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Polêmica fez Stálin voltar à moda; conheça fatos sobre o ditador

Caetano Veloso elogiou filósofo que fez apologia do regime de terror do líder soviético

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São Paulo

Um georgiano de má fama, Ioseb Besarionis Djugachvili (1878-1953), está na moda no Brasil, após décadas de ostracismo.

Como define a veneranda “Encyclopaedia Britannica”, ele foi líder político que influenciou o maior número de indivíduos em um país.

Mulher passa na frente do túmulo de Stálin, nas muralhas do Kremlin, centro de Moscou - Iuri Kadobnov - 30.jul.2020/AFP

Ou, no caso, nos vários que compunham a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas que Djugachvili, mais conhecido como Josef Stálin, ajudou a construir a ferro, fogo e muito sangue no século 20.

Sua volta momentânea ao estrelato, 64 anos após ter seus crimes revelados ao mundo pelo sucessor, é cortesia de mais uma “treta da internet”, como dizem.

Em entrevista ao jornalista Pedro Bial, o cantor Caetano Veloso disse que revia sua vocação liberal em favor de uma maior simpatia pelo socialismo.

O motivo, uma indicação feita por um historiador youtuber, Jones Manoel, de leitura do filósofo marxista italiano Domenico Losurdo (1941-2018).

Um crítico ácido do liberalismo, Losurdo por acaso também era um apologista de Stálin. O próprio Manoel é chamado de stalinista, o que rejeita apesar de emular o italiano em sua admiração pelos feitos do ditador soviético.

Seguindo uma certa tradição acadêmica europeia, Losurdo sustentava que um dos maiores homicidas da história seria perdoável pelos seus feitos.

Foi o suficiente para uma grande agitação à esquerda, no Brasil sempre mais afeita a Leon Trótski do que a Stálin, e à direita, que tascou o rótulo de stalinista em Caetano.

Pouco sobrou, no alarido virtual, sobre quem foi e o que fez Stálin. A partir do trabalho maiúsculo de historiadores como Stephen Kotkin, Dmitri Volkogoronov, Sheila Fitzpatrick, Simon Sebag Montefiori e outros, um resumo pode ser encontrado a seguir.

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Stálin não se chamava Stálin e não era russo – Ioseb Besarionis Djugachvili nasceu em 1878 em Gori, na Geórgia, então parte do Império Russo. Ele só aprendeu o russo aos nove anos, na escola religiosa. Era chamado de Soso, diminutivo de Iosef, a forma russa de seu nome. Ao longo de sua agitada carreira política, teve diversos codinomes, o mais usual Koba, um personagem vingador da literatura. Em 1913, já no Comitê Central do Partido Bolchevique de Vladimir Lênin (que também não se chamava Lênin, codinome que remete a um rio da Sibéria, mas Ulianov), adotou de vez o sobrenome Stálin (“feito de aço”).

Stálin quase foi um padre - Depois de estudar na escola religiosa de Gori, Stálin foi para o seminário de Tíflis (atual Tblisi), onde ficou de 1894 a 1899, até deixar a carreira por ser ateu, ter envolvimento com gangues e estudar marxismo.

A infância não foi fácil - Stálin teve varíola aos seis anos, que lhe deixou cicatrizes no rosto –o que o fez ser pioneiro, no poder, do que hoje chamamos de Photoshop. Era obcecado com sua baixa altura (1,62 m). Tinha dois dedos grudados no pé esquerdo e, atropelado por uma carruagem aos 12 anos, praticamente perdeu a utilidade do braço esquerdo. Alcoólatra, seu pai o espancava.

Só teve um emprego fora da política - Ao deixar o seminário em 1899, Stálin trabalhou brevemente no Observatório de Tíflis. Embora algumas fontes o descrevam como meteorologista, tudo indica que só fazia um trabalho administrativo.

Ele roubou para o partido - Stálin aderiu ao Partido Social Democrata em 1900 e, três anos depois, migrou para a facção bolchevique, comandada por Lênin. Baseado em Tíflis, protagonizou sequestros e assaltos a bancos para bancar a atividade política.

Cadeia e exílio eram com ele - Nos primeiros anos de atividade revolucionária, de 1900 a 1917, foi preso e exilado sete vezes na Sibéria.

Os brutos também amam - Stálin ficou alquebrado com a morte de sua primeira mulher, Ekaterina, provavelmente por tifo em 1907. A relação com a segunda mulher, Nadejda, foi complicada: casaram em 1919 e tiveram dois filhos, Iacov e Svetlana, mas a coleção de amantes e diferença políticas levaram a esposa a se matar em 1932.

