruzeiro”.

Depois que a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou que o novo coronavírus originário de Wuhan, China, constitui uma emergência mundial de saúde pública, na semana passada, a Cruise Lines International Association anunciou novas restrições com o objetivo de manter os navios de cruzeiro livres da doença.

A China reportou mais de 28 mil casos confirmados de infecção pelo coronavírus, e mais de 560 mortes.

As medidas incluem não permitir o embarque de qualquer pessoa que tenha estado na China nos 14 dias anteriores. Algumas das companhias de cruzeiros foram ainda mais longe e estenderam o período para 15 ou até 30 dias, e adotaram medidas adicionais de controle de saúde para seus passageiros e tripulantes antes do embarque.

As operadoras também anunciaram mudanças nos itinerários planejados, e desviaram navios de portos nas áreas afetadas, o que inclui Hong Kong e a China continental.

Mas essas medidas provaram ser insuficientes ou talvez tenham sido adotadas tarde demais. Eis o que transcorreu nos últimos dias:

Perguntas e respostas 

–Há quarentenas em curso em navios de cruzeiro por conta do novo surto do coronavírus?

Até a quinta-feira (6), mais de 7.500 pessoas estavam em quarentena em navios ao largo das costas do Japão e de Hong Kong —algumas em quarentenas severas por duas semanas e outras aguardando resultados de testes e instruções adicionais vindas de terra.

O navio Diamond Princess, da Princess Cruises, uma empresa controlada pela Carnival Corp., foi instruído a manter seus passageiros a bordo por duas semanas, depois que 40 pessoas foram apanhadas em testes do coronavírus, até agora.

O problema surgiu quando um passageiro que fez um cruzeiro do Japão a Hong Kong entre os dias 20 e 25 de janeiro foi identificado como portador do coronavírus seis dias depois de deixar o navio. As autoridades do Japão começaram a testar os atuais passageiros na segunda-feira, e até a quarta-feira já estava confirmado que 10 pessoas portavam o vírus; elas foram encaminhadas aos hospitais. Outros 171 passageiros estavam aguardando os resultados de testes.

As 40 pessoas doentes incluem 21 passageiros japoneses, oito americanos, cinco canadenses, cinco australianos e um britânico.

Os demais passageiros —mais de 3.700— estão sendo forçados a ficar em suas cabines no navio por duas semanas; o navio está ao largo de Yokohama, na costa japonesa.

Um segundo navio, o World Dream, também está passando por quarentena ao largo de Hong Kong, à espera de resultados de testes de seus tripulantes, depois que três passageiros que navegaram nele entre 18 e 24 de janeiro foram identificados como portadores do vírus. O navio, que tem mais de 3.800 passageiros e tripulantes a bordo, pertence à Dream Cruises.

A companhia informou em comunicado na quinta-feira que 33 tripulantes que se queixaram de sintomas, entre os quais tosses, dores de garganta e febre, haviam sido testados e não portavam o coronavírus. Um novo tripulante que apresentou sinais de febre na quarta-feira foi conduzido a um hospital e está aguardando resultados de exames.

Nenhum passageiro ou tripulante pode deixar o navio até que os resultados sejam confirmados.

Edith Poon, porta-voz da companhia, informou em e-mail que as verificações de saúde dos passageiros continuam em curso no navio. “Estamos esperando instruções do Departamento de Saúde sobre licença para desembarcar”, disse.

Taiwan proibiu navios internacionais de cruzeiro de atracar no país, na quinta-feira, de acordo com a agência de notícias Reuters. E o primeiro-ministro do Japão declarou no mesmo dia que os estrangeiros não seriam autorizados a desembarcar do navio Westerdam, da Holland America Line, que zarpou de Hong Kong no sábado, a não ser que existam razões especiais para o desembarque.

Erik Elvejord, um porta-voz da empresa, anunciou em comunicado que os 2.257 passageiro e tripulantes tinham paradas programadas em diversos portos do Japão, antes do final do cruzeiro em Yokohama, em 15 de fevereiro.

