Retomada do diálogo com Pyongyang traz alívio aos coreanos

Crédito: Ahn Young-joon - 14.jan.2018/Associated Press Famílias pela cerca onde são colocadas fitas de desejo de unificação das Coreias em Paju
Famílias pela cerca onde são colocadas fitas de desejo de unificação das Coreias em Paju

HAK YOU KIM
ESPECIAL PARA A FOLHA

Uma eventual guerra na península coreana não deixaria nenhum vencedor e suas consequências são inimagináveis para o mundo.

Os coreanos, após um turbulento período no início do século 20, que se seguiu aos 35 anos de invasão pelo Japão, se viram mergulhados em uma guerra civil que ceifou mais de um milhão de vidas, entre 1950 e 1953, e testemunharam a divisão do seu território —depois de 5.000 anos de história na península Coreana.

Em que pese toda essa herança de dor e perdas, a determinação do povo coreano transformou um país que, em 1945, ao ser libertado do domínio japonês, tinha renda per capita inferior a US$ 65 e dois terços da população analfabeta, em uma nação industrializada e produtora de tecnologia de ponta, hoje com renda per capita de US$ 27 mil e dois terços dos jovens do ensino médio ingressando no ensino superior.

Ademais, a Coreia do Sul também tem demonstrado possuir uma democracia madura. Em 2017, a presidente Park Geun-hye sofreu impeachment por acusações de abuso de poder e corrupção, tendo sido presa no dia 31 de março de 2017 por determinação da Justiça coreana. Nas eleições antecipadas, o presidente Moon Jae-in foi eleito e assumiu imediatamente.

As instituições coreanas foram capazes de funcionar adequadamente e a Justiça respondeu às exigências fundamentais de investigação e punição da corrupção sem que houvesse abalos na vida democrática ou econômica.

Nos últimos anos, os coreanos têm vivido cotidianamente um clima de insegurança, tendo em vista as provocações do regime norte-coreano e a escalada retórica dos principais atores envolvidos no conflito da região.

Sendo assim, iniciativas para diminuir a tensão na península Coreana e para enfrentar o avanço nuclear da Coreia do Norte são positivas. Assim deve ser entendida a reunião de alto nível, realizada no dia 9 de janeiro na Vila Panmunjom, na zona desmilitarizada entre os dois países. Foi o primeiro contato bilateral após um longo intervalo de dois anos e um mês.

As duas Coreias anunciaram conjuntamente, após 11 horas de reunião, que o Norte participaria dos Jogos Olímpicos de Inverno na cidade de Pyeongchang, no Sul, e que os dois países iniciariam diálogo entre autoridades militares e negociações visando discutir assuntos relacionados à península Coreana.

Há a sugestão de que os dois países façam juntos uma apresentação cultural na abertura dos Jogos de Inverno para simbolizar o desejo de união e paz dos coreanos.

Em concreto, os dois países religaram a linha telefônica direta de seus escritórios de comunicação em Panmunjom e a linha de comunicação militar na região do mar do Oeste da península, suspensas desde fevereiro de 2016. Essas linhas de comunicação representam um sistema de segurança preventivo, evitando que uma situação acidental possa evoluir para um conflito armado e para incidentes que aumentem um risco de guerra.

O reinício de um diálogo militar entre os dois países é um resultado importante e valioso para aliviar a tensão na península Coreana.

O presidente Moon Jae-in já havia anunciado em Berlim, no ano passado, sua intenção de realizar todos os esforços possíveis para soluções negociadas e diplomáticas na península Coreana.

Entretanto, a disposição do governo sul-coreano para o diálogo foi prejudicada pelas constantes provocações da Coreia do Norte e pelo aumento da tensão militar na região. O governo Moon deu apoio incondicional e participou ativamente de todas as medidas dos aliados e da comunidade internacional para impor sanções ao Norte.

A importância do diálogo e dos canais diplomáticos nunca deixou de ser considerada, porém, sempre em acordo com as medidas para conter o avanço nuclear do Norte. Assim, o convite para que os norte-coreanos participem dos Jogos de Inverno constitui parte do esforço da Coreia do Sul de buscar canais de diálogo, facilitado pelo sinal emitido pelo discurso de Ano-Novo do líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un.

Embora tímidos, tais esforços representam grande alívio para a sociedade coreana, que vislumbra nesta e em outras iniciativas e medidas a possibilidade de um acordo que leve à pacificação da região. O desejo dos coreanos por estabilidade e paz, não obstante os imensos obstáculos, é o que move a política do presidente Moon.

HAK YOU KIM é cônsul-geral da República da Coreia em São Paulo

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