Doria faz 1ª entrevista com bronca, seleção de perguntas e crítica à herança de França

Novo governador de SP disse que tarifas de CPTM e metrô devem ser anunciadas nesta quinta

Artur Rodrigues Guilherme Seto
São Paulo

A primeira entrevista coletiva de João Doria (PSDB) no cargo de governador de São Paulo, nesta quarta-feira (2), teve bronca na equipe de som, escolha dos veículos de imprensa que poderiam fazer perguntas e fortes críticas à herança deixada por Márcio França (PSB).

França foi vice de Geraldo Alckmin (PSDB) até abril passado, quando assumiu o governo do estado e depois concorreu à reeleição, sendo derrotado por Doria em disputa acirrada de segundo turno. Durante a campanha, França e Doria trocaram uma série de ataques.

Os ataques de Doria às gestões anteriores já haviam ocorrido um dia antes, em seus discursos de posse. Na ocasião, não poupou críticas aos 24 anos de seguidos governos do PSDB em São Paulo. Disse, por exemplo, que o estado precisa deixar de "pensar pequeno" e que a partir de agora "São Paulo vai mudar, agora tem comando". 

Governador João Doria ao lado de seu secretário da Fazenda, Henrique Meirelles, em reunião no Palácio Bandeirantes
Governador João Doria ao lado de seu secretário da Fazenda, Henrique Meirelles, em reunião no Palácio Bandeirantes - Zanone Fraissat/Folhapress

Nesta quarta-feira, na entrevista à imprensa, Doria e os secretários fizeram um balanço da situação encontrada nas principais áreas do governo.

Uma das críticas mais pesadas de Doria em relação à França foi sobre o fato de o agora ex-governador ter saído do cargo sem resolver a questão do reajuste da tarifa de transporte público, geralmente anunciada em conjunto por governo (responsável por trens e metrô) e Prefeitura de SP (que cuida dos ônibus). 

"Não faltou presteza do [prefeito] Bruno Covas ou do governo de transição. Faltou foi coragem do ex-governador Márcio França de fazer o que outros governadores fizeram mesmo em final de mandato", disse Doria. 

Na semana passada, Covas anunciou sozinho o reajuste da tarifa de R$ 4 para R$ 4,30. Doria diz que até esta quinta-feira (3) os valores das passagens de metrô e CPTM serão resolvidos --hoje ambas estão em R$ 4.

Procurado pela Folha, o ex-governador França disse que "houve divergência em relação ao novo valor da tarifa" e que os secretários que trabalhavam em sua gestão queriam "o reajuste até o máximo da inflação, arredondada para baixo, como sempre fez o Alckmin". 

Na capital, Covas aumentou a passagem de ônibus acima da inflação, passando-a de R$ 4 para R$ 4,30. A Prefeitura de São Paulo disse que o aumento foi baseado na inflação acumulada dos últimos três anos, de acordo com o IPC-Fipe, de 13,06%. 

Também houve críticas na área de educação. Segundo Rossieli Soares, secretário estadual da área, o início do ano letivo da rede paulista de ensino terá "prejuízo gigantesco", porque a gestão anterior não assinou contratos para aquisição de parte do material didático e também do material de apoio pedagógico.

"Não tivemos contrato para aquisição de kit fundamental [de material didático]. O material pedagógico de apoio também não está contratado e não será distribuído. Não teremos tempo para imprimir", disse.

Rossieli também citou lacuna de 8.500 professores na rede e queda nos indicadores nos últimos anos.

Nos últimos 24 anos, o PSDB comandou o estado em 23 anos. Desde 1995, foram apenas duas rápidas interrupções, com Cláudio Lembro (DEM, antigo PFL) em 2006 e França (PSB) em 2018.

Vice de Doria e também secretário de Governo, Rodrigo Garcia (DEM) destacou medidas de cortes de gastos e também cancelamentos de ações do governo França. Como exemplo, citou convênios que teriam sido assinados com "permissividade". 

No primeiro dia de governo, Doria assinou um projeto de lei que permite ao estado extinguir, fundir ou incorporar estatais. Nos próximos dias, deve ser detalhado um pacote de privatizações para o estado.

Seleção de perguntas

Durante a entrevista desta quarta-feira, Doria manteve a regra que estabeleceu ainda na Prefeitura de São Paulo de permitir somente cinco perguntas, mas, desta vez, a ordem de inscrição dos jornalistas não foi respeitada.

A gestão Doria escolheu os profissionais que poderiam perguntar a partir de uma lista maior. A Folha, por exemplo, fez uma pergunta, mas jornalistas dos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, que estavam ao lado do repórter e foram inscritas antes, não puderam questionar o governador. A situação ocorreu com outros jornalistas. 

A entrevista coletiva terminou com Doria se negando a responder perguntas adicionais, em meio a reclamações de repórteres. Umas das jornalistas sem direito à palavra tentou questionar o tucano sobre Gilberto Kassab (PSD), mas não foi atendida pelo governador.

Indicado para a Casa Civil, Kassab pediu para se licenciar do cargo logo após a posse para se dedicar à sua defesa em suposto escândalo. O ex-ministro das Comunicações e também ex-prefeito paulistano foi alvo de uma operação de busca e apreensão da Polícia Federal, sob suspeita de ter recebido valores ilegalmente da JBS —ele nega irregularidades.

Em nota, a assessoria de imprensa de Doria diz que "a escolha dos veículos que fariam as perguntas não foi feita pelo governador, mas pela assessoria de imprensa, que costuma fazer um rodízio entre jornais, revistas e canais de TV nas coletivas."

Bronca e Alckmin

Ainda durante a entrevista, Doria foi interrompido algumas vezes por microfonia. O tucano se irritou e deu uma bronca pública nos responsáveis pelo sistema de som. Disse que as coisas "têm que funcionar bem" no palácio e que, se até o momento elas estavam assim, falhando, teriam que melhorar.

Sobre Alckmin, seu antigo padrinho político, Doria negou que tenha dirigido críticas a ele em seus discursos de posse nesta terça-feira, quando disse, por exemplo, que o Palácio dos Bandeirantes passaria a ser lugar de "trabalho", e não mais de "romaria de prefeitos" e "cafezinhos".

Doria disse que recebeu telefonema de Alckmin no dia da posse e justificou a ausência do presidente nacional do PSDB ao dizer que o dia primeiro, às 9h, é um dia "muito inconveniente" e que Alckmin estava com a família.

Em 2016, quando disputou a eleição à Prefeitura de São Paulo, Doria teve justamente em Alckmin seu principal cabo eleitoral. Eleito no primeiro turno, assumiu o município e passou a disputar contra o próprio então governador a vaga de candidato do partido à Presidência da República. 

Doria perdeu essa disputa interna, abandonou a prefeitura após apenas 15 meses de gestão e deixou uma longa lista de projetos não realizados e uma série de metas não cumpridas no município. 

Além de Alckmin, outros tucanos com história no partido não compareceram aos eventos de posse de Doria, como o prefeito paulistano Bruno Covas, FHC, o senador Serra e o ex-governador Alberto Goldman.

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