Covas passa recursos de corredores de ônibus para autódromo de Interlagos

Prefeitura usará R$ 12,4 milhões para reforma de pista em local que pretende privatizar

Guilherme Seto
São Paulo

O prefeito Bruno Covas (PSDB) remanejou mais de R$ 12 milhões que planejava destinar para a construção de corredores de ônibus para obras de reforma do autódromo de Interlagos, na zona sul de São Paulo, que ele pretende passar à iniciativa privada antes do fim de seu mandato, em 2020.

A decisão por meio de decreto foi publicada no Diário Oficial do Município no sábado (16). Nela, a prefeitura especifica que os R$ 12,4 milhões necessários para obras de ampliação, reforma e requalificação do Autódromo de Interlagos serão retirados dos recursos previstos para a construção de corredores de ônibus.

Em nota à Folha a prefeitura afirma que os recursos "foram remanejados de dotação orçamentária e retornarão para corredores de ônibus tão logo tais recursos entrem nos cofres públicos por meio dos convênios com o governo federal para esta finalidade, de acordo com a Secretaria Municipal da Fazenda".

Em seu plano de metas, a gestão tucana, iniciada em 2017, prometia entregar 72 km de corredores até 2020. No entanto, pouco investiu na área desde então: inaugurou 3,3 km de corredores e dificilmente conseguirá cumprir o prometido. 

Ao longo da gestão João Doria (PSDB) —que deixou a prefeitura para concorrer ao governo do Estado, em abril do ano passado— e Covas, a prefeitura tirou dinheiro dos corredores de ônibus para colocar em diferentes áreas, especialmente no programa Asfalto Novo. 

Em 2017 a prefeitura previu R$ 608 milhões para essas obras em corredores e acabou gastando só R$ 40 milhões. Em 2018, dos R$ 542,5 milhões previstos, pouco mais de R$ 54 milhões foram pagos. Para 2019, previu gastar R$ 205 milhões em requalificação e construção de corredores —quantia que agora foi reduzida em R$ 12,4 milhões (com os quais seria possível construir cerca de 600 m de um corredor de ônibus).

O dinheiro foi remanejado em operações de crédito suplementar para as mais diversas áreas. A maior movimentação ocorreu em fevereiro de 2018, quando a prefeitura retirou R$ 192 milhões dos corredores e os destinou à pavimentação e recapeamento de vias.

Outros remanejamentos incluíram a compra de materiais para farmácias e hospitais, obras para controle de cheias e até aumento de capital de empresas da prefeitura como a SP Turismo e a SP Urbanismo.

A construção de corredores de ônibus também emperrou em gestões anteriores. Fernando Haddad (PT) (2013-2016), por exemplo, prometeu fazer 150 km, mas entregou 42 km.

Sem a verba federal prometida e com contratos suspensos pelo TCU, apostou em 420 km de faixas exclusivas, à direita das pistas, mais baratas. De 2009 a 2012, Kassab fez 11,8 km de 66 km propostos.

Há hoje 12 corredores de ônibus na cidade, com 128,7 km de extensão. 

Sobre a necessidade de se investir recursos no autódromo que pretende passar à iniciativa privada, a Prefeitura de São Paulo diz que "não pode deixar o autódromo sem a devida manutenção porque ele recebe anualmente, entre outros eventos, o Grande Prêmio de Fórmula 1, que significa recursos entrando no caixa da prefeitura —com turistas, o recolhimento do ISS; além da geração de emprego". 

"São obras de manutenção", diz a prefeitura. "Para receber a etapa brasileira do Grande Prêmio de Fórmula 1 de 2018 e atender às condições de segurança exigidas pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA), o autódromo passou por reformas na pista, no pit lane e também em suas instalações permanentes (banheiros, arquibancadas, edifícios etc). O gasto médio anual com obras no autódromo é de R$ 10 milhões. Outros R$ 30 milhões serão gastos na infraestrutura e serviços referentes ao Grande Prêmio".

Segundo a prefeitura, o gasto anual com o autódromo chega a R$ 55 milhões, sendo R$ 5 milhões com manutenção e funcionários e R$ 50 milhões com a montagem de estruturas provisórias para os eventos da F-1.

Além disso, acrescenta que esperava que já teria, neste momento, a aprovação da lei que autoriza a privatização do autódromo. O projeto de lei tramita desde 2017 na Câmara Municipal e ainda precisa passar por uma segunda votação e pela sanção do prefeito.

O vereador Police Neto (PSD), envolvido em discussões sobre mobilidade, critica a decisão da prefeitura.

"A gestão Covas retira mais de R$ 12 milhões de recursos dos corredores, que estão agonizando. O transporte da população mais sofrida é prejudicado para colocar esses recursos para poucos corredores de F-1", diz.


 

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