Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Dois militares são mortos no Rio, os primeiros desde o início da intervenção

Cabo e soldado foram baleados durante operação em favelas de morros na zona norte

Lucas Vettorazzo Júlia Barbon
Rio de Janeiro

Em um dia marcado por confrontos, ônibus queimado e transporte paralisado, dois integrantes do Exército morreram baleados nesta segunda-feira (20) em uma operação das forças de segurança nos complexos de favelas do Alemão, da Penha e da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro.

O cabo Fabiano de Oliveira Santos foi o primeiro militar morto em confronto ​desde o início da intervenção federal na segurança pública do estado, decretada pelo presidente Michel Temer (MDB) em fevereiro passado. 

Já no final da tarde um outro militar, o soldado João Viktor da Silva, foi morto em confronto a tiros com bandidos. Além deles, ao menos quatro suspeitos morreram nos confrontos. ​

Ao longo desses seis meses, diversas operações contra o tráfico de drogas têm sido realizadas na região metropolitana do Rio, com o apoio de militares das Forças Armadas. Um soldado já havia morrido na vigência da intervenção, em junho, mas vítima de um acidente de trânsito.

A intervenção vale até 31 de dezembro. Em entrevista à Folha publicada neste sábado (18), o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, afirmou que a medida deve mesmo acabar no prazo inicialmente previsto, pois os responsáveis pela medida já demonstraram não querer a sua renovação.

O cabo Fabiano de Oliveira Santos foi baleado no ombro, em uma área conhecida como Serra da Misericórdia, e morreu a caminho do hospital, informou nesta segunda-feira o Comando Militar do Leste (CML)​​. O órgão, no entanto, não esclareceu a dinâmica do conflito nem o tipo de arma de fogo que o vitimou. ​

Já João Viktor da Silva era soldado paraquedista e foi atingido por um tiro na cabeça na Vila Cruzeiro, no Complexo do Alemão.

Os homens foram baleados em operação que contou com 4.200 militares das Forças Armadas, 70 policiais civis, blindados e helicópteros. Segundo relatos de moradores, os tiroteios começaram já durante a madrugada desta segunda-feira.

O Coronel Carlos Frederico Cinelli, porta-voz do CML, lamentou as mortes dos suspeitos, mas atribuiu os confrontos à "irracionalidade notória" dos criminosos em enfrentar as forças policiais.

Em nota, o CML afirmou que "todo o apoio psicológico e espiritual vem sendo dado" às famílias dos dois militares e "todas as medidas administrativas e judiciais cabíveis" estão em curso. Um inquérito policial militar foi instaurado para apurar a morte de Fabiano de Oliveira Santos.

"Concitamos à população fluminense um momento de reflexão acerca do supremo sacrifício despendido por estes militares em sua missão de proporcionar um ambiente seguro e estável aos habitantes do estado", diz a nota. ​​

Ainda segundo as forças de segurança, ao menos dez suspeitos foram presos. Essa é a terceira operação em três dias no Complexo do Alemão, considerado o quartel-general da maior facção criminosa do Rio, o Comando Vermelho.

Pelas redes sociais, moradores relataram tiroteios em diversas áreas das favelas. "São muitos tiros, helicópteros sobrevoando... Deus proteja os inocentes", escreveu um morador. "Está em toda parte, o Exército já está no alto do morro", escreveu outra moradora.

Moradores também relataram abusos dos militares. Celulares estariam sendo revistados, e pessoas que compartilharam informações sobre a ação policial em aplicativos de mensagens foram detidas como suspeitas.

Uma moradora relatou à reportagem da Folha que homens revistaram mulheres, numa prática irregular. Há relatos também de que policiais e militares entraram em casas sem mandado de busca. Procurado sobre essas acusações, o CML não se pronunciou. ​​

INTERVENÇÃO FEDERAL ​

A intervenção federal na segurança do Rio completou seis meses na quinta-feira (16). A medida ainda não conseguiu reduzir os homicídios, acumula o maior índice de mortes por policiais desde 2008 e tem retirado menos armas das ruas.

A intervenção vale até 31 de dezembro. Em entrevista à Folha publicada neste sábado (18), o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, afirmou que a medida deve mesmo acabar no prazo inicialmente previsto, pois os responsáveis pela medida já demonstraram não querer a sua renovação. ​ ​

Desde que chegaram ao Rio, os representantes do governo federal também intensificaram as operações em favelas, sem comprar ainda os materiais prometidos às polícias com o R$ 1,2 bilhão liberado pelo Planalto. Por outro lado, conseguiram doações emergenciais de equipamentos e ainda reduzir os roubos de carga e de rua.

Com a intervenção, na prática, as polícias, os bombeiros e o sistema penitenciário estão sob o comando federal, que nomeou interventor o general Walter Souza Braga Netto, do Exército. A medida ocorre paralelamente a uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) decretada por Temer em julho de 2017, que dá poder de polícia às Forças Armadas no estado também até o fim do ano.

A medida também foi decretada (às pressas e sem um plano pronto) logo depois do Carnaval, quando cenas de roubos em áreas nobres foram amplamente divulgadas pela imprensa e aumentaram a percepção de insegurança e vácuo no governo do estado.

A operação desta segunda-feira é o desfecho de uma série de ações conectadas realizadas pelas forças de segurança desde o último dia 14 com o objetivo de prender membros do crime organizado, segundo afirmou à reportagem uma fonte ligada à cúpula da intervenção.

O primeiro passo da estratégia foi ocupar outra base do Comando Vermelho, a favela de Antares, que fica em Santa Cruz, na zona oeste do Rio, a cerca de 60 km do Complexo do Alemão. Até a operação da semana passada, Antares havia passado por quase 20 dias de confrontos entre o Comando Vermelho e membros de uma milícia que invadiram uma favela vizinha, o Rola.

As etapas seguintes da estratégia acontecerem nas madrugadas de sexta-feira (17) e domingo (18), quando militares realizaram incursões com cerca de 300 agentes no Complexo do Alemão e trocaram tiros com traficantes

Desde o início da intervenção em fevereiro, mais de 400 suspeitos foram capturados nas chamadas operações emergenciais do Comando Conjunto —ações ostensivas que visam enfraquecer o crime organizado em paralelo à reestruturação das polícias, que ocorre nos bastidores.

 

Em retaliação à operação, criminosos incendiaram um ônibus na Linha Amarela, sentido Barra da Tijuca, próximo ao Complexo da Maré. Com o veículo em chamas, a via expressa ficou fechada por cerca de 40 minutos. A via, que margeia o Alemão, é uma das principais ligações entre o centro e a zona oeste do Rio.

O corredor expresso de ônibus, o BRT, também interrompeu a circulação de ônibus entre o bairro de Madureira (zona norte) e o aeroporto do Galeão devido a atos de vandalismo na estação Penha.

Colaborou o UOL

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