Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Sem encontrar sobreviventes, tropas de Israel encerram colaboração em Brumadinho

Trabalho de equipe estrangeira foi alvo de polêmica sobre sua real eficácia

Paulo Gomes
São Paulo

​Após três dias de trabalho de campo, o grupamento militar israelense enviado ao Brasil para auxiliar nas operações de resgate em Brumadinho (MG) encerrou a sua atuação sem cumprir o objetivo primordial, o de encontrar sobreviventes.

Autoridades brasileiras e o comando israelense, porém, afirmam que a missão da delegação foi cumprida com sucesso. Os militares de Israel começaram o trabalho na segunda-feira (28), cerca de 60 horas após o rompimento da barragem, ocorrido na sexta (25).

Na manhã desta quinta (31), em Belo Horizonte,​ os militares receberam uma homenagem no quartel do 12º batalhão do Exército, com a presença do governador Romeu Zema (Novo).

A participação dos 136 militares de Israel foi alvo de polêmica após uma série de desencontro de informações. Logo no início dos trabalhos, o coronel Golan Vach, que chefiou a missão, disse que os esforços seriam em localizar sobreviventes. "O primeiro passo será o esforço de encontrar pessoas vivas desaparecidas", afirmou, ainda na manhã de segunda.

Os israelenses desembarcaram na noite de domingo (27) em Belo Horizonte com 16 toneladas de equipamentos. Entre eles estavam sonares capazes de detectar sinais de telefones celulares. Levantou-se a hipótese de que a técnica não se mostrou eficaz, uma vez que dificilmente os aparelhos das vítimas soterradas pela lama ainda teriam carga de bateria a tal altura. Posteriormente, o método foi esclarecido como capaz de apontar onde houve sinal de celular pela última vez.

Também foi divulgado que o maquinário trazido poderia reconhecer o calor de corpos. "Todos os corpos [na região] são frios. Então esse já é um equipamento ineficiente", disse, ainda na segunda, o tenente-coronel Eduardo Ângelo, comandante das operações de resgate na região.

Outra tecnologia que seria utilizada dependia da análise de uma amostra da lama da barragem. Para localizar seres humanos, radares identificariam materiais de composição diferentes da lama. A tecnologia israelense consegue localizar corpos em até três metros de profundidade. A profundidade da lama chega até 15 metros.

CIÚME E TEORIA CONSPIRATÓRIA

A suspeita sobre a real eficácia da missão israelense gerou mal-estar com a comunidade no Brasil. O embaixador de Israel no país, Yossi Shelley, chamou as críticas de ciúme. "Não precisamos escutar as pessoas que estão com ciúmes", afirmou.

Em artigo na Folha, o presidente da Federação Israelita do Estado de São Paulo, Luiz Kignel, classificou as notícias sobre o caso como levantamento de teorias conspiratórias.

Na segunda, o embaixador disse: "Nós faremos o trabalho que é preciso fazer e os resultados virão ao longo dos próximos dias".

O resultado foi que, com a ajuda da Unidade Nacional de Resgate das Forças de Defesa de Israel (FDI), foram localizados 35 corpos de vítimas da tragédia.

À Folha, a major Rivka Cohen, integrante da força militar israelense,​ diz que a tecnologia de detectar o sinal de celulares foi sim efetiva. "O sistema identifica a área onde houve sinal de celular pela última vez, então sim, essa tecnologia foi utilizada e nos ajudou a localizar [corpos] e saber onde concentrar esforços", diz a major, que destaca ainda o uso de drones nas buscas.

A reportagem perguntou à Embaixada de Israel no Brasil quem custeou a participação das tropas nas operações de busca em Brumadinho, mas não obteve retorno até a publicação deste texto. A FDI integra o Grupo Consultivo Internacional de Busca e Resgate das Nações Unidas (Insarag, na sigla em inglês), uma aliança internacional de 80 países com sede na Suíça que se mobiliza para ações de resgate pelo mundo.​

ESTREITAMENTO DE LAÇOS

Apesar do desentendimento inicial, tanto o governo federal quanto o de Minas e suas equipes de resgate foram efusivos em agradecer a colaboração de um dos países alvo do estreitamento de laços do governo Jair Bolsonaro (PSL).

Na manhã desta quinta, o presidente postou em rede social um agradecimento às "bravas forças israelenses" pelos serviços prestados, com menção ao premiê Binyamin Netanyahu. O Itamaraty divulgou comunicado em que diz que as forças estrangeiras trabalharam "incansavelmente" e fala em "inestimável serviço ao Brasil".

"A presteza na resposta e o empenho demonstrado nesta missão atestam a solidariedade e a amizade entre os dois países", diz o texto. O governo de Minas Gerais realizou a cerimônia de homenagem às tropas israelenses, em que o governador Romeu Zema afirmou ter "plena ciência de que o que estamos fazendo aqui em Minas a respeito desse desastre também vai construir um futuro melhor". 

Ao jornal israelense Yedioth Ahronoth, o tenente-coronel Sagi Baruch, de Israel, adotou tom elogioso semelhante. "As forças militares e de resgate do Brasil são boas e não primitivas, uma vez que se trata da sétima economia do mundo. Estamos aprendendo com eles e eles conosco."

A força-tarefa conjunta de resgate também agradeceu os israelenses em mais de uma ocasião nesta quinta. O tenente Pedro Aihara, do Corpo de Bombeiros, reforçou a troca de experiências —disse ​que os israelenses ficaram impressionados com as técnicas de desmonte hidráulico (jateamento de água para remoção da lama) e que os brasileiros aprenderam técnicas de georreferenciamento por drones e recursos de sonares e radares.

Aihara desmentiu problemas de relacionamento entre as forças e afirmou que, sempre que encontavam um corpo, os bombeiros faziam uma oração. Como há uma diferença de crença religiosa com os israelenses, eles adotaram um minuto de silêncio como método de respeito às vítimas durante o período de colaboração.

Sobre a breve participação nas operações de busca em solo brasileiro, a major Cohen disse ter sido "um privilégio". "Em meio a essa tragédia, sentimos que trouxemos um pouco de paz para 35 famílias, e estamos muito orgulhosos disso." ​

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