Transferência de presos do PCC inclui medidas para evitar reação, diz Doria

Em 2006, mudança de detentos gerou onda de violência com 564 mortos

Artur Rodrigues
São Paulo

O governador João Doria (PSDB) afirmou nesta quarta-feira (13) que a operação de transferência de 22 líderes do PCC (Primeiro Comando da Capital) nesta manhã inclui preparação para evitar qualquer reação do crime e que São Paulo não será refém da facção.

Ele também disse que a medida deveria ter sido realizada antes, ainda na gestão de Márcio França (PSB). 

Em entrevista coletiva com apenas cinco perguntas, o tucano citou nominalmente o líder do PCC, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, que foi transferido —o governo estadual paulista tradicionalmente evita citá-lo diretamente. Ele ficará preso em presídio federal por 360 dias, sendo os 60 primeiros em RDD (Regime Disciplinar Diferenciado, com maior grau de isolamento).

Doria diz que a operação incluiu 51 dias de medidas sigilosas, em conjunto com o governo Jair Bolsonaro (PSL). Ele também ressaltou mais de uma vez que se trata de cumprimento de uma decisão judicial. "Cumprimos uma decisão judicial sem temor." 

"O estado não será refém do crime", disse. "Todas as ações preventivas foram tomadas pelas forças de segurança de São Paulo e do governo federal." O tucano afirmou que não poderia, porém, detalhar quais eram as medidas. 

Doria afirmou que a transferência influencia na questão do dever do estado de garantir segurança. "O isolamento de lideranças é estratégia adotada pelo governo federal e o de São Paulo para enfrentamento e desmantelamento de organizações criminosas."

De acordo com o general João Campos, titular da Secretaria da Segurança Pública, as tratativas foram feitas com a Secretaria de Operações Integradas do Ministério da Justiça. "Nosso grande trabalho estava em como executar a operação. E a operação foi absolutamente perfeita. Conseguimos movimentar aqueles que seriam transferidos no tempo adequado", disse. 

As conversas com o governo federal passaram a ser feitas logo depois da posse de Doria, diz Campos.​

Mudou o comando, um governador que estabeleceu segurança pública como prioridade", disse Doria, citando diretamente Márcio França. Ele afirma que França recebeu determinação para a transferência e não cumpriu. 

Na época, o então secretário da Administração Penitenciária, Lourival Gomes, que sempre se manifestou contrário à transferência dos chefões do PCC para presídios federais, concordou inicialmente em pedir à Justiça essa remoção. Em seguida, porém, acabou demovido dessa intenção.

O recuo, que teria aval do então secretário da Segurança Pública, Mágino Alves Barbosa Filho, contrariou integrantes do Ministério Público e da Polícia Militar, que defendiam a transferência imediata dos presos em razão do grande esforço e recursos empregados pela PM para evitar as tentativas de resgate.

REAÇÃO DO CRIME

A afirmação de Doria sobre segurança contra reação se deve aos crimes de maio de 2006, quando a transferência de integrantes da liderança do PCC para o presídio de segurança máxima em Presidente Venceslau causou insatisfação na facção. Nos dias que se seguiram, prédios das forças de segurança paulista foram alvos de ataques e os presídios tiveram mais de 80 rebeliões.

No total, 59 agentes da lei foram mortos. Em reação às mortes policiais, uma tropa de encapuzados foi às ruas e promoveu uma matança que vitimou 505 civis.

O comando da facção criminosa é colocado sob a responsabilidade federal após anos de expansão de seu domínio pelo país e internacionalmente. Nos últimos anos, o PCC fez aliança com a segunda maior facção do Rio de Janeiro, a ADA (Amigos dos Amigos) para diminuir o espaço da maior organização criminosa local, o Comando Vermelho —​antiga aliada.

A facção paulista ampliou seus negócios criminosos, fundamentados no tráfico de drogas, com a prática de mega-assaltos a transportadoras de valores pelo interior do país e até mesmo no Paraguai. Nos últimos meses, dois responsáveis pelo tráfico de drogas na região da fronteira foram presos, um em julho e outro no dia 4 deste mês.

A guerra com outras facções no país ocorre tanto nas ruas —​como na maior cidade de Santa Catarina—, como dentro de presídios. Em janeiro de 2017, massacres deixaram ao menos 126 detentos mortos em Manaus, Boa Vista e na região metropolitana de Natal. Foram 67 mortos no Amazonas33 em Roraima e 26 no Rio Grande do Norte.

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