Mães militares vão para missões e se destacam em ambiente masculino

Mulheres com filhos enfrentam preconceito e têm apoio familiar para ir a zonas de guerra

Marina Estarque
São Paulo

Neste Dia das Mães a major Luciana de Paiva, 53, vai passar a data longe dos filhos: mais precisamente no Sudão, dentro de um contêiner, possivelmente limpando a poeira da sua farda. Caso seja dia de haboob, nome dado às rotineiras tempestades de areia, vai ser difícil falar com seus dois filhos e com a mãe, porque a internet fica instável.

A major do Exército está há oito meses como gerente de TI na Unamid (Missão de Paz conjunta das Nações Unidas e da União Africana em Darfur). Domingo é dia normal de trabalho por lá, o que Luciana acha bom para “se distrair” e não pensar no Dia das Mães. 

“Quando voltar vamos comemorar todos os dias atrasados: aniversários, Dia das Mães. Vamos ter muito para comemorar”, disse ela à Folha, por mensagem de áudio.

Assim como Luciana, mães militares se destacam nas fileiras do Exército, em um ambiente ainda muito masculino. Várias enfrentam preconceitos, dentro ou fora dos quartéis, sobre a escolha de viajar para regiões de conflito. Dos 44 militares do Exército em missões de paz atualmente, apenas três são mulheres.

Luciana entrou no Exército pelo Quadro Complementar de Oficiais, primeiro dentro da força a admitir mulheres em áreas como administração, informática e magistério. 

O Exército foi a última força a incluir mulheres em suas fileiras. Apenas em 2018 a primeira turma mista chegou na Aman (Academia Militar das Agulhas Negras), onde é possível ter formação de combate. 
Ainda assim, elas podem escolher somente Intendência ou Material Bélico, áreas de apoio, enquanto homens podem optar também pelas Armas (Infantaria e Cavalaria, Artilharia, Engenharia e Comunicações). 

No último concurso, com ingresso em 2019, foram 320 vagas para homens e 36 para mulheres. A relação candidato-vaga para elas foi mais do que o triplo da concorrência dos homens. O Exército reconhece que há demanda feminina, mas diz que as vagas são menores porque elas não podem optar pelas Armas. Essa abertura, segundo a força, está em estudo, mas ainda não há prazo para ocorrer. 

Antes de entrar para o Exército, Luciana era soldado da PM do Rio. Ela fala inglês, árabe básico, faz doutorado e é da seleção olímpica de carabina.

A sua decisão de ir para o Sudão foi tomada com a filha mais nova, de 16 anos. Luciana é divorciada e, segundo ela, o pai não mantém contato com a menina. Por isso, ficou sozinha em Curitiba, onde as duas moram. A adolescente faz compras, cozinha, paga as contas da casa e as da avó, que vive no mesmo prédio. 

“Quando eu ia para a missão, a minha filha ficou com medo. Mas ela tinha acabado de voltar do intercâmbio. Então eu disse: ‘Se você conseguiu em um país estranho, no Brasil vai ser fácil’. Ela concordou: ‘É verdade, pode ir’. Foi bem legal”, conta Luciana. 

A major fala com a filha diariamente. A distância é dura, mas, por outro lado, a experiência na missão “é imperdível”. Luciana diz que nunca foi julgada pela sua escolha. 

Já Natália Meziat, 34, recebeu comentários negativos. Ela é casada com um militar reformado, tem uma filha de quatro anos e um de nove. A capitão está há dois meses longe de casa, em treinamento para a mesma missão da Luciana. 

“Ouvi de uma amiga: ‘Eu nunca ia deixar meu marido um ano sozinho’. Até pais militares, que já foram para várias missões, falaram que ‘homem pode, mãe é que não’. Mas não deixo isso me afetar”, afirma. 
Ela diz que seus filhos estão bem assistidos, cuidados pelo pai e pelos avós maternos. 

Natália entrou no Exército pelo IME (Instituto Militar de Engenharia) e era a única mulher da turma. “Nem meus colegas homens costumam ir para missão de paz, porque é mais para combatentes. Não podia perder essa chance, tenho o direito de viver isso”.

Durante os meses de treinamento no Rio, no Ccopab (Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil), ela criou truques para manter as atividades com as crianças. “Compartilho a tela do computador com meu filho e corrijo o dever dele. A menina coloca os bonecos na frente da tela e brinca comigo. Tenho sempre alguns minutos de qualidade com eles.” 

A capitão Vania Laviola, 41, também faz chamadas de vídeo para matar a saudade da filha Cecília, de dois anos. Laviola —seu nome de guerra— está em treinamento para a Minurso (Missão das Nações Unidas para o Referendo no Saara Ocidental). 

Ela já ficou cinco meses no Haiti, em 2014. “Deu um novo sentido para minha carreira e para a minha vida”, diz. No caso de Laviola, foi seu marido que viu a vaga da missão. O casal se conheceu no Quadro Complementar de Oficiais. “Meu marido foi um fator decisivo, só posso ir porque ele vai cuidar da Cecília”. 

A situação da tenente-coronel Ivana Mara Costa, 51, é parecida. Seu marido é professor de colégio militar, e os dois se revezam em viagens para ficar com as filhas. 

Ivana foi duas vezes ao Haiti, por períodos de sete meses, durante a infância e adolescência das meninas. Para ela, o julgamento veio de mulheres civis. “Elas falavam: ‘Você é corajosa de deixar a família’. Eu dizia: ‘Não estou deixando ninguém, ninguém foi abandonado. Estamos compartilhando responsabilidades.” 

Ivana trabalha na divisão de missão de paz do Exército e incentiva as colegas a assumirem essas vagas.

Ela diz, entretanto, que há poucas voluntárias, em parte pelo papel que se atribui à mãe de cuidar da família. “É cultural. A maternidade ainda tem um peso.” 

Segundo a pesquisadora sênior do Instituto Igarapé Renata Giannini, que fez um levantamento com militares sobre a presença das mulheres no Exército, ainda há uma dificuldade em aceitá-las no combate, especialmente as mães. 

Nas entrevistas, afirma ela, além das diferenças biológicas, a questão da família aparecia com muita força. “Ouvimos muito que a guerra não é lugar para mulher porque ela chora, menstrua e é a geradora da vida. Para eles, a mulher não pode ser combatente porque precisa cuidar do filho.” 

Giannini ressalta, entretanto, que nem todos têm essa visão. Os militares de turmas mistas tendem a ver as mulheres mais como profissionais. “O Exército está se abrindo, é importante reconhecer isso.”

Laviola também comemora. “As meninas [na Aman] estão construindo um novo Exército, com outro significado para o nosso papel. Dá muito orgulho”, diz ela, que faz fantasias para o futuro da filha: “Será que ela vai ser combatente?”.

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