“Estamos trabalhando rapidamente para desenvolver planos alternativos e manter os passageiros atualizados, a bordo, assim que informações estiverem disponíveis”, afirmou em comunicado, acrescentando que o navio não estava sob quarentena e que não havia casos conhecidos de coronavírus a bordo até aquele momento.

A rede de TV Australian Broadcasting Corporation reportou que o navio não foi autorizado a fazer uma parada programada nas Filipinas, mais cedo na semana.

Na semana passada, 6.000 pessoas foram forçadas a permanecer a bordo do Costa Esmeralda, ao largo de Civitavecchia, na Itália, enquanto as autoridades aguardavam resultados de exames em dois passageiros. Os dois tinham gripe. E um navio de Aida Cruises não foi autorizado a visitar St. Lucia no final de semana passado porque algumas pessoas a bordo tinham infecções em seus aparelhos respiratórios superiores, reportou a rede de TV Fox News.

Colocar todo um navio de cruzeiro em quarentena pode parecer “um pouco extremo”, diz Paola Lichtenberger, especialista em doenças infecciosas na Escola Miller de Medicina, Universidade de Miami. Mas ela disse que as autoridades estavam tomando “medidas desesperadas para conter a doença”.

–Como a doença se propaga em um navio de cruzeiro?

O CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças, na sigla em inglês) dos Estados Unidos define uma “combinação única de preocupações de saúde”, para os passageiros de navios de cruzeiro, que se congregam em espaços relativamente pequenos para refeições, entretenimento, recreação e outras atividades.

“Viajantes de diversas regiões em estreita proximidade nos ambientes muitas vezes lotados e semifechados dos navios podem facilitar a difusão de pessoa a pessoa, e via alimentos ou via água”, a agência informa. “Surtos em navios podem se sustentar por múltiplas viagens, por transmissão entre membros da tripulação que permaneçam a bordo ou por contaminação ambiental persistente”.

Embora o setor de navios de cruzeiro aponte para seus procedimentos de controle de saúde, limpezas frequentes, inspeções e instalações médicas a bordo como passos para manter a saúde dos passageiros e da tripulação, especialistas dizem que continua difícil impedir que doenças altamente contagiosas se espalhem.

“Em um navio, você está em uma pequena cidade onde toda a população vive, no máximo, a 800 metros uns dos outros, se tanto”, disse Gary Simon, diretor da divisão de doenças infecciosas e professor de medicina na Escola de Medicina e Ciências da Saúde na Universidade George Washington. Os maiores navios de cruzeiro têm menos de 40 metros de comprimento, ainda que tenham mais de uma dúzia de conveses.

"Estamos falando de grandes navios, sei disso. Mas as pessoas estão em contato muito próximo umas com as outras, e a menos que você vá permanecer em sua cabine o tempo todo haverá algum grau de exposição”.

-Não é costumeiro que pessoas adoeçam a bordo de navios de cruzeiro?

Diversas vezes por ano, surtos de doenças estomacais acontecem em navios, em incidentes muito divulgados, o que leva muita gente a prometer que jamais se deixará apanhar em um cruzeiro.

No ano passado, aconteceram 10 desses incidentes, mas a porcentagem dos passageiros a bordo que adoece é relativamente baixa. O CDC —que divulga publicamente informações sobre surtos de doenças gastrointestinais— aponta que embora instalações de saúde, restaurantes e escolas sejam outros ambientes comuns para difusão de norovírus, a doença é conhecida como “vírus dos navios de cruzeiro”.

Mas a agência aponta que doenças respiratórias são a queixa médica mais comum nesses navios, e que a gripe é a doença evitável por vacinação mais comumente encontrada a bordo.

–Em que o novo coronavírus difere de outras doenças que tenham se manifestado em navios de cruzeiro?

Muitas incógnitas estão dificultando o combate à doença, especialmente a bordo de navios de cruzeiro. O CDC diz que ainda não se sabe com que facilidade o coronavírus é transmitido de pessoa a pessoa, se alguém pode contraí-lo tocando uma superfície ou objeto contaminado pelo vírus, e em seguida tocando o próprio nariz, olhos ou boca, ou se pessoas podem ser contagiosas ainda que não exibam sintomas.

