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Coronavírus

Depoimento: De carona no vírus, vivi dias de sonho e distopia na Ásia

Monumentos vazios e serviços com preços lá embaixo foram ponto alto da viagem

Sudeste asiático

O tempo todo, a sensação era a de estar na contramão, chegar quando todos parecem querer fugir. Viajar pela Ásia em tempos de coronavírus é viver momentos sublimes, de paz diante de paisagens estonteantes, e outros que parecem saídos de um pesadelo, a distopia de ficção científica tornada realidade sem o menor glamour.

Estive na Malásia, na Tailândia, no Vietnã e no Camboja no mês passado, ao longo das semanas em que a epidemia que hoje se alastrou para quase todos os cantos do globo ainda dava seus primeiros passos para fora da China, onde se deu o primeiro surto.

Monges observam as ruínas de Angkor Wat, cidade de templos construída no interior do Camboja
Monges observam as ruínas de Angkor Wat, cidade de templos construída no interior do Camboja - Anekoho/Adobe Stock

O noticiário ao longo do trajeto, de aeroporto em aeroporto, hotel em hotel, subia cada vez mais o tom —tantos contaminados aqui, casos suspeitos ali, contágio mais acelerado em tais lugares. Telejornais falavam em mercados derretendo, bolsas de valores em queda livre nos gráficos, enquanto o drama dos passageiros em quarentena a bordo de um cruzeiro na costa japonesa ganhava os contornos de uma horrível telenovela.

Mas, do lado de fora da janela do quarto em Phuket, a ilha no sul da Tailândia famosa por praias que já foram cenário de filme, reinava uma paz estranha, como se aquele mundo em pânico que se desenhava nos boletins da CNN também fosse coisa de ficção.

O importante eram os bons drinques à beira da piscina debruçada sobre o mar cintilante lá fora —com a debandada dos turistas, em especial das hordas de chineses, o preço das diárias de hotéis antes impraticáveis sofreu a mesma queda dos índices do mercado financeiro, talvez um dos primeiros pontos positivos a destacar em toda a epidemia.

Isso, e a ausência de multidões fazendo selfies em pontos disputados de qualquer roteiro pela região, correspondem ao lado paraíso da viagem. Já os saguões de embarque dos aeroportos, cheios de rostos escondidos atrás de máscaras cirúrgicas, lembravam tristes ambulatórios hospitalares —sem dúvida, o momento pesadelo do rolê.

No aeroporto de Kuala Lumpur, o primeiro contato com a realidade de uma epidemia —na fila da imigração, ocidentais se esquivavam dos recém-chegados de voos da China, muitos deles trajando assustadoras luvas de látex além da máscara default, um acessório que sem demora ganhou várias releituras haute couture pela indústria da moda.

Mas a cidade lá fora reluzia numa exuberância —quase— normal. Uma espécie de mini-Dubai nos confins do Sudeste Asiático, a capital da Malásia é conhecida por seus arranha-céus de gosto duvidoso equilibrando bares na cobertura.

Na entrada de um deles, um segurança mede a temperatura da minha testa antes de me liberar para tomar uma tacinha de sauvignon blanc diante da vista da metrópole e à beira de uma piscina cheia de luzes coloridas que piscam.

Estranhos momentos plantão médico deslocado para vida noturna como esse se repetiram ao longo da viagem. Em Bancoc, a flamejante capital da Tailândia, aconteceu pelo menos outras duas vezes na entrada de bares de coquetéis da moda —era a hora em que o paraíso desbravado na ressaca do coronavírus roçava o pesadelo da doença.

Na doce vertigem das férias, tentava não pensar, por exemplo, se aquela hora que uma mulher tossiu em mim na saída do restaurante teria sido o microssegundo decisivo para que eu também entrasse para o rol das vítimas. Mas passar por um check-up obrigatório na porta de cada boteco me deu a certeza que, pelo menos, não estava com febre, o sintoma claro do contágio.

Também a etiqueta passa por uma transformação, e o jeito de cumprimentar dos orientais, sem beijinhos e apertos de mão, vinha a calhar em tempos de isolamento forçado —ninguém se ofende se você não chegar perto.

O ápice disso foi chegar às ruínas de Angkor Wat, a enorme cidade de templos construída no interior do Camboja no século 12, e andar horas e horas a pé ou de tuc-tuc sem ver viva alma, a não ser os macaquinhos que fazem da floresta ao redor a sua morada.

Qualquer guia de viagem alerta para as aglomerações dantescas que ofuscam a aura daqueles templos. Na era coronavírus, eles estão lá intocados, numa placidez gloriosa.

Siem Reap, a cidade-base para explorar as ruínas, ecoava esse deserto. Bares vazios, hotéis idem, todos eles jogando os preços das diárias lá embaixo. Ali, onde então só um caso da doença havia sido confirmado, a desvalorização brutal do real não fazia tanta diferença, já que os preços são mesmo surreais. Nada mais belo que um gim tônica a preço de Coca-Cola numa espreguiçadeira à beira da piscina entre uma e outra visita às ruínas e seus macaquinhos.

PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE O CORONAVÍRUS

Devo cancelar uma viagem por causa do cornavírus? Depende. A recomendação do Ministério da Saúde é avaliar se a viagem para locais com muitos casos da doença, como China e Itália, é mesmo necessária

Seguro-viagem cobre internação e tratamento para o coronavírus? As empresas de seguro, em geral, cobrem atendimento inicial em caso de suspeita da doença. Porém, a incidência de uma epidemia no local de destino não está entre os motivos que justificam cancelamento da viagem nos contratos do seguro

Como está o contágio da doença na Itália? O país implementou na terça (10) restrições de viagem em todo o país. As regras impedem que as pessoas saiam das regiões onde vivem. A Itália é o segundo país onde o coronavírus mais matou, perdendo só para a China. Na terça (10), eram 631 vítimas e 10.149 infectados

Como é feito o controle nos aeroportos brasileiros? Segundo a Anvisa, o Brasil não adota a medição de temperatura no desembarque de passageiros em aeroportos. Porém, a agência ressalta que as companhias aéreas têm autonomia para impedir o embarque de passageiros que apresentem uma ameaça

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