Polícia questionará Metrô de SP sobre tempo para resgate de menino Luan

Companhia levou 61 minutos até autorizar busca da criança em túnel da linha 1-azul

Fabrício Lobel
São Paulo

​A Polícia Civil de São Paulo anunciou que cobrará do Metrô, ligado ao governo paulista, explicações sobre o tempo levado para localizar e resgatar o menino Luan Silva Oliveira, 3, que morreu após ser atropelado dentro de um túnel da linha 1-azul, no último dia 23 de dezembro. 

Luan Silva Oliveira viajava com familiares no sentido Jabaquara. Na estação Santa Cruz, pouco antes de a porta se fechar, correu para fora do trem e acabou sozinho na plataforma.

A Folha revelou nesta sexta-feira (4) que um relatório do Metrô aponta que a companhia levou 61 minutos até autorizar as buscas de Luan dentro do túnel.

Segundo o documento, o Metrô foi informado sobre a perda do menino de seus familiares às 11h07, por meio de uma mensagem de SMS no serviço de atendimento ao usuário da companhia.

A autorização para procurá-lo no túnel da linha, porém, só ocorreu às 12h08, uma hora e 1 minuto após o aviso e 43 minutos após funcionários do Metrô terem pedido autorização superior para essa busca.

Ao longo de todo esse intervalo, sempre de acordo com o documento interno do Metrô, diferentes funcionários atuaram nas buscas. Um minuto após o SMS, por exemplo, é lançado um alerta de buscas.

Funcionários iniciam a procura pela plataforma e depois seguem para o mezanino da estação. A procura segue também em um shopping, e nas instalações da linha 5-lilás, que faz conexão com a 1-azul.

Às 11h20, ainda sem saber o paradeiro da criança, funcionários passam a considerar que Luan possa estar no túnel da linha. Cinco minutos depois, funcionários do Metrô solicitam aos seus superiores o início dessa busca específica. A autorização chega apenas às 12h08.

Às 12h22, Luan é avistado nos trilhos por um metroviário e às 12h46 equipes conseguem chegar ao local. O menino é levado de volta à plataforma e, às 12h58, é encaminhado ao Hospital São Paulo, onde morreu em seguida.

Cancela no final da plataforma da estação Santa Cruz do Metrô (linha 1-azul) por onde teria passado o garoto Luan de 3 anos. Ele foi achado morto dentro do túnel no dia 23 de dezembro de 2018
Cancela no final da plataforma da estação Santa Cruz do Metrô (linha 1-azul) por onde teria passado o garoto Luan de 3 anos. Ele foi achado morto dentro do túnel no dia 23 de dezembro de 2018 - Rubens Cavallari/Folhapress

Segundo o delegado-titular do Delpom (Delegacia de Polícia do Metropolitano), Cícero Simão da Costa, a Polícia Civil não obteve o relatório do Metrô e irá questionar a companhia sobre o tempo de resposta na ocorrência.

"Nós vamos indagar o Metrô para entender qual foi o procedimento no dia e se o resgate poderia ter sido feito em menos tempo", disse. O delegado, porém, disse acreditar que o caso foi uma fatalidade.

Câmeras da plataforma não mostram com clareza o momento em que o garoto entra no túnel. Mas outras imagens de dentro do vagão mostram quando a criança se separa da mãe e sai do trem do metrô.

Segundo o delegado, as imagens mostram que Luan estava no colo da mãe. Ela deixa cair uma bolsa. Para pegá-la, a mãe do garoto o coloca em pé dentro do vagão. O garoto então corre para fora do trem enquanto a porta se fechava e fica sozinho na plataforma. 

As imagens não serão divulgadas porque estão sob segredo de Justiça. O Instituto de Criminalística da Polícia Civil está analisando as imagens que foram cedidas pelo Metrô. 

Cronologia 

11h07 Metrô recebe alerta, via SMS, de que criança havia desembarcado sozinha na estação Santa Cruz
11h08 Metrô manda funcionários buscarem pela criança na plataforma
11h09 Agentes de segurança iniciam as buscas nas plataformas, mezanino, shopping e estação Santa Cruz da linha 5-lilás
11h20 Agentes cogitam a possibilidade da criança estar no túnel da estação
11h25   Funcionários pedem autorização superior para entrarem no túnel
12h08 O Centro de Operações do Metrô autoriza a entrada no túnel
12h22 Um metroviário informa ter visto um corpo nos trilhos
12h46 Após mais de uma tentativa, as equipes conseguem localizar a criança, deitada de lado, próximo a um vagão de trem da linha 1-azul
12h52 Início do resgate
12h56 Criança é levada à plataforma
12h58 A criança é levada ao Hospital São Paulo
Luan Silva Oliveira, 3, que morreu atropelado no metrô de SP
Luan Silva Oliveira, 3, que morreu atropelado no metrô de SP - Reprodução

Providências

O Metrô de São Paulo afirma, em nota, que tomou todas as providências necessárias durante a busca ao menino Luan.

Segundo a nota, a ocorrência exigiu desenergização de um trecho de mais de quatro quilômetros de vias, desde a estação Vila Mariana até Saúde –nos dois sentidos– para que os agentes de segurança pudessem entrar no túnel.

"Nessas situações, é necessário que todos os trens que estavam em circulação na linha 1-azul sejam acomodados em área de plataforma para garantir a segurança dos usuários embarcados", afirma a companhia.

Ainda de acordo com a nota, a empresa afirma que "lamenta o triste acidente com o menino Luan, ocorrido na estação Santa Cruz no dia 23 de dezembro". E afirma que "a companhia prestou todo o atendimento necessário à família neste momento difícil".

O Metrô diz analisar a ocorrência e colaborar com as investigações policiais sobre o caso, cedendo imagens e informações solicitadas pelas autoridades.

Invasões

O Metrô viu crescer 41% os episódios de invasão dos trilhos entre 2015 e 2017. São casos de vandalismo, imprudência, tentativas de suicídio, queda de usuários e de objetos.

Para reduzir as interferências provocadas por invasões aos trilhos e aumentar a segurança, a companhia retomou antiga promessa de instalação de portas automáticas nas plataformas das estações. Até fevereiro será anunciada a vencedora da licitação em andamento.

Deverão ser instaladas portas em 36 paradas que ainda não as possuem, nas linhas 1-azul, 2-verde e 3-vermelha. As obras irão custar R$ 400 milhões.

Atualmente, estações mais novas do metrô já dispõem das portas automáticas nas plataformas --também comuns em outros países. De um total de 70 paradas da rede, 20 têm esse dispositivo.

O objetivo, de acordo com a companhia, é aumentar a segurança dos usuários e melhorar a fluidez dos trens, que não sofrerão mais com algumas interrupções da operação. No ano passado, cada interrupção da via paralisou a operação da linha em quatro minutos, em média.

Segundo os metroviários a morte de Luan expõe a falta de funcionários na companhia, já que a categoria há tempos pleiteia a contratação de agentes que pudessem atuar nas plataformas, trabalhando inclusive pela segurança dos passageiros.

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