Pais e filhos - Além dos filhos naturais, Stálin também adotou um garoto, Artiom. A relação com Iacov sempre foi ruim, e quando ele foi preso pelos nazistas na Segunda Guerra, o pai se negou a negociar sua libertação –ele morreu preso em 1943. Já com Svetlana alternou momentos ternos e de frieza; em 1967 ela fugiu para os EUA.

Seu papel na Revolução Russa foi pequeno - Apesar de ser da confiança de Lênin, Stálin não esteve no centro nem do movimento que derrubou o czar em fevereiro de 1917 nem no golpe bolchevique de novembro (outubro no antigo calendário gregoriano), que a história dos vencedores marcou como a Revolução Russa.

Sua ascensão foi meteórica - Com destaque na guerra civil (1917-22) que criou a União Soviética, Stálin subiu com o apoio de Lênin, que o fez secretário-geral do Partido Comunista em 1922. O derrame do líder naquele ano deu largada à disputa pelo poder.

Seu grande inimigo foi Trótski - Leon Trótski era o herdeiro presumido de Lênin, mas cometeu o erro de considerar Stálin burro por não ser um intelectual. Foi, ao lado de outros líderes, tratorado pelo georgiano a partir de 1924, quando Lênin morreu.

Ele criou um Estado personalista - A partir de 1927, Stálin consolidou seu poder, expulsando Trótski e outros do comando do país. O rival seria deportado em 1929 e, em 1940, morto a mando do líder. O culto à personalidade foi incentivado, inicialmente atrelado à figura de Lênin.

Lênin não o queria no poder - O chamado testamento de Lênin foi lido por sua viúva, embora historiadores não tenham certeza de que as palavras eram mesmo do revolucionário. Nele, Stálin é descrito como rude e inapto para liderar o país.

Stálin era um leitor obsessivo - Ao fim de sua vida, Stálin tinha uma biblioteca de 20 mil títulos. Biógrafos afirmam que ele era um autodidata rigoroso e promovia escritores afinados com a ideologia socialista, da qual fazia uma leitura afinada a seus objetivos.

E gostava mesmo de faroestes - Stálin dizia que o cinema era a mais alta forma de arte e tinha predileção por faroestes americanos. Chegou a sugerir que o ator John Wayne deveria ser assassinado, por ser uma ameaça à cultura comunista.

Ele tirou a União Soviética do século 19 - Rejeitando a ideia de uma revolução internacional, focou a retirada de seu país do semifeudalismo do império. De 5º país em produção industrial do mundo em 1913, passou a 2º em 1937. Em 1949, virou a segunda potência nuclear do mundo.

Mas os dados enganam - Se o crescimento soviético é inegável, economistas apontam para o fato de que ele se retroalimentava: não havia produção de bens de consumo, apenas reinvestimento em indústria e no complexo militar. A agricultura era sustentada também, por ineficaz.

Houve ganhos sociais - Alfabetização, urbanização e saúde infantil avançaram com a oferta maior de serviços públicos, embora os dados daquela época sejam poucos confiáveis. A mortalidade infantil teria caído à metade de 1913 a 1931, por exemplo.

Mas o custo humano foi enorme - A coletivização da agricultura gerou uma das maiores catástrofes humanitárias da história, a grande fome de 1932-33. Centrada na Ucrânia, historiadores se dividem se ela foi provocada intencionalmente por Stálin ou foi resultado de mera inépcia. Cerca de 4 milhões de ucranianos morreram.

A brutalidade era a norma, e o modelo faliu - Nos primeiros planos quinquenais, cotas absurdas de produtividade eram estipuladas. Operários que não as alcançassem eram vistos como sabotadores e executados. A polícia secreta foi estruturada como parte central da burocracia. A isso se somou uma economia que, nos anos 1980, estava tão esgotada quanto o sistema político, sucumbindo de forma vertiginosa apesar do poderio aparente.

Stálin foi um dos grandes homicidas da história - A conta usual coloca 20 milhões de soviéticos mortos pela repressão stalinista. Em 2011, um estudo baixou o número pela metade, tentando refinar critérios. Houve deportações de populações inteiras, como os tártaros da Crimeia ou os tchetchenos, campos prisionais atrozes e expurgos políticos.

