Militares rejeitam renovar intervenção no Rio após dezembro, diz Jungmann

Para ministro, ausência federal em 2019 fará falta à segurança pública do estado

Rubens Valente
Brasília

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, afirma que a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro deve mesmo acabar no prazo inicialmente previsto, em dezembro, pois os responsáveis pela medida já demonstraram não querer a sua renovação.

O ministro da Segurança Pública Raul Jungmann - Pedro Ladeira - 14.jun.2018/Folhapress

Em junho passado, Jungmann defendeu, em entrevistas à imprensa, que a intervenção fosse renovada para, pelo menos, dezembro de 2019.

Vencido na discussão interna, o ministro defende então um “meio-termo”, que seria a continuidade “da reestruturação das forças de segurança” no Rio e a manutenção da operação militar de GLO (garantia da lei e da ordem), que também vence em dezembro.

 

Folha - Os últimos levantamentos mostram aumento de tiroteios e das mortes por policiais. O que deu errado na intervenção até agora?

Raul Jungmann - Acho que os números apontam a queda de vários tipos criminais, uma queda de roubos, de furtos, roubos de carga e inclusive, levemente, também em termos de homicídio. Agora, tem crescido essa questão da chamada letalidade policial.

Isso pode decorrer do aumento da polícia nas ruas, do aumento com o pagamento do [sistema de] rádio, o retorno da produtividade, ampliação da presença, como também pode decorrer de falhas em termos de procedimentos e protocolos a serem desenvolvidos pela polícia. Cabe à Secretaria de Segurança Pública fazer uma análise desses dados e tomar as providências.

O sr. se sente frustrado com os resultados até agora?

Não. Sabia que eles demorariam porque há um trabalho a ser feito que é de reconstrução das forças policiais. Elas chegaram a um grau de deterioração tamanho que é necessário um trabalho de médio e longo prazos que é uma recuperação, um reequipamento, praticamente uma reestruturação não só das forças policiais mas do sistema penitenciário. E, no mundo todo, quando se chegou a esse grau de deterioração, foi necessário tempo para poder recuperar. No Rio não vai ser diferente.

Quando chegarmos a dezembro esse trabalho de reestruturação não estará completo?

Esse trabalho não poderá estar completo considerando a dimensão da gravidade da degradação da segurança no Rio que tem mais de anos, tem décadas. É uma tragédia que vem sendo construída há muito tempo. Então o trabalho que está sendo feito pela intervenção deverá continuar através do planejamento que eles [militares] estão propondo, a continuidade do planejamento da reestruturação da capacidade das polícias.

Acredito que também deve continuar a GLO, a operação de garantia da lei e da ordem. Seria [após dezembro] um meio-termo entre a permanência da intervenção —os interventores já deixaram claro que não querem a sua continuidade— e a simples cessação da participação das Forças Armadas no esforço de recuperação do Rio.

O sr. defende a renovação do prazo de intervenção a partir de dezembro? 

Eu não defendo mais porque ficou evidente que há um desejo expresso pelo comando da intervenção de que ela cesse. Então não faz sentido eu ficar me contrapondo a essa visão que eles têm, eles que estão no terreno.

Há o risco de retrocesso desse processo de reestruturação a partir da saída dessas pessoas do comando da segurança?

Olha, isso foi o que eu defendi: você tem as Forças Armadas lá dentro integradas ao sistema de inteligência, tem os recursos que estão aí disponíveis para serem gastos, tem o comando, tem a direção, tem dezenas de milhares de homens das Forças Armadas que estão empenhadas nesse tipo de trabalho, tem a integração alcançada.

Bom, entendo que isso vai fazer falta, não tenho a menor sombra de dúvida, à segurança do Rio de Janeiro. Foi por isso que propus exatamente o que eu disse a você: segue o planejamento e mantém a GLO. Isso significa a disponibilidade, não a intervenção, dos recursos humanos, tecnológicos e materiais das Forças Armadas para apoiar a segurança do Rio de Janeiro.

O sr. entende que as mudanças que a intervenção trouxe nas forças de segurança do Rio gerariam frutos no horizonte de quantos anos?

Depende da continuidade, não há como [medir]. Eu cito como alguns exemplos na literatura. Medellín [Colômbia] levou sete, oito anos. Bogotá [Colômbia] levou nove. El Paso [EUA], na fronteira com o México, levou cinco anos. Não estou dizendo que você tem que levar esse tempo. Mas as pessoas não têm a dimensão de duas variáveis: primeiro, a degradação, quase que completa, a desestruturação das forças policiais do Rio.

Em segundo lugar, o que eu chamo de metástase. É um termo de que não gosto mas é o que me ocorre. Para falar da penetração do crime no Rio nos órgãos públicos, nas estruturas de controle, nas estruturas policiais e assim por diante. Então você não pode esperar que em seis meses essa obra, essa tragédia que foi construída no Rio, possa ter uma solução que permita à população uma sensação de segurança.

Quando você tem 830 comunidades no Rio sob controle do crime organizado, você tem —eu falava em 1,1 milhão, “O Globo” recentemente falou em 1,7 milhão— pessoas estão em áreas de influência e de controle do crime organizado. Esse crime organizado que controla o território controla o voto, elege seus representantes e participa do aparelhamento, ou seja, da distribuição de cargos que é feita para obter maioria do governo no Parlamento.

Então isso é um sistema. E nenhuma instituição, nenhum órgão público, praticamente, ficou infenso a isso. E, ao mesmo tempo, a degradação séria, gravíssima, da estrutura policial. Então isso leva tempo, de fato, e exige persistência e planejamento para ser superado.

O assassinato da vereadora Marielle Franco marcou o período da intervenção. O sr. disse nesta semana que recebeu informações da inteligência do governo federal sobre participação de políticos no assassinato. Essas informações indicam um motivo para o assassinato? 

Você tem sérias limitações para responder a uma pergunta como essa porque há uma investigação em andamento. O que posso dizer é que hoje já está claro que você tem estruturas que participaram direta ou indiretamente desse crime que envolve milícias, envolve agentes públicos e de segurança e envolve políticos.

O que o sr. teria a dizer à população do Rio, que espera uma melhora dos índices de violência, seis meses depois da intervenção?

Eu diria que as pessoas que estão fazendo essa intervenção são pessoas muito sérias e muito competentes. Eles estão fazendo um trabalho de base que vai dar resultados mais adiante.

Atualmente o que se vive é a situação do copo meio cheio e meio vazio. No copo vazio continuam as balas perdidas, os confrontos, os fuzis, as milícias. Naquela parte cheia, que tende a crescer e ocupar o vazio, você tem a reestruturação da polícia, os reequipamentos, a mudança da logística, a reestruturação do sistema penitenciário, o investimento nos recursos humanos, no treinamento, na capacitação e no planejamento.

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