Startups investem em laboratórios e empregam cientistas em meio a crise

Empreendedorismo vira alternativa em cenário de cortes públicos na pesquisa nacional e gera impacto com inovação e ciência

São Paulo

Renato Paquet se formou em ecologia na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e trabalhou em um laboratório da instituição pesquisando conservação de ecossistemas. Mas, ao notar que os estudos que produzia não eram consultados pelas autoridades em políticas ambientais, perdeu o brilho nos olhos que tinha em trabalhar com áreas de preservação. Foi então para o setor privado. 

Trabalhando do “outro lado”, como diz, ele viu riscos relacionados à geração e à destinação de resíduos sólidos em relatórios das empresas com as quais tem contato.

“Ao vender uma tonelada de resíduos como matéria-prima para outras empresas, deixamos de extrair essa mesma quantidade do ecossistema. Em vez de explorar o meio ambiente, conservamos”, afirma. 

Dessa reflexão nasceu a Polen, uma startup de soluções para resíduos sólidos como plásticos e matéria orgânica criada em 2017 para fazer a ponte entre as empresas que produzem o lixo e as que o utilizam como matéria-prima.

Guilherme Queiroz também transformou pesquisa em negócio. Hoje ele é CEO da Biolsolvit, startup dedicada a criar soluções para absorção de petróleo e destinação de resíduos. Guilherme não veio do meio acadêmico como Renato, mas diz que muitas ideias que nascem nas universidades têm potencial para se tornarem produtos e serviços. O caminho, porém, é espinhoso.

“O pesquisador que quer criar uma empresa tem um déficit de conhecimento. Ele sabe como desenvolver material, mas sabe falar com o mercado? Como captar o investimento? Como vender e produzir? Em geral, não. Muitos trabalhos bons morrem dentro de bibliotecas e não chegam a virar uma empresa”, diz. 

Hoje, a Biosolvit tem cerca de 12 pesquisadores com dedicação exclusiva e 11 patentes registradas. As pesquisas são conduzidas em laboratórios próprios ou conveniados.

O absorvedor de petróleo criado por Guilherme foi testado na crise de vazamento de óleo no litoral brasileiro. Em 20 de outubro, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, autorizou o teste do produto no mar, mas, devido à espessura do óleo, que é de origem venezuelana, o absorvedor não apresentou os resultados esperados.

Estima-se que o Brasil tenha cerca de 15 mil startups. Na plataforma da Abstart-ups (Associação Brasileira de Start-ups) há 12.717 empresas do tipo registradas. Quem insere os dados na base são as próprias empresas. 

A estagnação do financiamento científico no país e a falta de oportunidades nas da universidade e instituições de pesquisa podem ajudar a explicar o investimento em startups, dizem especialistas. Desde 2013 os investimentos do governo federal na área de ciência e tecnologia vêm caindo.

Segundo Guilherme Rosso, cofundador da Emerge, ONG que atua no estímulo a cientistas que querem empreender, não há estudos robustos sobre as motivações da busca pelo empreendedorismo na área científica e tecnológica, mas sabe-se que esse movimento, que vem crescendo há anos, também se deve ao aumento no número de cientistas capacitados.

“No Brasil, boa parte dos doutores tende a ficar na academia, diferentemente do que acontece nos EUA e em outros países, onde a maior parte vai para a indústria”, diz. 

“Com crise, dificuldade para se obter bolsas, falta de material e de fomento e problemas na Capes e no CNPq [agências federais de fomento], o empreendedorismo se torna uma alternativa para os cientistas brasileiros. Eles são atraídos não só pelos possíveis resultados financeiros, mas pelo impacto na solução de problemas”, afirma.

Eduardo Tancredi Pinheiro e Primo Paganini, CMO e médico psiquiatra da eCare, uma startup de saúde com foco em transtornos mentais - Lucas Seixas/Folhapress

Luiz Eugênio Mello, neurocientista da Unifesp e diretor de pesquisa do Instituto D’Or, diz que a falta de estabilidade na carreira acadêmica pode gerar efeitos positivos. 

“Há casos em que a estabilidade no emprego tem razões de ser, mas ela também gera prejuízo porque se traduz em menor mobilidade, já que há certeza do retorno financeiro. É análogo ao que acontece quando a taxa de juros estão altíssimas: o investimento em atividades de risco deixa de ser incentivado.”

Segundo a Abstart-ups, o principal segmento explorado é o educacional, com 7,57% do total. As healthtechs (saúde) contam com uma fatia de 3,63%. Empresas de biotecnologia, como a Biosolvit e a Polen, somam apenas 0,31%. 

Da área da saúde, a startup paulista eCare, especializada em transtornos mentais, faz gestão da saúde mental de funcionários das empresas clientes e gerencia oito clínicas com psiquiatras e psicólogos no estado de São Paulo. 

Segundo Eduardo Tancredi Pinheiro, um dos fundadores da eCare, há um mercado crescente para soluções voltadas à psicologia e à psiquiatria. Para se manter atual, a empresa investe em inovação por meio da análise dos dados obtidos ao longo de suas duas décadas de existência. 

Uma das novidades, ainda em fase de desenvolvimento, é um programa que indicaria a possibilidade de depressão por meio de padrões sonoros da fala. “Estamos muito interessados nesse tipo de inovação. Não trabalhamos com pesquisas na linha farmacêutica, mas temos um setor para desenvolvimento.” 

As universidades têm investido no empreendedorismo. A USP busca ajudar seus estudantes que desejam empreender por meio do NEU (Núcleo de Empreendedorismo). Até agora, mais de 2.000 alunos já foram impactados e 60 startups foram aceleradas. A Unicamp mantém a Inova (Agência de Inovação da Unicamp), que tem 1.121 patentes registradas e 701 empresas-filhas (criadas por alunos e ex-alunos) cadastradas, as quais renderam R$ 4,8 bilhões e geraram mais de 30 mil empregos.

A Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) mantém desde 1997 o Pipe (Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas), programa de financiamento de empresas interessadas em pesquisas para desenvolver produtos e serviços. 

Em 2017, quando o programa completou 20 anos, o Pipe bateu pela quarta vez consecutiva seu recorde de empresas financiadas. Foram investidos R$ 79,8 milhões em 237 projetos de startups, pequenas e médias empresas, um aumento de 27,6% em relação ao ano anterior. 

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.