–Que medidas os navios de cruzeiro estão tomando para conter a difusão?

Em geral, as companhias de navegação estão tentando impedir o embarque de pessoas que podem portar a doença. Embora o padrão geral seja o de que qualquer pessoa que tenha viajado à China nos últimos 14 dias não tenha autorização para embarcar, algumas linhas estão estendendo ainda mais esse prazo, para 15 ou até mesmo 30 dias, para seus passageiros e tripulantes.

As verificações de saúde estão sendo reforçadas, e navios evitam atracar em portos onde a doença esteja se espalhando rapidamente.

As operadoras de cruzeiros também estão colocando em operação procedimentos de limpeza e saneamento mais rigorosos.

–O que os viajantes podem fazer para se proteger a bordo?

Lichtenberger diz que pessoas especialmente vulneráveis —o que inclui mulheres grávidas, crianças pequenas, adultos com mais de 60 anos e pacientes de doenças crônicas ou que causem supressão do sistema imunológico— devem evitar viagens em navios de cruzeiro ou aviões em áreas nas quais haja surtos em curso.

Aqueles que realizarem cruzeiros, diz Simon, devem lavar as mãos frequentemente e evitar levá-las a suas bocas. Ele disse que embora uma máscara não seja forma garantida de evitar doenças, pode se provar útil.

“Um dos benefícios de usar uma máscara é que você não toca seu rosto constantemente”, ele diz.

As regras do CDC para prevenir a difusão de doenças semelhantes à gripe entre tripulantes de navios de cruzeiro recomendam que esses trabalhadores se mantenham a pelo menos dois metros de distância de pessoas doentes, interajam com passageiros doentes pelo tempo mais curto que puderem, e que o número de tripulantes que interagem com pessoas infectadas seja limitado.

A agência também recomenda o uso de um desinfetante com base em álcool para lavar as mãos, se não houver água e sabão disponíveis.

–O que os passageiros de um navio de cruzeiro em quarentena fazem o dia todo?

No Diamond Princess, os passageiros estão recebendo comida em suas cabines e “atividades e entretenimento são fornecidos”, disse Negin Kamali, porta-voz da Princess Cruises.

Algumas pessoas a bordo descreveram dias passados assistindo televisão ou filmes, sentadas em suas sacadas (se a cabine tiver uma), conversando com outros passageiros ao telefone e —​em alguns casos— fazendo vídeos sobre sua situação.

Os passageiros têm serviços de internet e telefone gratuitos para manter contato com a família e amigos, mas descreveram a sensação como a de estar na prisão. Uma mulher disse que os passageiros não têm autorização para fumar, o que ela afirmou a estar “crucificando”.

No World Dream, as atividades foram restringidas e verificações de saúde estão sendo conduzidas nas cabines a fim de evitar ao máximo que os passageiros se congreguem, informou a companhia em comunicado.

O Wi-Fi é grátis e máscaras estão disponíveis para os passageiros que as desejem, segundo a Dream Cruises. Tripulantes estão ajudando as famílias de nove crianças com idade inferior a dois anos que estão a bordo do navio a obter suprimentos.

E os tripulantes do navio de cruzeiro?

Os tripulantes do Diamond Princess não estão em quarentena a bordo, disse Kamali. Estão entregando três refeições diárias aos passageiros e realizando trabalhos adicionais de limpeza e saneamento.

De acordo com a companhia, o navio zarpou equipado para “conduzir operações marítimas normais”, e vem se abastecendo de comida e suprimentos em Yokohama.

O Wall Street Journal descreveu trabalhadores em trajes de proteção limpando maçanetas de portas e outras superfícies, monitorando os movimentos dos passageiros e atendendo a pedidos dos passageiros quanto à obtenção de remédios vendidos sob receita.

Tradução de Paulo Migliacci

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