O Grande Terror de 1936-38 - A crueldade de Stálin atingiu um ápice na campanha para expurgar seus últimos adversários e a liderança militar do país, que custou a morte de 90% dos altos oficiais às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Foram mortas 800 mil pessoas, a maioria executada após julgamentos farsescos.

O pacto com Hitler quase lhe custou o país - Em 1939, um acordo secreto com os nazistas permitiu a partilha da Polônia e a absorção dos Estados Bálticos e partes da Romênia e da Finlândia, em troca do sinal verde para Hitler guerrear. Em 1941, fracassada uma extensão mundial do pacto, os alemães invadiram violentamente a União Soviética, só parando às portas de Moscou.

A violência levou à vitória, ao fim - Estima-se que 150 mil soldados soviéticos tenham sido fuzilados em 1941 por fugir de batalhas. O uso intensivo de sua mão de obra militar por fim repeliu os nazistas e permitiu a conquista de Berlim, mas o preço foi enorme: 27 milhões de mortos, 18 milhões deles civis.

Stálin jantava os aliados na guerra - Relatos dos encontros de cúpula entre o soviético, o britânico Winston Churchill e o americano Franklin Delano Roosevelt apontam que Stálin conseguia sempre os vencer na argumentação. O sagaz Churchill fazia mais concessões ao ser embebedado.

Ele foi o pai da Guerra Fria - Mantendo suas forças de ocupação e aliados comunistas no Leste Europeu, Stálin montou o arcabouço da Guerra Fria. Ele não buscava a conquista mundial, e sim manter uma confortável zona tampão na Europa entre suas forças e a dos novos rivais. Tratou o dissenso duramente: quando a Iugoslávia se colocou como comunista não-alinhada a Moscou, em 1948, houve uma caça às bruxas nos outros países do bloco. Por fim, obteve a bomba atômica em 1949.

O ditador nunca foi um líder libertário - O argumento de que os movimentos anticolonialistas tiveram raízes no stalinismo não se sustenta. O líder enterrou a Internacional Comunista em 1943 para agradar os aliados ocidentais e nunca se preocupou com o conceito de revolução mundial. Dentro do seu partido, executou os dissidentes e encerrou o dito centralismo democrático da Revolução.

Stálin era brincalhão, mas de gosto duvidoso - Relatos mostram que o líder gostava de fazer piada com seus hóspedes, mas sempre do tipo depreciativo: tirava sarro da gagueira do poderoso chanceler Viacheslav Molotov, por exemplo.

Stálin foi morto? - A morte do ditador ocorreu num momento em que sua paranoia estava voltando a explodir, com os julgamentos falsos de um suposto complô de médicos, a maioria judeus, para matar a cúpula soviética. É notório que líderes à sua volta temiam sofrer o mesmo destino, o que torna o derrame sofrido por Stálin em 1953 suspeito para alguns historiadores.

Krushchov enterrou o mito (e o corpo) - Em 1956, consolidado como líder soviético, Nikita Krushchov fez o famoso discurso secreto no qual aponta os crimes do stalinismo. O impacto foi enorme no país e no exterior, levando a rachas com a China de Mao Tsé-Tung e em meios acadêmicos europeus —com reflexos até hoje, como a polêmica brasileira mostra. Em 1961, até a múmia de Stálin, que dividia o mausoléu com a de Lênin, foi enterrada junto à muralha do Kremlin.

Suas estátuas sumiram - A desestalinização o fez sumir do cenário das cidades russas, ao contrário de Lênin. Mesmo após o fim da União Soviética em 1991, o fundador do antigo país está em toda parte. Mas Stálin mantém uma estátua derrubada num parque em Moscou e tem uma de pé em Gori, sua cidade natal. Na Geórgia, há várias ruas Stálin (e também George W. Bush, mas essa é outra história).

Os russos o adoram? - Pesquisa do Centro Levada de 2017 mostrou Stálin em primeiro lugar num ranking de personalidades mundiais notáveis: 38% dos russos achavam isso. No ano seguinte, só 9% consideraram suas políticas responsáveis pelas mortes na Segunda Guerra Mundial, 64% achavam que o que importou foi a vitória e 57%, que ele tornou a União Soviética um grande país. Ao mesmo tempo, nenhuma pesquisa indica a vontade da volta do regime comunista ao país.

E o que o Putin acha disso? - Segundo líder mais longevo da Rússia desde Stálin, Vladimir Putin já fez críticas ao stalinismo, mas sacralizou os esforços da guerra como política de Estado. Assim, peças críticas como a comédia “A Morte de Stálin” são banidas da Rússia.

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